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	<title>Atlântico expresso</title>
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	<description>Um mar de palavras e memórias</description>
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		<title>A Praça</title>
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		<pubDate>Tue, 01 May 2012 13:20:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo Quase três semanas depois do golpe de Estado a Guiné-Bissau não vê resultados. É em Bissau que tudo se discute, que tudo se decide, que se fazem os golpes e de desfazem, que se contam mentiras e meias verdades, que se mata enfim. Chama-se aqui “a Praça”. A zona comercial e de escritórios, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo<br />
Quase três semanas depois do golpe de Estado a Guiné-Bissau não vê resultados. É em Bissau que tudo se discute, que tudo se decide, que se fazem os golpes e de desfazem, que se contam mentiras e meias verdades, que se mata enfim. Chama-se aqui “a Praça”. A zona comercial e de escritórios, dos serviços e de alguns ministérios, do forte de Amura onde estão os militares, do porto, correios, imprensa, bares e restaurantes. Mas a Guiné, caro amigo, não é a Praça. E isto a gente da Praça ainda não entendeu.<br />
<span id="more-1288"></span>Por estes dias, por estas tardes enormes de espera à porta de reuniões sem fim e sem resultados, tenho amigos jornalistas que, em desabafo, dizem às vezes que têm vergonha de ser guineenses. A conversa acabou já algumas vezes comigo a dizer que a solução para a Guiné é fechar o país e deitar a chave para o mar dos Bijagós. Acabamos todos a rir. E ainda bem, que não são muitas as coisas que nos fazem rir aqui.<br />
Especialmente para quem vive na Praça. Não precisas de viajar muito para perceber isso. Na estrada de Prabis, por exemplo, a seguir a Cumura, quando as casas de Bissau começam a escassear, sentes que o ar que respiras é outro. O golpe e os militares, os políticos e os que querem ser, os que mandam e os que querem mandar, parecem estar longe de mais. E a Prabis não chega o som dos tiros da Praça.<br />
Mas chega a fome e a miséria que emana das convulsões contínuas da Praça. Queixa-se uma mulher de que só tem mangas verdes e caju para dar aos filhos, diz outra que não tem nada, só fome, só fome, fica feliz outra ainda porque com o euro e meio que lhe dei por quatro mangas pode nessa noite comer arroz.<br />
Nos campos de Prabis ouvem-se os pássaros e o som do fruto do caju a cair, nesta altura sem parar. Ouvem-se os passos das mulheres e das crianças nas folhas secas, apanhando o caju durante a manhã. Ouvem-se as crianças a brincar ao lado da estrada. Ninguém quer saber da Praça e do que por lá vai. Mas já todos perceberam que enquanto nela não se entenderem ninguém vai comprar o caju.<br />
À tarde as mulheres tiram a castanha do caju e esmagam o fruto. Dessa “água”, como lhe chamam, se irá fazer o vinho. É o único ganho de muitas, porque a castanha irá para os donos das terras e depois vendida em contentores para a Índia. Nem toda, que alguma terão de torrar e comer à noite, à falta de tudo o resto.<br />
Vive-se mal no interior da Guiné-Bissau. Em paz mas mal. E não se vive bem sequer na Praça. Há uma minoria com dinheiro e há outra que quer lá chegar. E depois há o resto, o povo que sobrevive, os meninos que limpam sapatos, as mulheres que vendem legumes à beira da rua, debaixo dos 30 e tal graus, os jovens que vagueiam sem emprego, os que vendem cartões de telemóvel, café ou água, gelados de sumo de calabaceira ou bolos em forma de donuts.<br />
Na Guiné-Bissau a política é “a única fonte de acumulação de meios de sobrevivência”, dizia-me há tempos o diretor do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa, Mamadu Jao.  “O poder é tudo neste país, a Guiné-Bissau terá de se organizar de forma a criar mais oportunidades para os cidadãos. Há que organizar o país para que as pessoas possam encontrar outras alternativas de sobrevivência que não seja o poder”.<br />
“É uma falta de organização do próprio país, na medida em que quem está no poder tem tudo e quem está fora não tem nada”. Na Guiné-Bissau “ tudo passou a ser em torno do poder, porque o poder controla tudo”, ser “engenheiro ou ser doutor não conta, e ser político, mesmo que analfabeto é o que importa neste país”.<br />
Tenho pensado muito nestas palavras quando vejo as lutas pelo poder na Praça. Mas também tenho pensado muito naquela gente que longe da Praça sofre com o que dela sai.<br />
Para mim não é o país que precisa de ser fechado. Feche-se a Praça!<br />
Um abraço<br />
Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Mas qual cultura?</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Feb 2012 21:05:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Guiné-Bissau]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo Ontem 06 de fevereiro, deverás ter dado por isso, assinalou-se o Dia Mundial de Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina. Aqui na Guiné-Bissau quase metade das meninas entre os sete e os doze anos sofreram alguma forma de amputação do clitóris ou dos lábios vaginais. Poupo-te aos pormenores de uma prática que é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo<br />
