1º Aniversário

Já fez um ano que o Atlântico expresso iniciou o vai-e-vem entre o Norte e o Sul, carregado de histórias, notícias, opiniões ou meros desabafos entre duas pessoas que têm em comum, entre outras características, o facto de passarem a vida a escrever…notícias. Um na cabo-verdiana Cidade da Praia, outro em Lisboa. O “navio” construído a quatro mãos que leva um ano de navegação é uma forma de atingir outros portos, eventualmente outras latitudes da escrita, retomando o velho hábito de fixar ideias: antes no papel, com as cartas, agora através das novas tecnologias. O objectivo e a justificação serão os mesmos: o prazer de passar a definitivo as coisas boas, as menos agradáveis e as outras que se vão atravessando no nosso quotidiano. Vai ser assim enquanto quisermos e tivermos gosto na troca das palavras, mais ou menos arrumadas.


6 Responses to “1º Aniversário”

  1. 1 meireles

    UMA CRÍTICA MUITO DURA AOS MÉTODOS DO MPLA

    Ao saber da conversa ocorrida em Acra (Ghana), Lúcio Lara reagiu: « Os cubanos falam de mais»

    HUGO AZANCOT DE MENEZES

    Longe de mim a pretensão de ter feito história ou de escrevê-la.
    Contudo, vivi factos que envolvem, também , outros protagonistas.
    Alguns, figuras ilustres. Outros, gente humilde, sem nome e sem história, relacionados, apesar de tudo, com períodos inolvidáveis das nossas vidas.
    Alguns destes factos , ainda que de fraca relevância, podem ter interesse, como « entrelinhas da História», para ajudar a compreender situações controversas.
    Conheci Ernesto Che Guevara em Acra , em 1964, e comprometi - me a não publicar alguns temas abordados na entrevista que tive o privilégio de lhe fazer como « repórter» do jornal Faúlha.

    Já se passaram mais de 30 anos. O contexto actual é outro.
    Pela primeira vez os revelo, na certeza de que já não é o quebrar de um compromisso, nem a profanação de uma imagem que no
    A entrevista realizou-se na residência do embaixador de Cuba em Acra , Armando Entralgo González, que nos distinguiu com a sua presença.
    Ali estava Che…
    A sua tez muito pálida contrastava com o verde - escuro da farda.
    As botas negras, impecavelmente limpas.
    Encontrei-o em plena crise de asma, Socorria - se , amiúde, de uma bomba de borracha.
    Che Guevara , deus dos ateus, dos espoliados e dos explorados do terceiro mundo, deus da guerrilha, tinha na mão uma bomba, não para destruir mas para se tratar… de falta de ar. Aspirava as bombadas, dando sempre mostras de um grande auto -domínio.
    Fora-me solicitado que submetesse o questionário à sua prévia apreciação - e assim o fiz.
    Uma das questões dizia respeito à cultura da cana - de - açúcar em Cuba.
    Como encarava ele a aparente contradição de combater teoricamente a monocultura - apanágio dos sistemas de exploração colonial e tão típica dos sistemas de exploração colonial e tão típica do subdesenvolvimento - ao mesmo tempo que fomentava, ao extremo, a cultura da cana e a produção de açúcar - mono -produto de que Cuba se tornaria, afinal, cada vez mais dependente?
    Outro tema que nos preocupava, a nós , africanos, era o papel dos cidadãos cubanos de origem africana na revolução cubana e a fraca representação deles nos órgãos de direcção dos país e do partido, os quais tinham proscrito qualquer discriminação racial.
    Não constituiria o comandante Juan D´Almeida - único afro - cubano na direcção do partido - uma excepção?
    Entretanto, a crise de asma agudizava-se , o que nem a mim me dava o à - vontade requerido nem, obviamente, ao meu interlocutor a disposição necessária para o diálogo.
    Insistiu para que eu o iniciasse. Ao responder - lhe que não me sentia á vontade para fazê-lo, em virtude de seu estado, disse - me em tom provocante e com certa ironia :« Vejo que você é um jornalista muito tímido.»

