Viver numa aldeia

Caro amigo

Às 15:30 de domingo Omar Camilo, fotógrafo, caminha pela rua no Palmarejo, um dos bairros mais ricos da Cidade da Praia, quando é assaltado. Levam-lhe o bem mais precioso, o que lhe serve de sustente, a máquina fotográfica. À mesma hora, uma televisão preparar-se para exibir um filme que ainda não há muito tempo entrou no circuito de vídeo.
Segunda-feira, à hora de almoço, o homem que roubou a máquina fotográfica é levado à Polícia Judiciária, onde confessa o crime e diz a quem já tinha vendido, por 50 euros, a máquina. Às 16:00 desse mesmo dia Omar Camilo tem de novo o seu “ganha-pão” nas mãos, miraculosamente sem uma mossa visível. Nessa noite as televisões continuaram a passar séries famosas, em exibição, a esta hora, pelo mundo inteiro.
Omar Camilo, já aqui te falei dele, é grande e forte. Daqueles tipos de pessoas que infunde respeito, que te faz pensar duas vezes antes de te meteres com ele, tanto mais que às vezes ferve em pouca água. E como deves imaginar não foi fácil roubá-lo. É certo que o ladrão beneficiou do efeito surpresa mas não se livrou de apanhar dois murros e só a custo lá levou a máquina, perante o olhar de muitas pessoas, que àquela hora andavam, naturalmente, na rua. Um domingo à tarde.
Foi por isso que nem se passaram 24 horas e o homem foi apanhado. Como deves imaginar houve logo alguém que, ali no Palmarejo, identificou o rapaz como um morador do Bairro Brasil. Ainda domingo Omar já sabia onde ele morava, como se chama, com quem vive e qual o nome dos pais.
Só mesmo uma pessoa desesperada faria um assalto assim, em plena luz do dia e à vista de todos. Droga, pois está claro. Foi ela que o fez esquecer que o país é pequeno, a ilha ainda mais, e a Praia uma aldeia, onde toda a gente se conhece. Obviamente ia ser apanhado.
Já não me parece tão óbvio a profusão de séries que são exibidas aqui em Cabo Verde, daquelas famosas, caras e, naturalmente, de muita qualidade.
Ainda agora, quando te escrevo, oiço a televisão nacional fazer publicidade a duas delas, Sete Palmos de Terra e 24 Horas.
Se não as tivesse visto poderia assistir agora à aclamada série Perdidos, à razão de um episódio por dia, o mesmo se passando com todos os episódios até agora feitos do Dr. House.
Isto só para citar algumas. E para não falar dos filmes, que mal chegaram ao circuito vídeo e já estão a passar numa televisão. E têm as televisões dinheiro para comprar esses filmes, essas séries?
Caro amigo, não sei se és fã de alguma. Devo dizer-te que estou agora a ver aqui a série Prison Break.  “Saqueia-a da net”, como se costuma dizer, e vejo os filmes no computador. Tudo legal. Ilegal seria passar os episódios para formato DVD e ver na televisão.
Não estou a dizer que as séries que passam aqui também foram tiradas da Internet ou compradas em qualquer centro comercial num pack todo bonito, daqueles que nem em clubes recreativos podem ser visionados.
Alguém dizia aqui há tempos que Cabo Verde é mais pequeno do que uma aldeia da Nigéria. Estou a dizer que às vezes dá muito jeito viver numa aldeia.

Um abraço

Fernando Peixeiro


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