Ontem 06 de fevereiro, deverás ter dado por isso, assinalou-se o Dia Mundial de Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina. Aqui na Guiné-Bissau quase metade das meninas entre os sete e os doze anos sofreram alguma forma de amputação do clitóris ou dos lábios vaginais. Poupo-te aos pormenores de uma prática que é proibida desde o ano passado. Mas que se faz em nome da cultura e da tradição.<br />
<span id="more-1283"></span>É verdade que a coisa está a cair em desuso aqui em Bissau. Mas o mesmo não se passa na zona leste, nas regiões de Bafatá e Gabu, ou em Cacheu, no norte, ou mesmo em Bolama, Tombali e Quínara, mais a sul. Há algum tempo estive em Bafatá, no rasto da “cultura” e das fanatecas, as mulheres profissionais da excisão, feita às vezes com lâminas de barbear, a frio e sem desinfetantes.<br />
Não as encontrei, ou elas não quiseram que eu as encontrasse. Mas falei com o governador de Bafatá, Adriano Ferreira, e ele disse aquilo que toda a gente sabe: apesar de proibida, a mutilação continua a fazer-se às escondidas.<br />
Desde setembro que a prática foi proibida em todo o país e ainda no ano passado uma mulher acabou por ser detida, para grande indignação das pessoas em Bafatá. Coitada, não sabia que era proibido, diziam uns, sabia muito bem que era proibido, disse Adriano Ferreira.<br />
E disse mais, sete palavrinhas terríveis: “se dissermos que já acabou é falso”. É verdade que noutros anos, pelo outono, encontravam-se pelas estradas de Bafatá cortejos de meninas com as vestes cerimoniais de incisadas. É verdade que nos últimos meses desapareceram esses grupos. E é verdade também que não estão nas estradas mas estão nos matos, onde em nome da cultura se pratica um ato que as vais marcar para o resto da vida. Se sobrevierem a ele. E não são meia dúzia de meninas:  “Tradicionalmente todas as miúdas devem de ser circuncidadas” – Adriano Ferreira.<br />
As autoridades tradicionais acham que é preciso divulgar mais a lei. Mas a mim pareceu-me que não estão a ser sinceras. Porque não dizem que são contra a proibição. A verdade é que já foram condenadas pessoas, há poucos dias, por terem praticado a excisão, mas Saliu Tcham, representante das fanatecas, diz que não é pela força que a lei será respeitada.<br />
As autoridades guineenses falam em 300 mil mulheres afetadas pela excisão. E que 80 mil meninas corram o mesmo risco. Mas a verdade é que também as estatísticas da Guiné-Bissau não são confiáveis.<br />
Ontem, aqui em Bissau, o Comité Nacional para o Abandono de Práticas Tradicionais Nefastas à Saúde da Mulher e da Criança homenageou as Nações Unidas, pelo apoio que tem dado ao fim da mutilação genital feminina.<br />
Mas é também uma organização das Nações Unidas que dá conta de que entre 100 a 140 milhões de meninas e mulheres sofrem as consequências da prática “cultural”. Em África deverá haver 92 milhões de meninas mutiladas. Em nome de quê? Da tradição? Da cultura? Caramba! Mas qual cultura? De que cultura estamos a falar?<br />
Um abraço<br />
Fernando Peixeiro</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Senhor Presidente</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Jan 2012 22:50:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Guiné-Bissau]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo Escrevo-te num dia importante para a Guiné-Bissau. Importante mas não bom. Porque este foi o dia em que foi a enterrar o Presidente de um país onde há três semanas se viveu mais uma tentativa de golpe de Estado. De um país que terá este ano duas eleições pelo menos e que não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Escrevo-te num dia importante para a Guiné-Bissau. Importante mas não bom. Porque este foi o dia em que foi a enterrar o Presidente de um país onde há três semanas se viveu mais uma tentativa de golpe de Estado. De um país que terá este ano duas eleições pelo menos e que não tem dinheiro. De um país órfão, com demasiados candidatos a padrastos. De um país que acorda amanhã sentindo que cumpriu o seu dever para com o Presidente mas que sente também demasiadas incertezas para o futuro. <span id="more-1278"></span>Malam Bacai Sanhá era um Presidente querido dos guineenses. Bastou vê-los, ontem a despejarem-se em peso no aeroporto de Bissau, onde chegou pela tarde o corpo de Malam Bacai Sanhá, diretamente de Paris, onde morreu no início da semana. Milhares de pessoas debaixo de um sol escaldante, muitas a fazerem logo cedo os 10 quilómetros até ao aeroporto, a pé, para depois descerem à cidade, em passo de corrida, ao lado do carro que transportava o corpo do Presidente. Quem viu diz que foi um sinal. Mais um.</p>
