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	<title>Atlântico expresso</title>
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	<description>Um mar de palavras e memórias</description>
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		<title>A sobrinha do Eugénio e o casamento de Lizha James</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Mar 2010 16:35:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo
O Eugénio trabalha comigo. Ontem, disse-me, estava um pouco triste: tinha recebido um telefonema durante a tarde, uma sobrinha tinha morrido. “De cobra”. O curandeiro disse que ela morreu porque mataram a cobra depois de ela ter atacado a sobrinha, explicou ele. Não me disse quantos filhas tinha, só me disse “vai para lá [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>O Eugénio trabalha comigo. Ontem, disse-me, estava um pouco triste: tinha recebido um telefonema durante a tarde, uma sobrinha tinha morrido. “De cobra”. O curandeiro disse que ela morreu porque mataram a cobra depois de ela ter atacado a sobrinha, explicou ele. Não me disse quantos filhas tinha, só me disse “vai para lá uma carrada de órfãos”.<br />
<span id="more-1057"></span>Lizha James e Bang casaram na semana passada, aqui em Maputo. Não houve ninguém que não soubesse porque a televisão fez tantos directos à volta do casamento que era impossível. Caso não saibas Lizha James é das cantoras mais conhecidas aqui de Moçambique. Chama-se na verdade Elisa James, nasceu em Dezembro de 1982 e ganha prémios praticamente todos os anos, o último no ano passado, quando foi considerada a melhor artista da África Austral no Channel O (da África do Sul), com a música “Xitilo xa Khale”.<br />
O Eugénio ainda ficou de lágrimas nos olhos quando me contou o caso mas não chorou. Podia ter-lhe dado o dia de folga mas não adiantava porque a sobrinha morava na Zambézia. Longe demais de Maputo, especialmente para quem não tem um carro e tem de viajar nos “chapas” e nas estradas deste país.<br />
A Lizha começou a cantar aos sete anos na Igreja Metodista Unida de Moçambique e aos 12 fazia parte do grupo coral da igreja. Dois anos depois, e até aos 17, integrou um grupo na altura aqui muito conhecido, Electro Base. Há 10 anos lançou o seu primeiro álbum a solo, Watching You. E desde então nunca mais parou. É bonita a Lizha.<br />
O Eugénio está preocupado agora com tanto órfão na família. Aqui há tempos morreram outras sobrinhas, deixando mais um número demasiado elevado de filhos. Morreram de diarreia. Disse-me. Se morrer mordido por uma cobra é tão irreal nos dias de hoje, morrer de diarreia também. Talvez fosse cólera. Mas ainda assim. São mortes tão inúteis, tão inglórias, tão absurdas. Não há mortes úteis e gloriosas, deves estar tu a pensar. E tens razão. Mas penso que me entendes. Eram evitáveis, facilmente evitáveis. Pronto.<br />
Em 2005 a Lizha James lançou o seu segundo álbum, Rainha do Ragga, e ganhou também o seu primeiro prémio, pouco representativo é certo mas um prémio. Pelo caminho fez publicidade, gravou vídeos, deu a voz para grandes empresas (ainda recentemente para um banco, um contrato por certo mais do que milionário). No ano passado apareceu com outro álbum, Sentimentos de Mulher, e este ano casou com o Bang, o seu empresário e namorado de longa data.<br />
Apesar dos avisos, dos alertas para que as pessoas tenham cuidado, a doença das mãos sujas, a cólera, continua a matar gente por aqui. E tendo em conta a dimensão do país e as dificuldades de comunicação nunca saberemos ao certo quantas são as vítimas em cada ano. Por estes dias o que chama mais a atenção são as outras mortes, paralelas à cólera, as mortes de pessoas que lutam contra a doença, às mãos daqueles que inevitavelmente a vão contrair, porque matam quem os tenta proteger.<br />
Na semana passada, aqui em Maputo, um dos canais privados de televisão, a STV, decidiu fazer uma coisa nova e transmitiu em exclusivo o casamento da Lizha e do Bang. Reportagens diárias com os preparativos da boda e muitos diretos no dia da festa. Da saída dos noivos de casa, da viagem até à Igreja Metodista Unida, onde foi a cerimónia religiosa, da viagem até ao Indy Village, o hotel do banquete. Tudo de branco vestido.<br />
Por azar, cólera e cloro são palavras parecidas. Essa semelhança esteve na origem, no ano passado, de ataques a voluntários da Cruz Vermelha que andavam a colocar cloro nas águas. E este ano, estes dias, a coisa refinou. A população foi mais longe e começou a ataca centros de saúde. Até agora já vão em oito mortos. Porque as pessoas não estão informadas e porque cólera e cloro são palavras parecidas. A primeira continua também a sua escalada: 36 mortos este ano, 1968 casos.<br />
