Caro amigo

Há uma outra guerra que envolve todos os dias os que prestam serviços e os consumidores. Os que nos querem comer por parvos e nós, os que às vezes somos parvos e outras temos de nos fazer. Aqui em Cabo Verde não temos, nós os parvos, o “exército” da ASAE para nos proteger. E bastante falta nos fazia. Para mim a ASAE é do melhor que temos em Portugal. Se cá estivesse evitava estas vontades súbitas que às vezes me dão de pegar numa matraca e partir tudo.
Acredito que a legislação cabo-verdiana até proteja este grande grupo que somos todos nós e sei que há mesmo uma associação de defesa do consumidor, à semelhança da que temos em Portugal. Só que em Cabo Verde nesse aspecto, de facto, é a lei da selva. Se vais a uma repartição pública e és maltratado não tens a quem te queixar, se te pedem um preço diferente do marcado não tens a quem te queixar, se achas que és mal servido num café não tens a quem te queixar, se os produtos não têm o preço afixado ou lhes falta o prazo de validade… já vês, não tens a quem te queixar.
E, caro amigo, à falta de protecção, na maior parte das vezes tens de assistir e ficar calado a más educações em serviços públicos. É que tu até podes refilar mas não te serve rigorosamente de nada e ao fim de pouco tempo aprendes que o melhor é fingir que nem dás por nada.
Aqui a coisa funciona assim: vais comprar um simples maço de tabaco que está marcado, no maço e em letras bem visíveis, 200 escudos. Pedem-te 300. Tu dizes que está marcado 200. Sorriem. Voltam a pedir 300. Insistes. Atiram-te outro sorriso. Tiram-te os cigarros das mãos. Ok Ok. Fumar faz mal.
Vais ao supermercado e metes no carrinho três garrafas de vinho alentejano. Estás na caixa para pagar e quando chega a vez das três garrafas de vinho o rapaz mete-as de lado e diz que não podes levar porque o vinho não tem preço. Se não tem preço então é grátis, digo eu. Não, responde. Então pode ir saber o preço?, pergunto. Não está marcado, responde. Mas que culpa tenho eu se o vinho estava exposto?, pergunto. Não tem, responde. Fica o vinho. Ok ok, o álcool faz mal à saúde.
Estás num mini-mercado a comprar um frasco de gel de banho. Quanto custa isto?, pergunto. Custa… (hesitação) 360 escudos. Aqui nada tem o preço marcado, digo. Pois não, mas eu sei os preços, responde a rapariga. Ofereço-lhe uma banana. Recusa. Chego à caixa para pagar. Afinal é só 340. Ok Ok. Pele limpa faz bem à saúde.
Vais renovar o visto do passaporte. Na entrada há uma daquelas maquinetas para tirar uma senha. Tiras uma. Reparas que mais de metade das pessoas não o fazem. A sala é uma confusão. Esperas uma hora. É uma quarta-feira e precisas do visto para quinta-feira da semana seguinte. Dizem que só o dão dentro de duas semanas. Protesto, explico, peço, sorrio. Venha dentro de dois dias. Sexta regresso. Sabe-se lá do passaporte. Regresse segunda de manhã. Venha à tarde. Levo o visto na segunda-feira à tarde. Ok Ok, a desordem às vezes dá jeito.
Vais a uma loja para comprar um modem para o computador. Vendem-te o modem errado embora tenhas explicado muito bem o que querias. Voltas lá para trocar. Isso só com ordem do patrão, dizem. Onde está o patrão?, pergunto. Viajou. Mais três idas à loja numa semana e encontro o patrão. Não posso trocar o modem, ia dar uma grande confusão nas contas, a culpa é da Cabo Verde Telecom que não tem um sistema que suporte esses modems. Ok Ok, sou rico. Podia comprar a Cabo Verde Telecom mas fico só por outro modem. Numa loja diferente.
Cabo Verde é tal qual a cara do “pai”. É o país dos jeitinhos e do desenrasca. Dos chicos-espertos e dos que pensam que os outros são todos parvos. Os outros é a grande maioria da população, claro. Por isso, caro amigo, se encontrares por aí os senhores da ASAE manda-os até cá. O pessoal aqui até lhe pagava as passagens e a estadia. E em termos de multas ia ser um regalo. Os cofres do Estado agradeciam. E nós também.

Um abraço muito legal

Fernando Peixeiro


1 Response to “Visto, vinho, cigarros, gel e a falta de um exército”

  1. 1 ricardo

    ahahahahahahahha… e espera até perceberes as consequências dos serviços quer… funcionam. Quase sempre mais perniciosos que aqueles que não funcionam. Mas isso, só lá para o final do primeiro ano de presença nas ilhas.

Leave a Reply





PARCEIROS