<p>Sinal de que o povo quer aquilo que Malam sempre defendeu, a paz, a reconciliação e a estabilidade da Guiné-Bissau. Foi forte a presença do povo neste fim-de-semana, ontem, mas também hoje, no funeral. Ruas repletas, homenagens mudas e gritos de “glória” e “Mambas”, como era chamado Malam Bacai Sanhá.</p>
<p>Hoje cumpriu-se o destino do Presidente e a missão do povo para com ele também. Mas com Malam não se enterraram os problemas. Amanhã há que digerir o golpe de 26 de dezembro, quando militares pegaram em armas, supostamente para destituir o governo. Amanhã haverá de novo acusações e criticas entre o governo e a oposição. Amanhã começa o processo de escolha de um novo Presidente, o problema de fazer cumprir a Constituição e realizar eleições em dois meses. Amanhã os guineenses acordam de novo num país com cheirinho a instabilidade e carregado de incertezas.</p>
<p>Certo certinho é que a Guiné-Bissau não é ainda um país estável. Mas o povo mostrou este fim-de-semana que é capaz de vir para a rua, em peso, por grandes causas. Pode ser que algum dia considere uma grande causa dar uns sopapos em quem não deixa que se cumpra o sonho de Malam Bacai Sanhá, de um país reconciliado e estável.</p>
<p>Um abraço</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Resgatei uma galinha</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Jan 2012 15:17:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Bem entrado Fernando, naquela semana que costuma passar a correr entre o Natal e o Ano Novo, quando já se foi a quase obrigação das prendas e o que sobrou vai ser gasto nos votos de um ano o menos mau possível, dei comigo, num gesto raro, a olhar para uma montra de decorações e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/galinha.jpg"><img class="alignleft  wp-image-1268" title="galinha" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/galinha-300x224.jpg" alt="" width="270" height="202" /></a></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-family: Verdana, sans-serif;">Bem entrado Fernando,</span></p>
<p><span style="font-family: Verdana, sans-serif;">naquela semana que costuma passar a correr entre o Natal e o Ano Novo, quando já se foi a quase obrigação das prendas e o que sobrou vai ser gasto nos votos de um ano o menos mau possível, dei comigo, num gesto raro, a olhar para uma montra de decorações e outras inutilidades mais ou menos indispensáveis. Por acaso, porque calhou, algo me chamou a atenção, não me recordo o quê, e dei de caras com esse galináceo que podes observar aí ao lado. Travou-me o olhar, o animal. Entrei, confirmei com a senhora atrás do balcão: &#8220;Uma <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Caba%C3%A7a">cabaça</a>&#8230;&#8221;. Era e veio comigo, está aqui em casa.</span></p>
<p><span id="more-1267"></span><span style="font-family: Verdana, sans-serif;">Nunca me tive por arrelampado com objetos. Ocorre-me, de repente, ter-me acontecido algo parecido há uns anos com uma caneta de aparo, num centro comercial. Mas a galinha meteu-se comigo. O preço? Dez euros! Vou levá-la. Foi negócio impensado quando ouvi a resposta. Constatei que havia mais daqueles frutos a que uma imaginação acertiva e alguns dons artísticos haviam dado quase vida na figura do animal de penas. Mas a primeira não me deixou alternativa. Fui num pé levantar a nota e voltei no outro – a loja não tinha pagamento automático – e dei com a ave embrulhada como uma prenda, com um volume enorme para não lhe descompor a cauda. Quando voltei à rua senti-me contente, animado, até algo orgulhoso, atrevo-me a confessar.</span></p>
<p><span style="font-family: Verdana, sans-serif;"> Uma semana depois ia a passar na mesma rua com o meu filho e ocorreu-me mostrar-lhe as outras galinhas que lá haviam ficado. Antes de entrar tive um baque. A porta estava entreaberta e a loja quase vazia, só uns embrulhos e umas caixas pelo chão, ninguém lá dentro. A mulher que me vendera a peça estava do outro lado da rua, dobrada para dentro da mala aberta de um carro, a arrumar nem vi o quê. Seguimos a passos largos. No lugar da quase euforia de dias antes sentia agora alguma angústia. A loja que vendia as galinhas feitas de cabaças fechara, falira, se calhar. Nem me atrevi perguntar. A arte da simplicidade terá sucumbido à crise que tudo ataca.</span></p>
<p><span style="font-family: Verdana, sans-serif;">Terás por aí exemplos infindos da capacidade de humana de com as mãos e talento se produzirem belas obras de arte por quem nunca pensou no que isso é. Aqui vai escasseando a sensação de sermos impressionados pela capacidade criativa de produzir o belo com quase nada. Concordarás que transformar uma cabaça deste modo é singular. Mas depois cria-se um vazio, como se de nada valesse, para nada servisse. O local onde se acedia a esse pequeno requinte fechou, desapareceu, não existe mais. E as galinhas terão ido para outro local, outra loja?</span></p>