    No mesmo tom lhe respondi, que não me tinha pronunciado como jornalista, mas como médico .« Comandante, as suas condições não lhe permitem dar qualquer entrevista», disse-lhe eu.
    Olhando-me , meio surpreso e sempre irónico, replicou: « Companheiro, eu não falo como doente, também falo como médico.
    Em meu entender, estou em condições de dar a entrevista.»
    Mas a crise de asma não melhorava, tornando impossível o diálogo. Foi necessário adiá-lo.
    Reencontrámo-nos dias depois. Estava, então, quase eufórico. Referindo-se á atitude dos cidadãos cubanos de origem africana, à sua fraca participação na revolução, disse não gostar de se referir á origem ou à raça dos homens.
    Apenas à espécie humana, a cidadãos, a companheiros.
    Manifestei-lhe a minha total concordância. «A verdade », disse-lhe eu, «é que a revolução cubana tinha suscitado em todos nós , africanos, uma enorme expectativa, muita esperança, pois que, pela primeira vez, assistia-mos a um processo revolucionário de cariz marxista, num país subdesenvolvido e eis - colonial , tendo, lado a lado, cidadãos de origem europeia e africana, e onde a discriminação racial tinha sido, e ainda era, tão notório.»
    Cuba seria pois, para nós, africanos, um teste. Seguíamos atentamente a sua evolução e queríamos ver como seria resolvido este problema.
    Muitos, em África, mostravam-se cépticos. Mais do que interesse, da nossa parte existia ansiedade.
    Segundo Che Guevara , a população de origem africana, a principio, não participava no processo. Via-o com uma certa indiferença, como mais uma luta…
    «deles». Mas a desconfiança estava a desaparecer, era cada vez maior a adesão, á medida que iam constatando que este processo era totalmente diferente daqueles que o precederam. Que era um processo para todos.
    Che Guevara acabava de chegar do Congo - Brazzaville.Visitara as bases do MPLA em Cabinda (de facto, na zona fronteiriça Congo/ Brazzaville /Cabinda) .
    Pedi - lhe que me desse as impressões da sua visita. Che não era um diplomata, mas um guerrilheiro, e foi directamente à questão:
    « O MPLA tem ao seu dispor condições de luta excepcionais.
    Quem nos dera a nós que, durante a guerrilha, em Cuba, tivéssemos algo comparável. Mas estas condições não estão a ser devidamente aproveitadas, exploradas …
    O MPLA não luta, não procura o inimigo , não ataca…
    O inimigo deve ser procurado, deve ser fustigado, deve ser perseguido, mesmo no banho. Agostinho Neto está a utilizar a luta armada apenas como mero instrumento de pressão política.»
    Dei parte da conversa a Agostinho Neto. Não reagiu. Tal como a Lúcio Lara, que me respondeu:
    « Os cubanos falam demais.»
    Mas Che falava verdade. Durante vários anos, na minha qualidade de responsável dos serviços de assistência médica da 2º região político - militar do MPLA (Cabinda ) , fui disso testemunha a cada passo.
    Aí e assim , como contestação a esta e outras situações idênticas, surgiria dentro do movimento, antes de Abril de 1974, a Revolta Activa.

    Hugo José Azancot de Menezes foi médico. Foi um dos fundadores do MPLA

  2. 2 meireles

    PARTIDO AFRICANO DA INDEPENDÊNCIA DA GUINÉ E CABO VERDE
    Sede: Bissau
    Conacry , 20 de Fevereiro de 965

    Mr. Hugo MENEZES

    P.O.BOX 1633

    ACCRA (Ghana)

    Caro amigo,

    Em resposta à sua carta de 23 de Novembro último, temos a dizer-lhe o seguinte:

    1º/ - A iniciativa da publicação, no Ghana, de um jornal em língua portuguesa, parece - nos digna do maior interesse, não podendo nos deixar de dar todo o apoio aos amigos que se dedicam à concretização dessa ideia;

    2º/ - Nesse intuito, pensamos pôr, em breve, à vossa disposição, algum material escrito e fotográfico, expor -vos as nossas sugestões e enviar - vos a colaboração escrita que nos pedem;

    3º/ - Dada que a sua carta nos chegou num período em que o nosso secretário geral se encontrava no interior do pais , de onde regressou apenas há alguns dias, não nos foi ainda possível enviar-lhe o artigo pedido para o primeiro número do jornal. Contamos, entretanto, poder fazê-lo brevemente.

    Apresente as nossas melhores felicitações a todos quanto trabalhem para que o jornal seja em breve uma realidade.

    Com os melhores votos, queiram receber as nossas

    SAUDAÇÕES COMBATIVAS

    VASCO CABRAL

    SECRETARIAT GENERAL: B,P. 298 CONAKRY- REPUBLIQUE DE GUINÉE

  3. 3 meireles

    Conacry,10 de agosto de 1961 Ref. 383/21/61

    Hugo Azancot de Menezes

    Recebida aos 24/08/61

    Caro Hugo

    Estimamos que tu e a tua família tenham feito uma excelente viagem e que vocês todos gozem de boa saúde.