O casamento da Lizha e do Bang teve direito a um estúdio móvel, muitas câmaras, jornalistas pelas ruas, champanhe no estúdio, directos e cinco limusinas, grandes como convém e de várias cores. Cinco limusinas além de todo o outro desfile de carros topo de gama.<br />
Não são juízos de valor sobre o casamento do ano, como aqui foi chamado. É apenas o Moçambique a duas velocidades. O Moçambique de Maputo, onde é possível ter cinco limusinas num casamento transmitido em directo na televisão. E o resto do país, onde por vezes nem estradas há, nem um carro, ainda que velhinho, para levar alguém de urgência a um posto de saúde porque foi mordido por uma cobra.<br />
Isso se o posto de saúde não tiver sido destruído por aqueles que acreditam que alguém lhes anda a envenenar as águas salobras. Esses são os que não veem televisão. E por isso não veem as campanhas de sensibilização contra a cólera. Nem o casamento de Lizha James.</p>
<p>Um abraço</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Parti a caneta</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Feb 2010 08:00:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Resistente Fernando,
parti a caneta. Isso mesmo: escapou-se-me das mãos e foi direitinha ao chão de mármore do pátio da entrada. O aparo abriu-se, arreganhado, e nunca mais foi capaz de deixar sair um gatafunho que fosse. Não foi coisa recente. Há já uns meses que deixei de tomar notas com aquela vulgar caneta. Continuo a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Resistente Fernando,<br />
parti a caneta. Isso mesmo: escapou-se-me das mãos e foi direitinha ao chão de mármore do pátio da entrada. O aparo abriu-se, arreganhado, e nunca mais foi capaz de deixar sair um gatafunho que fosse. Não foi coisa recente. Há já uns meses que deixei de tomar notas com aquela vulgar caneta. Continuo a registar no papel, mas não é a mesma coisa. O que me consola é que ela vai voltar a exercer. Com um aparo novo. Telefonaram-me há dias a dizer: “A sua caneta vai ser reparada. Está na Suíça…”.<br />
<span id="more-1044"></span>Garanto-te que não é nada do que estás a congeminar. Não se trata de nenhum avião nem nenhum carro topo de gama com função acessória de escrever. É um discreto instrumento de escrita que me custou umas escassas dezenas de euros num sábado à tarde num centro comercial. Tem um depósito de tinta que deve ser abastecido de quando em vez para manter a eficácia, é leve, macia, desliza (deslizava) bem e afeiçoei-me a ela como quando simpatizamos com pessoas que conhecemos por acaso e de quem nos tornamos amigos. Caiu-me da mão um dia à noite quando repetia para enésima vez a frase que escrevo na correspondência que continua a chegar cá a casa em nome do antigo inquilino: “Destinatário desconhecido nesta morada”. Não faço ideia quem seja, mas há um banco que não pára de lhe escrever, mesmo recebendo de volta as cartas que deixo à disposição do carteiro. As mãos ocupadas, sacos, papéis, confusão e deixei cair a minha caneta preta. E tinha que ser logo com o aparo para baixo. Tem que levar um novo. Já me disseram que sim senhor, que teve que ir para a fábrica, imagina, só lá lhe podem pôr um aparo. Que seja. Quero-a de volta.<br />
Voltei às esferográficas de sempre, mas, insisto, não é a mesma coisa. É um escrever por escrever, um anotar porque tem que ser, a letra nem sai como antes, parece a de outro. E não tenho explicação. A não ser que tenha havido algum retrocesso ao tempo da escola primária, há quase 40 anos atrás. As esferográficas Bic eram então uma modernice e a professora era extremamente conservadora. Não senhor! Escrever tem que ser com caneta de aparo. E foi assim que arrumei as primeiras letras. Era uma caneta preta e verde, com um fole que se apertava e se largava depois de mergulhar o aparo no tinteiro. O sorvo enchia o depósito e lá saíam aquelas letras redondas, aquela escrita diferente de todos, numa altura em que ninguém imitava ainda as letras de forma batidas pelas máquinas de escrever, nem havia quem colocasse bolas em cima dos is.<br />