<p><span style="font-family: Verdana, sans-serif;"> Resta-me agora olhar para este fruto, que continua com as sementes dentro, a fazer de contrapeso para se manter na posição em que a vês. Reparo que tem um ar furioso, como quando as galinhas vivas atacam um gato que lhes ameça os pintos. Esticam-se assim e ensaiam bicadas quase inconsequentes. Vai ficar aqui em casa. Vou dar-lhe um poleiro adequado ali frente à porta da rua, para que quem entre dê logo de caras com a obra e repare bem nela. Merece. Por quem a produziu e por quem a vendeu. Ah, por baixo da cauda está assinado a tinta preta &#8220;Rosária&#8221;. Parabéns.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-family: Verdana, sans-serif;">Um abraço forte, que este ano bem vais precisar de alento a dobrar.</span></p>
<p><span style="font-family: Verdana, sans-serif;">António Martins Neves</span></p>
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		<title>Sobreiro é a árvore nacional!</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Dec 2011 00:07:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; Admirado Fernando,  tenho lido atenciosamente o que me contas, mas nada do que tenho assistido por aqui me encorajava a devolver-te a escrita. O caos, a definhação, a incerteza, um quase não país, o descalabro. Disso tens tu nota aí pelos trópicos, basta o que basta.Eis senão quando, e curiosamente aprovado por unanimidade na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: left;"><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/28_12_2011_20_18_51.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1265" title="28_12_2011_20_18_51" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/28_12_2011_20_18_51-224x300.jpg" alt="" width="224" height="300" /></a>Admirado Fernando,</p>
<p style="text-align: left;"> tenho lido atenciosamente o que me contas, mas nada do que tenho assistido por aqui me encorajava a devolver-te a escrita. O caos, a definhação, a incerteza, um quase não país, o descalabro. Disso tens tu nota aí pelos trópicos, basta o que basta.Eis senão quando, e curiosamente aprovado por unanimidade na Assembleia da República, surge uma decisão sem grandes efeitos práticos, mas emblemática para um país à deriva: classificar o sobreiro como a árvore nacional.</p>
<p style="text-align: left;"><span id="more-1254"></span>Há muitos anos que me constrange o desprezo que o país alimenta por um recurso quase único de que dispomos, a cortiça. Em qualquer pequeno país do Norte da Europa chamavam-lhe um figo. Por cá, como não é petróleo nem faz andar carros, ninguém dá importância. E quando digo ninguém, refiro-me aos sucessivos governos. É como se não tivéssemos um caneiro e a cortiça não valesse 2,2 por cento das nossas exportações. De tal modo que um setor vital da economia está todo depositado nas mãos daquele “trabalhador” chamado Américo Amorim, que se irrita por terem concluído que é o homem mais rico do país.</p>
<p style="text-align: left;">Resta-me agora, eu que escalavrei as pernas e os braços a trepar e descer nos abundantes sobreiros da nossa infância, ver efeitos práticos da coisa. Primeiro que a vasta comunidade científica disponha de meios para investigar e travar o processo de mortandade daquelas árvores, para que a distinção não sirva para cerimónias de enterro. Segundo para que a cortiça passe a ser transformada e valorizada como um dos mais multifacetados produtos naturais, sustentável, reciclável, quase eterno, inodoro, isolante térmico e sonoro. De que Portugal é de longe o maior produtor do mundo e onde o produto tem uma qualidade incomparável com a pouca concorrência. Assim como uma espécie de petróleo verde que poderia aumentar se houvesse dois dedos de testa em quem manda neste “local”, Fernando. E depois quem não gostaria de ter 737 mil hectares de uma árvore que, como nenhuma outra, dá mais exigindo tão pouco, como escreveu o silvicultor Vieira Natividade em 1950?</p>
<p style="text-align: left;"> Um encortiçado abraço</p>
<p style="text-align: left;"> António Martins Neves</p>
<p>&nbsp;</p>
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		</item>
		<item>
		<title>E nem me deu tempo para lhe dizer obrigado.</title>
		<link>http://atlantico-expresso.net/guine-bissau/e-nem-me-deu-tempo-para-lhe-dizer-obrigado/2011/10?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=e-nem-me-deu-tempo-para-lhe-dizer-obrigado</link>
		<comments>http://atlantico-expresso.net/guine-bissau/e-nem-me-deu-tempo-para-lhe-dizer-obrigado/2011/10#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 23 Oct 2011 23:05:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Guiné-Bissau]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo Estive caladinho às voltas com umas dores numa perna e depois num braço, que já vão passando. Surgiram depois de uma viagem de três dias a Bubaque, uma ilha aqui do arquipélago os Bijagós, na Guiné-Bissau. Mas não é delas nem dela de que te vou falar hoje. Nem sequer do país. Esta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo<br />
Estive caladinho às voltas com umas dores numa perna e depois num braço, que já vão passando. Surgiram depois de uma viagem de três dias a Bubaque, uma ilha aqui do arquipélago os Bijagós, na Guiné-Bissau. Mas não é delas nem dela de que te vou falar hoje. Nem sequer do país. Esta carta é sobre pessoas.<br />