    Diz-nos urgentemente de que necessitares aí. Estamos aqui para servir da melhor maneira.
    1-Junto te envio copia de uma carta que o director do EXPRESSEN dirigiu ao bureau da CONCP.
    Pelos vistos já estão a caminho de Léopoldville 3 toneladas de medicamentos, de medicamentos ,os quais se destinam a CVAAR.
    Achamos que é muito importante reter a seguinte passagem da carta do director do EXPRESSEN: “ Nos remede sont a leur disposition, mais s`ils n`arrivent pas a Léo ces temps -ci les remede seront distribués aux infirmeries au long de la frontiere.

    Se for possível ,é muito conveniente que te apresentes urgentemente ao M. Gosta Streiffert , coordenador em chefe da acção em favor dos refugiados angolanos no congo.

    Os fins da tua visita ao Streiffert deverão ser os seguintes:

    a) Garantir- lhe a próxima chegada ao Congo de mais dois médicos angolanos. ( Com efeito, o ministro da saúde deste país acaba de dizer ao Eduardo que ele pode partir quando ele quiser .Em face disso, é quase certo que o Eduardo e o Boavida partirão no próximo barco, ou mesmo antes, de avião.

    b) Avisar ao Streiffer que os três médicos angolanos -
    - Tu ,Boavida e Santos -,que estarão aí certamente antes da chegada dos medicamentos, estão prontos a entrar imediatamente em actividade com os medicamentos enviados da Suécia pelo EXPRESSEN.

    c) Deixar boa impressão ao Streiffer . Para isso, recomendaremos -te um trato o mais diplomático possível e a maior circunspecção possível . É fundamental que, depois do teu encontro com o Streiffer , este não fique com a impressão de que a vossa actividade vai constituir uma espécie de concorrência as funções dele e a actividade da liga das sociedades da cruz vermelha para o Congo.
    Pelo contrario.
    d) Sondar , habitualmente , a opinião íntima do Streiffer sobre a vossa futura presença junto dos refugiados . Tentar saber se há influências, opostas a actividade da CVAAR , na pessoa do Streiffer e dos seus colegas.

    e) Deixar em toda gente a convicção firme de que a actividade da CVAAR será humanitária e apolítica . Quero, no entanto, lembrar-te quee a melhor maneira de impor a ideia de que a CVAAR é apolítica não consiste em declarares que ela “ é apolítica”, mas sim em mostrares um interesse humano, médico, por todas as vítimas da guerra. Quero dizer: o apoliticismo da CVAAR será inculcado no espírito dessa gente de maneira indirecta: através das tuas atitudes e do teu interesse humano e de técnico pelos doentes vítimas dos acontecimentos de Angola.

    Fala pouco e ouve muito. É pela bouca que morre o peixe.
    f) É fundamental que, depois do Streiffer te conhecer , deixes neste indivíduo uma espécie de compromisso de consciência que o impeça de dar os medicamentos um outro destino diferente ,sem primeiramente te consultar.
    2- O Aquino Bragança vai enviar-te de Rabat o original da carta do director do EXPRESSEN . Em caso de necessidade , essa carta poderá servir de tira-teimas sobre o destinatário dos medicamentos.
    Tudo faremos para que dentro de dias o Eduardo e o Américo estejam aí.

    3)- Diz-nos urgentemente se a War ON Wait já transferiu o dinheiro para aí. Tenho insistido com o CABRAL para que isso se realize o mais depressa possível . Mas achamos estranho que o CABRAL não tenha, até hoje, acusado a recepção da vossa carta para a WAR ON WAIT.

    Achamos conveniente que, logo que chegues ao Congo , escrevas ao CABRAL informando-o de que já estas aí e que outros médicos chegarão dentro de dias .
    Saúde para a tua família e para ti.
    Coragem , bom trabalho e prudência!

    P.S.- O original desta carta ,enviámo-la , nesta mesma data , à nossa caixa postal de Brazzaville.