Mas agora, e garanto-te que não  é capricho, escrever com uma qualquer esferográfica é assim como trocar umas botas confortáveis por uns chinelos de enfiar no dedo quando se viaja de transporte. Percorre-se a mesma distância, mas há sempre um desconfortozinho, aquele incómodo causado pela falta de aconchego. Perde-se o andar firme, dão-se passos porque é preciso. É o que me tem sucedido, Fernando. Claro que, quanto a escrever mesmo, em definitivo, no trabalho, dispensam-se canetas, esferográficas ou lápis. Basta bater com os dedos nas teclas que saem as letras iguais, todas certinhas, indiferentes. O normal portanto. Mas tem-me acompanhado este frio de meter a mão no bolso interior esquerdo do casaco e não estar lá a caneta. Mas, só por aquela senhora da loja me ter telefonado a dizer que dentro de dias me deverá contactar a avisar que já chegou a caneta, até me sinto mais animado e olho aqui para os caracteres com outro ânimo.<br />
Um renascido abraço.<br />
António Martins Neves</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;">
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		<title>Seja lá o que for é bom</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Feb 2010 18:09:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo
Duas semanas em três cidades tipicamente europeias e aqui estou eu de novo em Maputo, a “minha África”, a minha casa. Não te vou falar da África do Sul, de como os campos são bonitos e bem tratados, das paisagens maravilhosas, dos parques, da vida selvagem. Nem sequer da simpatia do povo, que a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Duas semanas em três cidades tipicamente europeias e aqui estou eu de novo em Maputo, a “minha África”, a minha casa. Não te vou falar da África do Sul, de como os campos são bonitos e bem tratados, das paisagens maravilhosas, dos parques, da vida selvagem. Nem sequer da simpatia do povo, que a tem, ou da insegurança de Joanesburgo, que também a tem. Fixo-me no João, engenheiro, trabalha em Pretória.<br />
<span id="more-1041"></span>O João, como deves depreender pelo nome, é português. Nasceu e cresceu aqui em Moçambique e depois do 25 de abril mudou-se, atrás dos pais, para a África do Sul, onde vive desde então.<br />
É engenheiro, está envolvido nas obras do Mundial de Futebol, pede desculpa por falar mal português e nem sequer frequenta os clubes e associações lusas. Está, digo sem me enganar nada, perfeitamente integrado na sociedade, é um cidadão sul-africano que fala e pensa em inglês e sabe um pouco de afrikaans. Já foi a Portugal algumas vezes porque tem lá família.<br />
E foi a propósito dessas viagens que o João, que pensa em inglês, me disse: “quando chego a Portugal sinto-me em casa, é como se regressasse a casa”. Fiquei a pensar nisto. Não nasceu lá, não viveu nunca lá, é casado com uma inglesa, tem filhos que falam inglês e construiu uma vida aqui ao lado. Seria lógico, se calhar, que se sentisse em casa também quando chega a Inglaterra.<br />
Lembrei-me do Fernando Pessoa, quando disse, escreveu, “Minha pátria é a língua portuguesa”. Mas o João nem sequer fala fluentemente o português, antes o inglês. Fiquei a pensar nisso.<br />
Será o sentimento do João o mesmo que o meu quando, duas semanas depois, cruzei a fronteira entre a Suazilândia e Moçambique? O sentimento de regressar a casa? É certo que estou por aqui temporariamente, que a minha verdadeira casa está a 10 mil quilómetros, mas não consigo evitar sentir-me feliz de voltar a Moçambique depois de ir à África do Sul, por muito que se viva bem, melhor, aqui ao lado.<br />
Nem consigo evitar que, acabado de chegar, entre no restaurante Cristal para comprar pão e sinta que aquele espaço é um bocadinho meu. Que Maputo me pareça mais bonita. Que a troca de palavras com os empregados me dê prazer. Que me sinta mais livre. Em casa, enfim.<br />
O prazer de viajar é também, sinto eu, o prazer de regressar. Rentabilizo assim um simples passeio de 15 dias, o antes, a antecipação do que vai ser, o durante, e o regresso. Algumas vezes me apeteceu ficar mais tempo nalguns lugares. Numa me apeteceu não regressar a casa.<br />
Mas persiste a minha dúvida em relação ao João, ao regressar a uma casa que nunca foi a dele.<br />
Ou se calhar sempre foi a dele.<br />
Deve estar aí o segredo. É que, se calhar, a nossa pátria não é só a língua portuguesa. Há mais alguma coisa por aí, por aqui, que me faz sentir que estou a regressar a casa quando volto à Praia vindo do Senegal, ou quando volto a Maputo vindo de Durban.<br />
E seja lá o que for, olha, é bom.</p>
<p>Um abraço<br />
Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Um grande país</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Jan 2010 21:37:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo
É quase meia-noite em Pretória. Uma noite fresca e sem chuva, como foi o dia de hoje em Joanesburgo. Estou há quase uma semana pelas terras do Rand e escrevo-te em formato bilhete-postal, que a esta hora estou cansado e amanhã é mais um dia cheio de trabalho.