<span id="more-1240"></span>E das pessoas de quem te quero falar é dos guineenses em geral, almas de uma terra onde falta a luz a maior parte do tempo na capital e onde não chega à província, de uma terra onde não há emprego, onde as carências a nível de saúde são impressionantes, onde faltam escolas, ruas, casas condignas, alimentos e dinheiro. De uma terra de guerras e instabilidades constantes, de assassinatos, de tentativas e de ameaças. De uma terra onde ganhar 100 mil francos por mês, mais ou menos 150 euros, é uma sorte e onde qualquer produto nos mercados é mais caro do que em Lisboa. De uma terra que é das terras mais pobres do Mundo.<br />
E julgas tu que andam os guineenses aqui acabrunhados, a falar da miséria, a lamentar-se? Todos os dias na Guiné-Bissau são de luta, mas de uma luta que se faz com alegria e simpatia, com calor humano e com solidariedade. Sinto-me honrado por todos os dias conviver com pessoas assim.<br />
Cheguei à tal ilha de que te falei já de noite, porque outra característica do guineense é não primar pela organização e o barco saiu com três horas de atraso. Barco grande e viagem gratuita que levaram centenas de pessoas para a ilha, de sexta a domingo, muitas sem ter onde dormir ou que comer sequer. Mas era festa que diabo! Cheguei de noite a um cais sem luz e onde desaguavam centenas de pessoas e naturalmente perdi-me. Fiquei ali de pé nem cinco minutos sem saber muito bem o que fazer quando um jovem guineense decidiu adotar-me. Perguntou quem era e para onde ia, quem esperava, quem queria encontrar. E não me largou mais.<br />
Formatado num país europeu, onde é muito natural que um desconhecido não dê nada sem esperar alguma coisa em troca, comecei a desconfiar. Tanta insistência em ajudar só podia querer dizer que depois me ia pedir dinheiro, pensei. E o jovem não me largava, sugerindo-me que me afastasse da confusão, tentando proteger-me quando se levantou um burburinho de murros entre uns militares e pessoas que acabavam de chegar.<br />
Andamos por ali mais uns cinco minutos, eu desconfiado, ele sem me largar. Até descobrir e me levar a um grupo de pessoas de lanternas na boca a olhar para uns papéis. “Está aqui a o jornalista da Lusa, ele andava à vossa procura”. E foi-se embora. E nem me deu tempo para lhe dizer obrigado.<br />
Mas disse-o às pessoas que ficaram inconformadas de eu ter de dormir numa casa sem luz e que fizeram tudo para me arranjar para as duas noites um quarto com luz e casa de banho. Às pessoas que não me conhecendo agiram como se fossemos amigos de longa data. E porventura digo-o todos os dias aos sorrisos e simpatias daqueles que não tendo nada dão tudo. Daqueles que conseguem ter um ordenado de 120 mil francos e com ele ajudam 15 pessoas da família, não sei nem bem como.<br />
Do alto dos meus três meses de Guiné-Bissau digo-te, caro amigo, que este não é um país fácil nem agradável para se viver, para quem vem da Europa. Mas são tantos os europeus que vieram e foram ficando. Como dizia uma amiga minha, um desses casos, não há uma razão lógica para isso. “Isso” tem de se ver com o coração.<br />
E eu, do alto dos meus três singelos meses, acho que a entendo. Porque se é certo que este é dos países mais pobres do mundo parece-me também certo que tem dos povos mais incríveis do mundo. Como dizia, Saint Exupery há coisas que só se veem com o coração.<br />
Um abraço<br />
Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Isso é coisa de mulher!</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Sep 2011 15:23:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Guiné-Bissau]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo No mês passado, quando regressava a Bissau, vindo de Cabo Verde, viajei com o Januário, um jovem guineense. Disse-me que tinha ido a Cabo Verde visitar um amigo mas já quase em Bissau confessou que nem tinha visto o amigo porque nem saiu do aeroporto, onde esteve retido três dias antes de ser [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo<br />
No mês passado, quando regressava a Bissau, vindo de Cabo Verde, viajei com o Januário, um jovem guineense. Disse-me que tinha ido a Cabo Verde visitar um amigo mas já quase em Bissau confessou que nem tinha visto o amigo porque nem saiu do aeroporto, onde esteve retido três dias antes de ser recambiado para a origem. Estive com ele aqui em Bissau algumas vezes e o seu sonho não será diferente de muito boa gente aqui.<br />
<span id="more-1235"></span>Aquilo que o Januário queria era na verdade chegar a Cabo Verde e de lá emigrar para os Estados Unidos. Ao que julgo nem sequer foi a primeira vez que o tentou. Fez-me lembrar o Hamadu, um outro jovem com quem falei aqui há três anos, que por seis vezes tentou emigrar para a Europa e outras tantas falhou.<br />
O Januário tem 23 anos, uma filha de seis meses com uma jovem como ele com quem não vive, uma namorada aqui em Bissau e ao que diz outra também guineense mas a estudar em Dacar. Mas o importante para ele é sair do país, que adora mas que quer ver pelas costas.<br />
