Vou para África

Caro amigo

Fixo-me na tua última frase, da tua última carta. Continua aí por África. Cabo Verde, como sabes, como muita gente comenta, como até se sente, se vê, não é bem África. É uma mistura entre África e Europa, ou não fossem os cabo-verdianos o povo deste continente com mais sangue europeu, como em tempos, recordas-te, te contei. Pois bem, caro amigo, não vou continuar por África. Vou para África. Este mês.
Já há algum tempo que sabia, que se falava, mas não tinha ainda colocado nestas nossas cartas a mudança, a transferência, a novidade. Dentro de precisamente um mês estou em Moçambique, de onde espero podermos continuar a nossa correspondência.
De Cabo Verde restam-me mais duas semanas. Se parto com pena ou não depois te direi, te farei um balanço destes 25 meses. Mas quero agora apenas dizer-te que são difíceis estes últimos dias, perdido que estou entre as ilhas e a outra terra do lado de lá do continente. Já cá não estou mas também não estou em Moçambique. Estou aqui à espera de estar lá sabendo que quando estiver lá vou estar aqui.
E à medida que passa cada dia vou pensando em coisas que é o Zé, que vai ocupar a “minha” casa, quem vai fazer, e vou imaginando outras que ainda não sei que existem mas que serei eu a tomar conta delas.
É começar tudo de novo. E não é fácil. Dá sempre um friozinho no estômago, mesmo quando não é a primeira vez que se começa tudo de novo.
E é começar a fechar portas, sem saber se alguma vez mais as vais abrir. É cada coisa simples a fazer-me lembrar que tenho de partir. Que já não vou comprar mais pasta de dentes ou sabonete, que as idas ao mercado do peixe, ao sábado pela manhã, acabaram, que a próxima revisão do carro já não é da minha conta.
E é também, acho eu, outra maneira de olhar para a Praia, para as pessoas, para o sol e para o vento forte, as acácias, as ruas empedradas, a praia de Quebra Canela, a Achada de Santo António, a Cruz do Papa, os cafés no Trópico… as ruas do Plateau… a praia de S. Francisco…já pensei que às vezes era preferível o que aconteceu a um grande amigo que aqui arranjei: soube que ia embora dois dias antes da data de partida.
Ou não. Assim tenho tempo de saborear devagarinho os últimos dias de Cabo Verde.
Vou continuar a falar-te dele até à minha partida. Para África.

Um abraço cabo-verdiano

Fernando Peixeiro


4 Responses to “Vou para África”

  1. 1 isabel

    Pois é, Peixeiro. Cá está a saudade, numa antecipação, de que falávamos há dias em Cabo Verde. Saudade que se sente quando se parte de um lugar, onde podemos não regressar; saudade dos que fizeram parte do nosso quotiano e que deixamos de ver. Saudade,esse sentimento que se agudiza quando sabemos que, tão cedo ou nunca mais,voltamos a ver e que, geralmente, nos atinge,de forma particular,quando estivemos num país que não é o nosso, porque ao nosso sabemos que, mais tarde ou mais cedo, regressamos. Boa sorte para Moçambique.

  2. 2 Amílcar Tavares

    Olá.

    O “não fossem os cabo-verdianos o povo deste continente com mais sangue europeu” é um elogio? É isso que distingue os cabo-verdianos do resto da escumalha?

    Nunca percebi…..

  3. 3 Guinevere

    Saudade… essa palavra que dizem ser só nossa, dos portugueses. É isso que eu sinto… muitas saudades tuas. Faz-me falta sentir-te por cá, mesmo que esteja meses sem te ver.
    Bem, mas já que não consegui ir a Cabo Verde, quem sabe Moçambique!!!

  4. 4 Mónica

    deve doer como tudo sim…
    as mudanças e os frios na barriga…