E aproveito para te dizer que aqui [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>É quase meia-noite em Pretória. Uma noite fresca e sem chuva, como foi o dia de hoje em Joanesburgo. Estou há quase uma semana pelas terras do Rand e escrevo-te em formato bilhete-postal, que a esta hora estou cansado e amanhã é mais um dia cheio de trabalho.<br />
<span id="more-1039"></span>E aproveito para te dizer que aqui se come muito bem e este é um país muito bonito. Joanesburgo é também uma cidade que vale a pena. Cercada de arame farpado, é certo, com bairros impossíveis, é certo. Talvez também por isso valha a pena.<br />
São, é certo também, cidades que dormem cedo (em África é normal), mas na noite de Pretória não oiço tiros ou sirenes de polícia. E no dia de Joanesburgo não senti também que corresse perigo, embora ali chegasse com todas as notícias que nos surgem aí sobre a violência. Tenho perguntado e acho que é maior, muito maior, a percepção de violência do que a violência ela mesma.<br />
Vou dentro de alguns dias a Durban, depois te direi como é este país que vai acolher o Mundial de Futebol, já ali em Junho.<br />
Mas a África do Sul é, podes acreditar, diferente do resto de África. Há zonas aqui de Pretória que fazem lembrar Madrid. Talvez com mais árvores e mais espaços verdes, onde se joga, se fazem piqueniques ou simplesmente se rebola. Maputo, aqui ao lado, e tão diferente, tão parecido com o resto de África.<br />
Depois te direi. E espero que não tenha para te contar uma história de faca na liga. Ou pior ainda de AK47 na liga. Ainda assim este continuaria a ser um grande país.</p>
<p>Um abraço</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Uma ou duas semanas</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Jan 2010 17:51:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo
Imagino-te aí saturado de tanta água, como eu quando aí estive, mas ao escrever-te é o calor que me aflige mas também a falta dela. O Verão está ao rubro em Maputo e a cidade continua bonita, agora já de acácias vermelhas e amarelas, às vezes colorindo só os passeios, outras as bancas de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Imagino-te aí saturado de tanta água, como eu quando aí estive, mas ao escrever-te é o calor que me aflige mas também a falta dela. O Verão está ao rubro em Maputo e a cidade continua bonita, agora já de acácias vermelhas e amarelas, às vezes colorindo só os passeios, outras as bancas de vendedores ou quem dorme à sua sombra, coisa normal nas ruas desta cidade. E no entanto tenho já saudades de Lisboa.<br />
<span id="more-1037"></span>Como tinha, na verdade, de Maputo quando aí estive. Da confusão das ruas, com carros a virar para todos os lados ou a parar sem qualquer sinalização, os homens a carregar carrinhos cheios de fruta em plena via, a complicar ainda mais, os mais atrevidos a largar os automóveis mesmo no meio de uma rotunda.<br />
Ou então das pequenas bancas em cada esquina, aqui mesmo ao lado na 24 de Julho, onde se compram cenouras, e batatas, e tomates a 40 meticais o quilo, e ovos a 30, e cigarros a vulso. A calma das pessoas, que muitos chamam indolência mas que é só uma maneira diferente de gerir o tempo, porque por aqui tudo se passa muito mais devagar.<br />
Para quem vive aqui uns tempos e faz depois uma viagem de metro, no Inverno de Lisboa, entre Alvalade e Jardim Zoológico, mudando de linha duas vezes, que diferença na expressão das pessoas, nas cores e na falta de alegria, na pressa, nos olhares para os relógios. Aqui ainda se vive sem eles e também há os que os usam mas só para mostrar que têm, porque na verdade nem funcionam. Nem faz falta.<br />
E no entanto tenho saudades de Lisboa.<br />
Não sei se faz bem à saúde estar assim dividido mas acontece-me sempre que viajo e durante uma ou duas semanas. Querer estar lá quando estou cá, querer estar cá quando estou lá. Tenho saudades da ordem de Lisboa e tenho saudades da desordem de Maputo.<br />
No próximo ano devo de regressar definitivamente a casa. E quando isso acontecer não tenho dúvidas que vou ter muitas saudades da luz e do sol de Maputo, de ver de tudo à venda em cada esquina, dos jovens que me vendem cigarros na janela do carro, das mulheres de capulana sentadas à sombra das acácias a vender raminhos de salsa e coentros, às vezes no meio de muitas outras verduras e frutas, às vezes dormitando, cabeça encostada ao tronco da árvore.<br />
E dos sorrisos abertos das pessoas, que não viram as costas quando pergunto alguma coisa, que se riem muito alto quando tento por engano pagar com 10 meticais uma coisa que custa 50. Ou ao contrário. Acabado de chegar, no início desta semana, perguntava numa pastelaria: O café é 50 meticais? E o empregado, soltando uma sonora gargalhada, daquelas que se ouvem na sala toda: é metade!<br />