Agora meteu-se-lhe na cabeça que quer ir estudar para Portugal, tirar um curso superior, porque até tem o liceu completo e com boas notas. É filho de professor e os pais têm terrenos no interior, e acho que alguns aqui perto de Bissau também.<br />
Mas tenho dúvidas. A dificuldade dele no português, falado e escrito, é notória. Emprestei-lhe há dias um livro, “O Velho e o Mar”, do Ernest Hemingway, e ele leu-o. Mas fiquei com a sensação de que não percebeu nada ou muito pouco.<br />
E tenho dúvidas também porque não o vejo a tomar qualquer iniciativa. Não sabe o que é necessário para estudar em Portugal, quando e onde se deve candidatar, apenas sabe que quer. E enquanto isso quer também trabalhar, ganhar dinheiro, porque sem emprego os dias são mais difíceis e não fossem as mangas e outras frutas às vezes não teria o que comer.<br />
Disse-lhe há tempos que devia fazer uma carta, um currículo, e entregar nos possíveis empregadores. Há aqui dezenas de organizações internacionais e ONG, quem sabe alguma precisa de uma pessoa, para motorista que seja, para paquete, porque não? Não disse que não mas também não disse que sim. Julgo que não o irá fazer.<br />
Da última vez que o vi foi também no dia em que a Angelina, que trabalha aqui comigo, se queixou dos preços. Aqui duas folhas de salsa custam 50 francos. Para um cozinhado normal precisarás pelo menos de 200 francos de salsa, 35 cêntimos.<br />
Perguntei então ao Januário porque é que ele não se dedicava à agricultura. Podia semear verduras, alfaces, tomates e pimentos, couves e sei lá eu. Aqui é tudo caro e  quase sempre importado do Senegal, quando terreno para cultivar esses produtos não falta por cá.<br />
Disse-lhe que podia ganhar bom dinheiro com pouco trabalho, que era lucro certo. E ele sorriu e respondeu-me “isso é coisa de mulher!”.<br />
Agora que a estrada principal que liga o centro ao aeroporto está em obras passo pelos bairros periféricos aqui de Bissau quase diariamente, as chamadas “tabancas”. E vejo dezenas de jovens, a qualquer hora, sentados a jogar, a conversar, ou só a olhar quem passa.<br />
Diz-me que sabe que passam assim os dias, porque não há empregos. Mas depois de ver o exemplo do Januário pergunto-me se eles se mexem à procura desses empregos ou simplesmente passam assim os dias, à espera que eles lhes caiam do céu.<br />
Diz-me também quem sabe que os jovens aqui só pensam em emigrar. Pois porque aqui não há empregos. Mas há outros jovens que conseguiram aqui singrar na vida e não foi no tráfico de droga. Há casos de quem se dedicou à agricultura e se deu bem.<br />
A Guiné-Bissau é um país pobre. É fácil de perceber isso em poucos dias aqui. E não há empregos. Isso também é fácil. Mas já me é mais difícil perceber esta inércia de jovens como o Januário. E esta vontade inabalável de partir para países em crise, onde o desemprego é a única coisa que abunda por estes dias. Aqui, é certo que não há empregos. Mas trabalho não falta.<br />
Um abraço<br />
Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Haja saudinha</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Aug 2011 16:38:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Guiné-Bissau]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo Isto depende de cada um mas eu até já estou habituado a que elas desçam devagar pelas minhas costas, ou pelo meu peito, sorrateiras por ali abaixo até à cintura. Às vezes finjo que não é nada comigo mas sinto-as molhadas a escorregar cada milímetro, sinto quando param, quando como que desaparecem e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Isto depende de cada um mas eu até já estou habituado a que elas desçam devagar pelas minhas costas, ou pelo meu peito, sorrateiras por ali abaixo até à cintura. Às vezes finjo que não é nada comigo mas sinto-as molhadas a escorregar cada milímetro, sinto quando param, quando como que desaparecem e depois reaparecem mais abaixo. Mas não consigo habituar-me quando aparecem a deslizar pelo resto do corpo. Confesso que fico incomodado.</p>
<p><span id="more-1231"></span>Como te disse vim a meio da semana passada de Cabo Verde. Não vou falar-te do quanto foi bom voltar, dois anos depois, à mesma casa, às pessoas que lá deixei e de quem eu tanto gosto. Não vou porque passei dois anos a escrever-te sobre aquelas ilhas e gentes e julgo que estejas mais interessado, agora, em saber da Guiné.</p>
<p>E eu da Guiné pouco te posso contar ainda, porque só hoje saí de Bissau para ir a Mansoa,  60 quilómetros daqui. Estradas muito melhores do que as de Bissau, um verde lindo de um lado e outro, algumas aldeias, pessoas com enxadas de cabo enormes a caminho dos campos de arroz. São árvores que não conheço, lugares que vejo pela primeira vez mas uma cultura que me é familiar. O carvão vendido em grandes sacos à beira da estrada, os montinhos de fruta com crianças ao lado, a ida para os campos manhã cedo, nas bermas, em fila indiana.</p>