    VIRIATO DA CRUZ

  4. 4 meireles

    Ref.69/B/62 Léopoldville,21 de 1962

    Caro Hugo
    Saúde

    Para que possas continuar a acompanhar os assuntos da nossa luta em especial ao desejado Front junto envio pelo Kassinda um dossier de todas as demarches efectuadas para prosseguimento do do acordo de principio aasinado entre Accra p elos três partidos que bem conheces. O dossier se destina ao presidente Krumah e por isso peço - te de o fazeres chegar ao destinatário . É nosso empenho para que essa entidade seja o juiz do processo e por essa razão pretendemos pôr -lhe ao corrente de todas as demarches efectuadas nesse sentido . Quanto ao governo do Congo tomamos agora uma posição séria. Apresentamos ontem um protesto ao Ministro de informação pelas noticias tendenciosas na Radio- difusão do chamado “Governo da República de Angola no Exílio” e seus “ministros “. Igualmente enviamos cópias do protesto ao Presidente da república, Primeiro Ministro do interior. Ultimamente a situação do refugiado em Léopoldville agrava-se pois que cobram actualmente para o “sejour “ 50 frs mensais. Já apresentamos também uma reclamação por tal facto porque achamos impróprio para com os refugiados que nada possuem. A situação no interior continua a mesma . Os nossos adversários continuam com as duas mentiras, simplesmente os 22 militares preparados não querem entrar no interior de Angola sem formação do verdadeiro Front .
    O soba da Sanzala muitas manobras utiliza para mante-los dentro mas parece nada resultar. Temos recebido muitas noticias do interior. O povo está exausto e impaciente com a desunião constante dos partidos. Esperamos que procures usar da tua influência junto do soba de lá para que a decisão penda para nós mesmo sem o Front. Esperamos que nos informes se há possibilidades de podermos mandar publicar ai o relatório do Padua . Agradecemos a informação ainda na volta do correio visto tratar-se de um assunto de importância e muito urgente. Eu não sei o se o Mário te falou desse assunto, mas posso assegurar-te que foi aprovado numa reunião do C.D ( comité director) a publicação do relatório. A
    Publicação pretende-se que seja em brochura, se demora para não perder a actualidade , visto os relatos apanhados no depoimento da Onu terem sido já publicados por 250 jornais conforme noticia em nosso poder. Temos de andar meu caro. Desejo-te bom trabalho e muito êxito. Aceite cumprimentos de todos.
    Do amigo e compatriota

    Graça

  5. 5 meireles

    Caro Hugo

    Saúde para si e para a família. Nós por cá tudo normal excepto a complicação dos disparates dos amigos da Firma UPA- PDA que se pretendem grandes vítimas do nacionalismo angolano quando é certo sofrerem do nacionalismo de ricos…
    Deves estar ao corrente de que provavelmente na 2ª quinzena de Setembro se deve realizar o congresso popular para modificações disciplinares no nosso movimento. Como todos os membros do comité Director devem assistir a ele, era e é máxima conveniência que respondesse ao telegrama que o MPLA te enviou confirmando a minha aceitação da proposta do presidente Nkrumah e tua a fim de eu ficar a trabalhar em Accra.

    Convém que me responda se recebeu o telegrama e quando conta que eu possa aparecer aí, para também aqui se fazer um plano de trabalho de sorte a minha ausência mesmo inopinada não prejudique a boa marcha das coisas.
    Recomendações da minha família à sua.
    Abraço e saudações nacionalistas.
    Ao seu dispor
    Leo , 30/08/ 1962

    José Domingos

  6. 6 meireles

    MOVIMENTO POPULAR DE LIBERTAÇÃO DE
    DE ANGOLA
    M.P.L.A.
    51,Avenue Tombeur de Tabora
    LEOPOLDVILLE

    COMITÉ
    DIRECTOR

    NACIONALISTAS ANGOLANOS

    Transcreve-se a nota Nº .A/M/F enviada ,em 10.11.1961, ao comité Executivo da União das populações de ANGOLA:

    “ Como V.Exas. Sabem, em nove de setembro de 1961, uma esquadra da nossa organização militar, que se dirigia a Nambuangongo em missão de socorro às populações cercadas pelas tropas portuguesas , foi , pela traição, cercada e feita prisioneira por grupos armados da União das Populações de Angola que actuam no corredor de entrada e saída dos patriotas angolanos.

    Desde aquela data até hoje, mantendo - se embora vigilante e tendo conhecimento , não sem revolta, dos maus tratos que foram infligidos por militantes da UPA aos nossos compatriotas, o comité Director do M.P.L.A. Esperou ver qual seria o comportamento dos órgãos dirigentes da UPA
    Diante desse crime de lesa - pátria e que enodoa o digno movimento patriótico do povo angolano.

    O Comité Director do M.P.L.A. Faz o mais enérgico protesto contra esse acto anti - patriótico, que visa a enfraquecer a resistência armada do povo angolano e que introduz, por iniciativa da UPA, a luta fratricida nos campos de batalha de Angola.
    Sob pena desse “ affaire “ ser levado imediatamente ao conhecimento da opinião pública e dos organismos internacionais , o comité Director do MPLA

    “ - exige a imediata libertação de todos os nossos compatriotas;
    “ - exige a entrega de todos as armas, munições e demais bagagens

    “ - que foram retirados aos guerrilheiros daquela nossa esquadra ; e

    “ - responsabiliza, desde já , a união das populações de Angola pela

    “ - vida desses nossos valorosos compatriotas.

    “ Na expectativa, subscrevemo-nos

    Atenciosamente

    (ass) Mario Pinto de Andrade
    Viriato da cruz
    Matias Miguéis
    Eduardo dos Santos
    Hugo de Menezes

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