Enganei-me. Estava ainda a pensar em cêntimos. Mas estas coisas passam depressa. Como também passa depressa este querer estar cá e lá. Uma, duas semanas no máximo. Espero, caro amigo, do fundo do coração, que seja também assim quando um dia regressar definitivamente a casa. Que a nostalgia de Moçambique me passe em uma, duas semanas. Porque não sei se faz bem à saúde estar assim dividido.</p>
<p>Um abraço, com votos de bom ano</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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		<title>E tu? Davas-lhe o tal abraço?</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Dec 2009 17:26:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo
Falei-te de uma mulher na minha última carta, não resisto hoje a falar-te de outra. Tal como a Suzana Custódio é, deve ser, tem de ser, uma força da natureza. Ao contrário da Suzana não passei com ela uma manhã mas apenas 10 minutos de uma manhã. E não me falou de quantas vezes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Falei-te de uma mulher na minha última carta, não resisto hoje a falar-te de outra. Tal como a Suzana Custódio é, deve ser, tem de ser, uma força da natureza. Ao contrário da Suzana não passei com ela uma manhã mas apenas 10 minutos de uma manhã. E não me falou de quantas vezes chorou. Mas devem ter sido muitas, imensas.<br />
<span id="more-1035"></span>Falo-te hoje de Flora Ngume. Conversei com ela quando fui há dias fazer um trabalho sobre a AMMEC, Associação Moçambicana para a Mulher Ex-combatente. Coisa simples, cheguei lá, falei com a presidente da associação, o que era e o que fazia, e depois perguntei-lhe se não poderia falar também com outra ex-combatente, uma que tivesse, basicamente, andado aos tiros. E apareceu-me a Flora.<br />
A Flora pegou em armas sim. Não durante a guerra colonial, que é demasiado jovem para isso, mas na guerra civil, entre FRELIMO e RENAMO, aquela que, como sabes, durou entre 1976 e 1992 e que terá provocado qualquer coisa como um milhão de mortes.<br />
Flora Alberto Ngume contou-me em poucos minutos a sua vida e, confesso, nem tive coragem de pedir pormenores. O que ela disse foi o suficiente para sair de lá aturdido. Gostava de lhe ter dado um abraço mas não tive coragem. Sabes como é, aquela frieza e distância que temos a mania de pôr quando estamos a trabalhar.<br />
Foi raptada aos 11 anos pela RENAMO, levada para o mato, e ensinada a manejar armas durante três anos. Aos 14 estava pronta para empunhar uma AK47, a famosa metralhadora, e andou com ela, pelo mato, na frente da guerra, até aos 20, até ser desmobilizada pelas Nações Unidas.<br />
“Fui desmobilizada pela ONUMOZ no dia 12 de Julho de 1994, quando me levaram do mato para casa”. Os últimos dias antes do fim da guerra, disse-me, foram os piores, quando andava, grávida, a fugir dos bombardeamentos da FRELIMO.<br />
Chegou, com a RENAMO, às portas de Maputo, andou no mato meses e meses, ela e outros combatentes “morriam de fome” e pensou muitas vezes fugir. “Não sabia para onde ir, estava no mato e não sabia o que fazer”.<br />
Não me disse, e não lhe perguntei, quantas pessoas matou. Não me disse e não lhe perguntei quantas pessoas viu morrer. Disse sim que na luta havia tantas mulheres como homens e que quando ela foi raptada também o foram outras crianças, algumas com “cinco ou seis anos”.<br />
“Era difícil mas acostumámos”. Resumiu assim os nove anos. Ela e mais 4.000 outras mulheres moçambicanas que combateram na guerra civil que também tiveram de se acostumar, como por certo os outros tantos homens, provavelmente também muitos deles alistados à força quando meninos.<br />
Em Moçambique “quando se trata da mulher é difícil, mas quando se trata de guerra ainda é mais difícil. Quando ficavam de bebé mas tinham de fazer marchas longas, com o período, com chuvas, sem condições mínimas de higiene”. Palavras da presidente da AMMEC, e eu acredito.<br />
Por isso não perguntei à Flora sobre como foram os anos no mato, as relações com os mais velhos, as privações. A frase “eles faziam o que queriam” bastou-me.<br />
E agora, passados todos estes anos? A resposta também foi muito elucidativa:<br />
“Há coisas que podem passar mas tenho uma ferida incurável no meu coração. Quando fui levada aos meus 11 anos, as minhas amigas e os meus amigos que estudaram comigo hoje são doutores, mas eu, desempregada como sou, saí da tropa grávida de oito meses, tive uma menina, e para sustentar essa menina tenho de suar dia e noite. Como é que vou esquecer isso?”.<br />
E tu? Davas-lhe o tal abraço?</p>
<p>Um para ti<br />
Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Suzana, a construtora</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Nov 2009 11:54:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo
Quem vê Susana Custódio dificilmente a imagina a chorar. É alta, forte, uma torre de mulher e um sorriso permanente na cara grande. Ar decidido, voz ainda mais e nós a sentir que ao pé dela estamos protegidos dos males do mundo. Susana Custódio criou uma aldeia. É uma força da natureza.
