Viver e morrer em Fontona

Caro amigo

Duas mortes, dois assassinos, uma mulher enterrada viva, um homem que manda matar a companheira de oito anos, um grupo de narcotráfico, droga em pranchas de surf da América para a Europa, uma violação, gás, uma jovem ferida, uma herança, muito dinheiro. Parece um filme? Eu acho que é.
Esta semana começou aqui na ilha do Sal, finalmente, o julgamento dos alegados homicidas das duas turistas italianas no ano passado, como te deves lembrar. Falei-te disso há algum tempo.
No tal banquinho que fica em frente do juiz estão dois homens cabo-verdianos, Sandro do Rosário e Admilson Santos, detidos dia 09 de Fevereiro do ano passado, menos de 24 horas depois de Dália Saiani e Giorgia Busato terem perdido a vida na zona de Fontona, onde outrora as famílias do Sal passeavam e faziam piqueniques e onde agora ninguém quer ir.
Os contornos da história já aqui os contei. Sandro terá organizado tudo e consumou o assassinato com a ajuda de Admilson. Sandro, que teve em tempos uma relação intima com Dália, que ao que parece costuma dar-lhe dinheiro, que sabia que a mulher tinha dinheiro, muito quando recebeu uma herança quando da morte da mãe, que lhe tinha confiado os códigos Multibanco até, mas que agora, há um ano, decidiu que já não queria mais nada com o jovem cabo-verdiano.
Sandro disse esta semana em tribunal que tudo aconteceu por causa de dinheiro. E eu acredito. Mas também acredito mais no calculismo de Sandro do que na história que ele veio agora contar ao juiz: que tinha sido pressionado, ameaçado mesmo, para que matasse Dália e Geórgia. Pressionado por Alessandro Galli, italiano também, companheiro de Dália e que com ela e a Geórgia formavam um grupo organizado de tráfico de droga, transportada do Brasil para aqui e depois para Itália dissimulada em pranchas de surf.
A mim parece-me mais que é Sandro a procurar um álibi, uma desculpa para o crime que cometeu, premeditou, quando viu que Dália, e o seu dinheiro, lhe estava a fugir. Por isso a convidou para jantar naquela noite de 08 de Fevereiro. Dália aceitou, mas convidou Giorgia e Agnese, uma jovem surfista também italiana. Azar o delas. Sandro não desistiu do plano. Num local ermo, dentro do carro, despejou-lhe um spray paralisante para a cara e despachou Giorgia com pedras na cabeça e uma pá, metendo-a depois numa cova. O seu amigo, Admilson, estava ao mesmo tempo a tratar de Dália, que foi parar ao mesmo buraco, de onde ainda falou com os dois homens, antes de começar a receber baldes de terra.
Admilson contou que não matou a Dália, que ela apenas desmaiou e que quando Sandro a arrastou para o buraco onde a amiga já arrefecia Dália abriu os olhos e os dois ex-namorados de férias falaram algum tempo. Depois Sandro ter-lhe-á dado com uma pedra na cabeça. Quando começaram a enterrar as duas mulheres Admilson, contou em tribunal, caiu também na cova e foi agarrado nas calças por Dália, que continuava viva.
Quando abriram a cova Dália lá estava, morta, com as mãos estendidas, como a proteger-se dos baldes de terra que lhe iam caindo encima. E terra nos pulmões. Os dois homens enterraram-na sabendo perfeitamente que ela estava viva, provavelmente a falar com eles até ao fim.
A Agnese, que ficara no carro, foi levada por Sandro para um pouco mais longe e aí, parece, violada e atacada também com uma pedra. Os dois homens foram depois a casa, mudar de roupa, beber um copo num bar, e voltaram, com um terceiro, para apagar todos os vestígios. O azar foi que Agnese afinal estava viva.
Se não estivesse, se não tivesse conseguido fugir, hoje Sandro andaria por aí, porque já tinha viagem para Lisboa, e por aqui continuavam se calhar a perguntar o que seria feito das três italianas.
Qualquer dia vamos saber como é que tudo isto vai acabar. Sandro, parece-me, já está condenado. Admilson tenta convencer o juiz que não teve culpa nenhuma, que só ajudou a enterrar as mulheres. Está a esquecer-se que Dália não morreu da pancada que, admitamos, tenha sido o Sandro a dar-lhe. Dália morreu sufocada. Com a terra que Admilson confessa ter-lhe mandado para cima.
É por isso, caro amigo, que te digo: ainda que andem por aí umas pranchas de surf carregadas de droga, mesmo que Alessandro se esteja a rir agora… que estes homens merecem ser condenados… ai eu acho que sim.

Um abraço

Fernando Peixeiro


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