Senhor Presidente

Caro amigo

Escrevo-te num dia importante para a Guiné-Bissau. Importante mas não bom. Porque este foi o dia em que foi a enterrar o Presidente de um país onde há três semanas se viveu mais uma tentativa de golpe de Estado. De um país que terá este ano duas eleições pelo menos e que não tem dinheiro. De um país órfão, com demasiados candidatos a padrastos. De um país que acorda amanhã sentindo que cumpriu o seu dever para com o Presidente mas que sente também demasiadas incertezas para o futuro. Malam Bacai Sanhá era um Presidente querido dos guineenses. Bastou vê-los, ontem a despejarem-se em peso no aeroporto de Bissau, onde chegou pela tarde o corpo de Malam Bacai Sanhá, diretamente de Paris, onde morreu no início da semana. Milhares de pessoas debaixo de um sol escaldante, muitas a fazerem logo cedo os 10 quilómetros até ao aeroporto, a pé, para depois descerem à cidade, em passo de corrida, ao lado do carro que transportava o corpo do Presidente. Quem viu diz que foi um sinal. Mais um.

Sinal de que o povo quer aquilo que Malam sempre defendeu, a paz, a reconciliação e a estabilidade da Guiné-Bissau. Foi forte a presença do povo neste fim-de-semana, ontem, mas também hoje, no funeral. Ruas repletas, homenagens mudas e gritos de “glória” e “Mambas”, como era chamado Malam Bacai Sanhá.

Hoje cumpriu-se o destino do Presidente e a missão do povo para com ele também. Mas com Malam não se enterraram os problemas. Amanhã há que digerir o golpe de 26 de dezembro, quando militares pegaram em armas, supostamente para destituir o governo. Amanhã haverá de novo acusações e criticas entre o governo e a oposição. Amanhã começa o processo de escolha de um novo Presidente, o problema de fazer cumprir a Constituição e realizar eleições em dois meses. Amanhã os guineenses acordam de novo num país com cheirinho a instabilidade e carregado de incertezas.

Certo certinho é que a Guiné-Bissau não é ainda um país estável. Mas o povo mostrou este fim-de-semana que é capaz de vir para a rua, em peso, por grandes causas. Pode ser que algum dia considere uma grande causa dar uns sopapos em quem não deixa que se cumpra o sonho de Malam Bacai Sanhá, de um país reconciliado e estável.

Um abraço

Fernando Peixeiro