E no entanto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Quem vê Susana Custódio dificilmente a imagina a chorar. É alta, forte, uma torre de mulher e um sorriso permanente na cara grande. Ar decidido, voz ainda mais e nós a sentir que ao pé dela estamos protegidos dos males do mundo. Susana Custódio criou uma aldeia. É uma força da natureza.<br />
<span id="more-1031"></span>E no entanto ela chora. Conta que chorou quando teve de acolher dezenas de pessoas aqui de Maputo que um dia ficaram sem casas, devido às cheias, chorou quando passados meses o local ainda estava inundado, e chorou depois, quando conseguiu um terreno para toda aquela gente começar uma vida nova.<br />
Já lá vão nove anos, quase 10, e ainda hoje Susana Custódio se emociona quando lembra aquele Inverno chuvoso, tanto que alagou Chamanculo C, um bairro aqui de Maputo. Centenas de pessoas ficaram sem casas, algumas delas a procurar ajuda no Convento de S. José, onde estava a irmã Susana, franciscana hospitaleira, que já viveu na congregação (portuguesa) em Leiria, S. João da Madeira e Vila Real.<br />
Foram 64 famílias que acolheu na altura e que durante seis meses viveram no externato. E quando chegou a hora de voltarem para casa… “Voltámos lá (Chamanculo) e havia lagoas de água verde, mosquitos, os dedos das pessoas estavam esbranquiçados. Desde esse dia não dormi bem, falei com as irmãs, movimentei a Cáritas, falei com o Conselho Municipal e eles disseram que dinheiro não, mas tinham terreno”.<br />
Foi o princípio de uma nova vida. Terreno, vontade e Suzana Custódio. Não era preciso mais nada. Hoje, em Momemo, aqui a poucos quilómetros de onde te escrevo esta carta, nasceu uma aldeia. Onde só havia árvores e mato vivem hoje 650 famílias. E muitas mais vão a caminho.<br />
A aldeia, que nem chega a sê-lo, a avaliar pelo nome, Bairro 4 de Outubro (assinatura do acordo de paz entre RENAMO e governo), tem sete mil habitantes e há casas a fazer para mais mil. Há um centro de saúde, uma escola primária, uma escola de formação profissional, padaria, serralharia, carpintaria… Suzana mostra o seu mais novo projecto, uma criação de frangos, enquanto ao lado se constroem casas, um lar, uma zona de apartamentos para alugar, uma sala para grandes reuniões, um campo de futebol, outro de basquetebol.<br />
“Quando chegámos o terreno era mata, os primeiros ainda ficaram em tendas oito meses. Depois abriram-nos a primeira estrada e eu chorei”.<br />
Hoje há estradas ligando o bairro todo, fazem-se casas para acolher mulheres desprezadas pela família por motivos que nem te vou falar, com tijolos feitos mesmo ali, numa fábrica que Suzana Custódio também mandou fazer. É uma mulher feliz que me fala, e grata, especialmente com o governo português que tem apoiado incondicionalmente (alguma coisa que faça bem!). E triste de novo, a lágrima fácil a aparecer, quando mostra os internatos para 256 meninos e meninas, porque neste país há tanta criança desprotegida e sem ninguém que nem imaginas tu.<br />
“Que é que havemos de fazer? Há dias apareceram-me mais seis, cujos pais tinham morrido com Sida”. Todos os dias dramas novos, crianças grávidas e abandonadas, maltratadas, doentes. Suzana acolhe cada um e faz deles o seu próprio drama, como o de Nora, de Inhambane, abusada sexualmente pelo avô e que lhe apareceu ali com as duas pernas partidas. Histórias que nem te vou reproduzir, imagens que nem te vou descrever, porque esta carta é suposto ser alegre.<br />
Termino, por isso, com “imagens” de felicidade. Uma cesta com bens essenciais para famílias carenciadas, todos os meses, é uma dessas. Como as festas semanais, a musica e a dança.<br />
E o bairro. As casas e as ruas cheias de alunos de uniformes azuis e brancos. O jardim infantil com crianças a cantar. E a irmã Suzana Custódio, Hoje, a chorar só se de alegria.</p>
<p>Um abraço</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Uma carta de desabafo</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Oct 2009 21:35:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo
Quando tu viste aí em Lisboa os apoiantes de Isaltino Morais e Marcos Perestrelo pegarem-se de razões deves ter corado um bocadinho. De vergonha. Eu acho que corei, e estou a 10 mil quilómetros. Pois bem, para que não te falte nada aqui fica mais uma carta de consolo.
Em Moçambique, ao contrário de Portugal [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Quando tu viste aí em Lisboa os apoiantes de Isaltino Morais e Marcos Perestrelo pegarem-se de razões deves ter corado um bocadinho. De vergonha. Eu acho que corei, e estou a 10 mil quilómetros. Pois bem, para que não te falte nada aqui fica mais uma carta de consolo.<br />
<span id="more-1028"></span>Em Moçambique, ao contrário de Portugal um país muito, muito grande, a campanha eleitoral dura 45 dias. Começou dia 13 de Setembro e vamos agora entrar nas últimas duas semanas, aquelas que previsivelmente mais quentes serão.<br />
Mas não penses que isto tem sido fácil por aqui. São dezenas e dezenas as notícias sobre murros e pontapés, pedradas, pauladas e facadas, incêndios, empurrões, bofetões, agressões e palavrões, e isto só para rimar, que a lista seria interminável. É o costume, dizem-me por aqui, e é pena, digo eu, também por aqui.<br />
Ainda hoje, há pouco tempo, a RENAMO, partido da oposição, se queixava da FRELIMO, partido no poder, não deixar ninguém fazer a campanha descansado, porque mal sabe de um acção de campanha dos outros lá vai com umas bandeiras e uns apitos desestabilizar a coisa.<br />
