Violados porquê?
Publicado por Fernando Peixeiro 27 Setembro 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Comentava o Ricardo no outro dia, em tom de desafio, que eu ainda não tinha coragem de admitir que os cabo-verdianos não gostam dos portugueses. Gostaria por isso de te falar disso hoje, pedindo-te desde já desculpa pelas palavras que vou usar. É que há coisas que têm de ser ditas como as falamos, digamos, entre amigos. Dizer que alguém foi vítima de estupro pode ser politicamente correcto, mas entende-se melhor se disser que alguém foi enrabado. A palavra existe. Mas o sentido aqui é esse mesmo que estás a pensar.
Concordo com o Ricardo. Mas até certo ponto. Admito que se diga que os cabo-verdianos não gostam dos portugueses porque há de facto uma larga franja de pessoas a olhar-nos e a pensar em nós com desprezo. Mas é preciso depois ir mais longe. Eu não conheço todos os cabo-verdianos e o que eles pensam mas noto, quando vou para as terra do interior, que sou tratado com muito carinho. Por ser português? Admito que não. Podia ser brasileiro, francês ou inglês. Aquela gente é carinhosa, amiga, simpática e ponto final. Parto por isso do princípio que ser português não é, lá onde a estrada é de terra batida e a luz não chegou, um problema.
Então nas cidades? Na capital? Bem, o problema parece residir aqui, numa classe média que de facto não gosta dos portugueses. Mas foi nessa classe média que encontrei também aqueles que defendem que Cabo Verde nunca devia ter sido independente e que se não fosse Portugal este país estaria muito mais atrasado.
Depois há outros que se habituaram a culpar os portugueses por todo o mal que lhes acontece. No ano passado falava-se dos “portugueses de merda” a propósito dos sucessivos cortes de energia eléctrica, quando eram duas empresas portuguesas que estavam à frente da empresa produtora e distribuidora de electricidade. Hoje os “portugueses de merda” foram afastados mas todos os dias falta a luz na capital.
Mas também os entendo. Não somos nós que passamos a vida a dizer mal de nós próprios? Haverá algum povo que goste mais de descascar nele mesmo que o nosso? Haverá algum povo que invente mais anedotas para se achincalhar? Que mande mais mails a falar do bigode das mulheres, da unhaca dos homens, do desmazelo das mulheres, da barriga dos homens?
Nós odiamo-nos! Gostávamos de ser espanhóis ou australianos. Invejamos os dinamarqueses e suecos e dizemos que lá é que sim. Passamos a vida a valorizar o que temos de mau. Fazemos grandes discursos sobre as nossas misérias e quando chega uma estatística nova qualquer temos um prazer mórbido em descobrir que Portugal está à frente do resto da Europa em acidentes de viação, ou em mortes por alcoolismo ou coisas assim.
Por isso tenho de dar razão ao Ricardo. Como é que os cabo-verdianos podem gostar de nós se nós somos os primeiros a odiar-nos?
Mas agora tenho de te dizer uma coisa. Há limites. Uma coisa é os cabo-verdianos não gostarem de nós. Estão no seu direito. Mas já me parece demais que lá por causa disso tenham de nos ir ao cu. Ao que se conta aqui, no último mês dois portugueses não só foram assaltados como foram depois enrabados! Um já esta semana, diz-se na praia de Quebra Canela, mesmo no centro da cidade.
Não sei se o homem estava por ali, de noite, sozinho. Se estava não devia porque é perigoso e ele já cá está há algum tempo e sabe disso. E ainda assim ser roubado já era castigo suficiente para tanto atrevimento.
Mas pelo que se diz aqui nenhum deles provocou a situação de violação. E seja como for cai mal! Estares à mesa de um café e as conversas girarem à volta do caso dos portugueses roubados e não só é ingrato. É que depois a conversa já não é sobre um singelo roubo. Desse já ninguém se lembra. Ninguém sabe quanto foi roubado sequer. O que fica é que andam por aí uns cabo-verdianos a ir ao cu dos portugueses.
Poderíamos agora, caro amigo, discorrer sobre se esse acto representa não gostar ou ao contrário. Mas não vou entrar por aí. Digo apenas que é verdade, que há quem goste e quem não goste dos portugueses aqui. E que os que não gostam até podem ser muitos. E digo que a mim nunca me vão apanhar à noite na praia de Quebra Canela. Por causa dos que não gostam dos portugueses. Ou, sabe-se lá, por causa dos que gostam.
Um abraço
Fernando Peixeiro



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