<p>Oficinas de motorizadas improvisadas, debaixo de uma chapa de zinco, farmácias onde se vende de tudo um pouco, casas por pintar ou o que resta delas à beira da estrada, casas feitas de adobe e telhado de colmo, muitas crianças de calções e camisolas esfarrapadas, sorrisos abertos debaixo de um sol que queima.  Aqui ou em Moçambique. Cenários por certo de qualquer África.</p>
<p>Como te disse há dias é o calor e a humidade o que mais custa aqui. Agosto é época das chuvas e também o mês mais quente e húmido. Choveu toda a noite passada e hoje ameaça repetir a proeza mas nem por isso se torna mais fácil. Há poucos dias, na sede do PRS, apinhada de gente, passei a minha pior experiência até agora. 10 da manhã, duas horas depois de um banho frio (aqui não tenho água quente), e estava eu de pé a sentir o suor colando-me a camisa. As gotas a formarem-se sabe-se lá onde e depois a descerem várias ao mesmo tempo. Começam na testa e descem para os olhos e depois começam em todo o lado e descem para todo o lado. Eu e toda a gente que aqui ninguém é imune. Nem os jornalistas. Porque quando acabaram as comunicações nem uma pergunta: em dois segundos e todos estavam no meio da rua.</p>
<p>Ainda assim sou um privilegiado. Porque tenho água e a luz não vai faltando muito. Confesso-te que nem sei como é que me chega a casa, com tantos fios cruzando as ruas, postes meio tombados, outros que não vão da a lado nenhum. Bissau parece, nesse aspeto, uma cidade colada com cuspo, que a qualquer momento a luz acaba de vez, que tudo deixa de funcionar. E no entanto há uma organização no meio do caos de fios.</p>
<p>Digo-te porque o sinto, caro amigo, que os guineenses são excelentes técnicos. Só um africano conseguia esta proeza de estar aqui eu com ar condicionado, só um africano é capaz de resolver um problema mecânico qualquer de um automóvel empanado a quilómetros de sítio nenhum. Há uma ordem na desordem que mesmo alguém já um pouco habituado a estas andanças não descortina.</p>
<p>E gostas da Guiné? Perguntarás tu a esta altura. E eu respondo-te que não sei, que estou aqui há menos de uma semana. Só sei que não gosto de tanta humidade e do suor que me encharca mal me apanha desprevenido. Mas do mal, o menos. “Haja saudinha”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um abraço</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Morena no montado</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Aug 2011 17:24:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Imparável Fernando, tu preocupado em não deixar escapar nada do que o mundo te estende e eu a tropeçar no que se quer esconder. O bom é isto:  caldearmos tudo aqui. Cada um viaja como pode  e quer. Nunca ouvi falar no limite da alma e não creio que exista. Nem a realidade é confrangedora [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/Estevas.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1216" title="Stop" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/Stop1-300x225.jpg" alt="" width="264" height="199" /></a></p>
<p>Imparável Fernando,</p>
<p>tu preocupado em não deixar escapar nada do que o mundo te estende e eu a tropeçar no que se quer esconder. O bom é isto:  caldearmos tudo aqui. Cada um viaja como pode  e quer. Nunca ouvi falar no limite da alma e não creio que exista. Nem a realidade é confrangedora como a fazem.  Olha ao que assisti há dias: a globalização repetida, como começou já há 500 anos. Só que agora ao contrário.</p>
<p><span id="more-1214"></span>Quando empurrei a porta nova da velha taberna e dei de caras com o par de coxas mulatas, a primeira coisa que pensei foi…nada! Como se tivesse chegado ao Pólo Norte e deparasse com alguém deitado numa toalha a tentar bronzear-se ou distraidamente entrasse na Sé de Lisboa e visse uma freira a dizer missa. Ali era tudo muito mais simples. No meio da serra alentejana que bem conheces, com o mar ali à vista, tudo se passava em volta de uma mesa de snooker.  Éramos três, íamos dar umas tacadas em laia de abrir o apetite para um jantar a condizer com a geografia e o cenário era aquele. Outros três homens e uma mulher a arremessar bolas umas contra as outras com ar de quem não deseja o fim daquele matraquear de porcelana. Enfia ali, tira daqui, ganhei, tu perdeste, aquelas vulgaridades de quem sempre tem algo para argumentar. Porque perde ou porque ganha. A não ser pequenos pormenores, que vão para além das coxas que vi primeiro sentadas. Jogava-se ao bota fora. Só um deles não tinha o rosto ressequido como o montado por estes dias ou enrugado como uma encosta soalheira por onde correu água no inverno. Tinha o cocuruto desmatado. E é evidente que o jogo era outro e não se percebiam as regras todas ali de uma assentada.  Em vez do antigo palito, dos traçadinhos de tinto e branco e da algazarra, reinava uma falsa serenidade. Eles falavam só ao ponto de se fazerem ouvir, ela comentava em jeito de relato sobre o que estivera na origem da jogada. Até se conseguia ouvir em fundo o José Rodrigues dos Santos na televisão a dizer às pessoas que tinham acontecido coisas importantes nesse dia. Mas aquela calma era tensa e o motivo moreno: a jogadora tinha sotaque tropical, cabelos aos canudos,  unhas cuidadas realçadas de vermelho escuro, calções pequenos e justos , exibia o umbigo naturalmente e usava chinelo de enfiar no dedo. Sublinho: aquilo era uma taberna alentejana, onde o casal de proprietários se cruzavam  a entrar e sair do balcão, o restaurante lá atrás, as paredes a reluzir de branco, o sol posto a entrar pelas janelas,  a normalidade a tentar impor-se.</p>