Eu não sei o que se passa no resto do país mas aqui em Maputo já assisti por duas vezes a isso, não com RENAMO mas com o MDM, outro partido da oposição. Um belo destes sábados, quando o MDM se preparava para fazer um comício num campo de futebol, a FRELIMO encheu o local de crianças e mulheres com bandeiras, fazendo o máximo de barulho possível. Desconcertado, o MDM foi para outro sítio fazer o comício, depois mudou de ideias e acabou à frente de um supermercado, desmotivada e quase sem ninguém a assistir à coisa.<br />
Dias depois, em Boane, aqui perto também, a FRELIMO perseguiu a caravana do MDM por todo lado e a coisa, claro, descambou. Só à minha parte assisti a três rixas entre apoiantes, uma delas bastante feia, com gente rebolando pelo chão, paus de bandeira sem bandeira e a polícia a ver-se grega para separar o povo. Um tiro para o ar acalmou os ânimos. E desta vez foi mesmo para o ar, creio, porque há pouco tempo ainda, aqui em Maputo, numa perseguição, a polícia atirou para o ar e… matou um operário que trabalhava numa varanda. Tão verdade como eu estar aqui sentado num sofá a escrever-te, enquanto na televisão passa um filme com a Sigourney Weaver.<br />
Mas não é só a FRELIMO a má da fita, pelo que vejo nas notícias todos têm a tentação de calar os outros, um belo exercício de défice democrático, uma frase tão do agrado aí em Portugal. Há gente da FRELIMO ferida por gente da RENAMO, há gente do MDM com nódoas negras provocadas pela gente dos outros partidos, e assim caminhamos calmamente campanha acima.<br />
Nos últimos dias parece que melhorou. Por este andar, se a campanha em vez de ser 45 dias fosse três meses talvez os apoiantes de cada partido chegassem ao fim a perceber que a campanha eleitoral devia ser uma festa, e que imagens de pessoas ensanguentadas não os dignifica, nem a democracia, nem o país.<br />
É certo que a maioria, a grande maioria, da população não alinha nestes disparates. E condena-os. Mas da mesma maneira que umas porraditas em Algés ficam mal a Portugal, umas porraditas aqui, ainda que fossem só uma vez, também não ficam melhor a Moçambique. Nem ao ser humano.<br />
Mas pronto, porque desconfio que esta carta de consolo, para ti, está mais a servir de desabafo, para mim, ficamos por aqui, para ver se percebo porque é que aquela mulher está para ali aos tiros e a chorar.<br />
E prometo que na próxima carta não te falo de política. Vou falar-te da Susana, uma força da natureza, a esta hora por certo longe de campanhas e mais preocupada com valores tão altos como ela própria.</p>
<p>Um abraço, e domingo, ainda assim, não deixes de ir votar</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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		<title>História do homem que anda</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Sep 2009 09:00:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Perspicaz Fernando,
em momentos como o actual, entram-nos todos os dias pela casa dentro caras e vozes a tentar-nos convencer que são de uns predestinados capazes de nos salvar do apocalipse. É quase sempre assim antes de eleições. Um desfile de líderes políticos a suarem por nos fazer crer que o nosso bem estar é a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Perspicaz Fernando,</p>
<p>em momentos como o actual, entram-nos todos os dias pela casa dentro caras e vozes a tentar-nos convencer que são de uns predestinados capazes de nos salvar do apocalipse. É quase sempre assim antes de eleições. Um desfile de líderes políticos a suarem por nos fazer crer que o nosso bem estar é a sua maior preocupação, que se lhe dermos o voto, é desta que o país irá onde nunca foi. O costume há mais de 30 anos. Nada habitual é alguém comportar-se como tendo uma missão a cumprir sem dar por isso, justificá-la numa frase com meia-dúzia de palavras e ninguém encontrar a mais remota explicação para um comportamento só registado pelos mais atentos.</p>
<p><span id="more-1021"></span>Augusto C. não tem a mais pequena queda para político, mal se lhe entendem as palavras da boca sumida e a sua capacidade de liderança nunca deve ter sido avaliada, para bem dele. O que lhe falta nestas matérias tão desenvolvidas pela ambição dos tantos que querem tomar nas mãos as rédeas da coisa pública, sobra-lhe em perseverança, que dispõe numa quantidade colossal, incalculável mesmo. E que faz o pequeno homem de tez quase negra, boné e uma dificuldade enorme em levantar os pés do chão? Anda! Mas não dá pequenos passeios. Percorre pelo menos uma dúzia de quilómetros diariamente. E porquê? Ao que me contam, costuma responder: “Tenho que ir às compras”. Ninguém acredita muito na explicação, tanto mais que costuma andar com a caixa que fixou por cima da roda traseira da bicicleta quase sempre vazia. Bicicleta? Não anda a pé?? Anda, mas sempre com a uma bicicleta ao lado, daquelas para aí com a idade do 25 de Abril. Em vez de uma bengala, apoia-se nas duas rodas, em cima das quais já deixou de se conseguir equilibrar há que tempos. Anda pela faixa de rodagem, encostado aos passeios, às bermas, e usa um colete reflector verde, igual aos que são obrigatórios para os automobilistas quando ficam empanados ou têm acidentes na estrada.Os dias correm quase sempre iguais: uma viagem de manhã para “ir às compras” com partida do bairro, passagem por outros dois até ao destino. Ali chegadao, bicicleta trancada num daqueles pinocos anti-carros em cima dos passeios. E o cão a guardar. Sim, Agusto C. tem um cão, pequeno como ele, que lhe segue os passos quando devidamente autorizado. Vai à solta, farejando aqui e ali, uma vezes atrás outras à frente, algumas correndo outras deslocando-se com preguiça. Feitas as “compras”, regressa a casa antes da hora do almoço. Quando a viagem decorre em locais com pouco trânsito, o cachorro ostenta um pose mais descontraída e solta, quando os carros surgem ameaçadores cola-se aos pés do dono. Ah, um pormenor nada irrelevante: cada uma destas tiradas é desenvolvida em etapas que terminam e começam metamaticamente nas diversas tabernas e cafés que existem no caminho. Depois de almoço a dose é repetida. E no dia seguinte e no outro e no outro&#8230;<br />
