Caro António
Acredito que se fosse pedido aos meninos de cá uma redacção muitos escolheriam a Europa como tema. Porque a Europa ainda representa, para muita desta gente, um futuro radioso. Estão enganados, como estão enganados os que pensam que Cabo Verde é um oásis e que é tudo maravilhoso aqui.
Provavelmente poucas destas crianças alguma vez viram macacos, a não ser os que aparecem na televisão, porque aqui nem um jardim zoológico há, que embora não seja assim uma grande coisa, especialmente para os animais, sempre distrai.
Mas também uma larga quantidade nem pensará nisso, ocupada que está, por exemplo, a procurar uma maneira qualquer de matar a fome.
Não se vê em Cabo Verde uma miséria confrangedora nem as imagens que as televisões nos mostram de alguns países de África. Mas que há muita miséria lá isso há.
Pela minha frente passam, quase diariamente, alguns casos desses, também porque eu “herdei” os pobres do anterior delegado, o Ricardo Bordalo. Putos que se habituaram a pedir uma moeda ou qualquer coisa para comer, alguns mais educados, outros mais brincalhões, outros mais “espertos”, sobre os quais tu duvidas se os 10 escudos que te pedem é mesmo para comer “uma cachupinha”.
De todos, o meu preferido é o Zézinho. Ronda-me a porta duas ou três vezes por semana mas nunca me pediu dinheiro. Quando oiço a campainha a tocar com insistência já sei que do lado de lá do muro do quintal está o Zézinho, a carregar no botão com tanta vontade quanta a necessidade que tem de comer.
Os pais vivem no Tarrafal e na Cidade da Praia está com os avós. Frequenta a escola, diz, e eu acredito, porque de manhã nunca me aparece. A primeira vez que me viu ficou espantado, perguntou pelo Ricardo.
“Ele não está, vai embora amanhã para Portugal”, respondi-lhe. Ficou uns momentos sem saber o que fazer e depois respondeu-me: “Diga ao senhor Ricardo que lhe desejo uma boa viagem”. Dito isto, foi-se embora. Voltou uns dias depois e pediu qualquer coisa para comer.
Hoje o Zézinho já ganhou confiança. Para me pedir uns chinelos, porque anda descalço, ou para atravessar a rua para me cumprimentar.
“Tens as mãos molhadas, o que andas a fazer?”. “Estou a ajudar aquele meu amigo a lavar o carro”. O amigo não se aproxima, só uma vez me pediu para lhe trocar dois euros em escudos cabo-verdianos, mas veio pela mão do Zézinho, que fez o câmbio, a preço justo.
No outro dia perguntei-lhe: “Tu não me andas a enganar? Tu não tens mesmo nada para comer?”. O Zézinho olhou para mim com ar ofendido. Vi naquela cara sempre de menino humilde e envergonhado uma reprovação. Como é que eu podia estar a duvidar dele?
“Venha a minha casa agora que eu mostro-lhe”. Respondeu assim. Para grandes males grandes remédios.
Não fui. Mas sempre que ele me toca à campainha lá lhe arranjo qualquer coisa para ele comer. As vezes tenho bolo, outras iogurtes, sandes ou fruta.
Não sei do que ele mais gosta e nem sei sequer onde mora. Mas sei que é uma das muitas crianças pobres deste país. Humilde, educado, simpático mas pobre. E ser uma criança pobre, aqui ou em qualquer lugar do mundo, é lixado.
Cumprimentos
Fernando Peixeiro