<p>Deixa-me dizer-te, Fernando, que eu ia da praia com dois adolescentes sequiosos por jogar snooker antes de um jantar com amigos que haviam de chegar. Como conheces as posições em que se colocam os jogadores de bilhar e afins, bastará dizer-te que para realizar no momento um filme para levar ao Festival de Cannes para o ano era só ter ali forma de registar as imagens das caras de pelo menos dois jogadores masculinos quando a adversária se debruçava sobre a mesa de taco certeiro para consumar a jogada e as expressões dos dois rapazolas, a tentar perceber o que ia nas cabeças alheias, porque nas deles era evidente. De resto, a  monopolização  do jogo tornara-se um dado adquirido quando finalmente chegou o momento previsível da noite. Depois de ocupadas as cadeiras em volta da mesa, lá por trás da tal parede que abafava até as tacadas mais veementes, aterrou ali na frente uma tigela de barro a transbordar de sopas de espinafres com amêijoas.</p>
<p>Tudo parecia remeter para as memórias e um debate no regresso a casa sobre aquele cenário improvável, não fosse os dois candidatos a jogadores estarem a digerir mal o controlo absoluto da mesa de pano e verde e não baixarem os braços antes de mostrarem supostas habilidades. Abordado sobre a demora, o dono do restaurante e taberna foi lacónico e desmobilizador em proporções semelhantes: “Já chegaram a levar mais de oito horas… “. Desalento, quase pânico, protestos mal contidos. Mas porquê? “Por causa da preta!” Um gesto de interrogação com o olhar e uma mão a enrolar o ar despoletaram o resto, num tom mediano para nã alertar a outros clientes:  “Vive com o [jogador) careca há mais de um ano. Já é a segunda. Mas para uma mulher daquelas, com 34 anos, aguentar um gajo de 60 é porque gosta mesmo dele”. Pagámos e saímos. Mais ninguém jogou naquela noite.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um disputado abraço</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>De volta ao Atlântico</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Jul 2011 16:45:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Guiné-Bissau]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo &#160; Passados mais de dois anos estou de volta ao Atlântico. Recomeço hoje a nossa correspondência a partir de Bissau, embora com uma passagem pela Praia por estes dias. O que é bom, se mais não fosse para fugir deste calorzinho que me deixa praticamente em estado catatónico. Já tinha estado em tempos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Passados mais de dois anos estou de volta ao Atlântico. Recomeço hoje a nossa correspondência a partir de Bissau, embora com uma passagem pela Praia por estes dias. O que é bom, se mais não fosse para fugir deste calorzinho que me deixa praticamente em estado catatónico.</p>
<p><span id="more-1209"></span>Já tinha estado em tempos aqui em Bissau e acho que te disse que esta era uma cidade parada, sem investimentos, sem obras nem construções, com esgotos a céu aberto e estradas que eram mais buracos do que alcatrão.</p>
<p>Vim agora encontrar uma cidade diferente. Há estradas melhores, há passeios a serem feitos, gente que trabalha, mais luz nas ruas, mais água nas casas. Mas o mesmo calor, a mesma humidade que nos tira a vontade de tudo e que nos manda para o aconchego de qualquer ar condicionado.</p>
<p>E a mesma gente simpática, acolhedora e calorosa. Não pelo clima mas porque sim. Disponível e atenciosa. A Marisa, quem eu vim substituir, sente-o melhor do que ninguém, e ainda que se faça de forte não pode esconder que lhe custa deixar Bissau e as suas gentes.</p>
<p>Ainda que o clima político aqui não seja o melhor. Há rumores constantes de isto e aquilo, manifestações contra o governo e a certeza de muitos de que alguma coisa está para acontecer.</p>
<p>Mas Bissau lá vai andando. Devagar. Pelas estradas esburacadas, pelo calor, pela falta de meios, pela falta de dinheiro. Aqui, depois de almoço, quando o calor mais aperta, a cidade aquieta-se um pouco nas sombras. É nelas que se fala das chuvas que tardam, das obras que se fazem ou não, das ameaças de instabilidade, ou mesmo dos novos reforços do Benfica ou da Copa América.</p>
<p>Por mim nem disso me apetece falar. O calor apenas me deixa com vontade de ficar estendido. De preferência na sombra do ar condicionado. De preferência de olhos fechados. À espera que a tarde traga uma aragem. Do Atlântico.</p>
<p>Um quente abraço</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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