Dirás tu daí: então isso tudo não configurará alguma dependência das escalas nos balcões para “matar a sede” causada pela andança? Então mas se o podia fazer a dezenas de metros de casa, por que raio se sujeita a tamanha e estafante rotina? Uma vantagem tem seguramente: o exercício a que se impõe e que lhe impede a contemplação do mundo a partir de uma cadeira empalhada como é banal noutros reformados da sua geração. Para quem vê e ouve de fora, o resto afigura-se uma espécie de segredo à espera de ser revelado. Que também não deverá ter nada de extraterreno, mas apenas e só alguma necessidade do corpo ou da alma.<br />
Fica o exemplo da persistência e, recorrendo um pouco à imaginação, da convicção. Qual? Não faço ideia. Olha, deve ser porque sim&#8230;</p>
<p>Um insistente abraço</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Uma carta de consolo</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Sep 2009 12:26:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo
Tenho acompanhado de longe, claramente de longe, a campanha eleitoral aí mas imagino que a ti não te passa pela cabeça o que por aqui vai. A campanha começou no mesmo dia que por essas bandas mas só acaba a 25 de Outubro. E hoje, quase duas semanas depois, ainda não se sabe ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Tenho acompanhado de longe, claramente de longe, a campanha eleitoral aí mas imagino que a ti não te passa pela cabeça o que por aqui vai. A campanha começou no mesmo dia que por essas bandas mas só acaba a 25 de Outubro. E hoje, quase duas semanas depois, ainda não se sabe ao certo quantos são os partidos concorrentes. A política é uma coisa muito gira não é?<br />
<span id="more-1019"></span>A salgalhada por aqui mete a Comissão Nacional de Eleições, o Conselho Constitucional, 19 países e instituições que se fartam de dar para cá dinheiro e uma dezena, coisa pouca, de partidos.<br />
Em resumo, quando se anunciaram as eleições, presidenciais, legislativas e provinciais, que nisso os moçambicanos são mais inteligentes e poupados, apareceram 29 partidos e coligações a concorrer, alguns deles, como aí, só à procura de tempo de antena e de uns dinheiros para ir aguentando a época das chuvas, que está a chegar.<br />
Como é da lei, os partidos submeteram as candidaturas à CNE, que chegou ao fim do processo e chumbou 10. Antes já tinha chumbado uma carrada de candidatos a presidente, mas nisso ninguém ligou, ficaram três, que é uma bonita conta.<br />
Mas com os partidos a coisa fiou mais fina. A CNE disse que não fizeram nada correcto, os partidos que não, que entregaram tudo a tempo e horas, a CNE respigou, os partidos resmungaram e andamos nisto há que tempos.<br />
Acontece que entre os 10 partidos há um, o MDM, que é a coqueluche do momento. Liderado por Daviz Simango, o autarca da Beira tido como modelo, afastado da Renamo por quem tinha ganho, venceu as últimas autárquicas folgadamente, como independente, e fundou o novo partido. Vai a CNE e pimba, diz que concorre sim senhor mas só em quatro dos 11 círculos eleitorais, cortando de uma vez qualquer aspiração de Simango fazer mais uma bela faena.<br />
Eu não sei se teve influência ou não mas o que é facto é que a comunidade internacional, os tais 19 países e instituições, não gostou nada. E uma bela manhã reuniu-se com a CNE e descascou forte e feio no presidente da dita. E foi depois ao Presidente da República e por estes dias deu uma conferência de imprensa a avisar que está atenta. Com que legitimidade? Pois com a legitimidade de quem contribui com mais de metade do orçamento de Estado deste país. Foram eles que disseram.<br />
A CNE mandou a batata quente para o Conselho Constitucional e ela por lá está, a arrefecer, ou aquecer. Até dia 28 será esse órgão que vai dizer quem vai concorrer afinal às eleições e onde.<br />
Avizinham-se dias cinzentos por aqui. Isto sem contar com as constantes notícias de agressões, prepotências, mal-entendidos e parvoíces que estão a rechear estes primeiros dias de campanha. Os feridos já são mais que muitos mas que saiba ainda não houve nenhum morto, embora ontem a imprensa tenha noticiado um, da Renamo, atacado por apoiantes da Frelimo, mas a própria Renamo veio dizer que afinal o homem só tinha desmaiado.<br />
Serve esta carta, portanto, para te desanuviar a tristeza que imagino que essa campanha aí te dá. Quer queiramos quer não, apesar de dizermos que com o mal dos outros podemos bem, sentimos sempre algum conforto em saber que não estamos sós no mundo.</p>
<p>Um abraço solidário</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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