Viajar 5.000 quilómetros para dizer “obrigado”
Publicado por Fernando Peixeiro 3 Novembro 2007 em Cabo Verde.
Caro amigo
George Monk é um inglês de 90 anos, que serviu quando jovem na marinha britânica. Um dia o barco em que trabalhava foi atacado por um submarino alemão e desapareceu no Atlântico. O homem foi salvo por cabo-verdianos e agora, 66 anos depois, veio cá agradecer. Também me fascinou, este senhor!
Apesar da idade, George Monk tem uma memória invejável. É certo que já se apoia numa bengala, mas as palavras saem-lhe sem necessitar de ajuda e sem tropeçar quando lembra aquela noite, já lá vão mais de 66 anos.
Quando falei com ele disse-me que nunca mais se esquece porque foi a 04 de Julho, dia da independência dos Estados Unidos. Era o ano de 1941 e passavam duas horas da meia-noite. O Auditor regressava a casa, vindo da África do Sul, empenhado no esforço de guerra e carregando mantimentos para uma Inglaterra profundamente embrenhada na luta contra os alemães.
No Atlântico decorreram muitas batalhas e esta de que fala Monk foi mais uma, da qual por certo poucos se recordam. Mas Monk, sentado a uma mesa de plástico branco, ali para os lados da Cidade Velha, conta-me que o Auditor se afundou em 15 minutos e que a tripulação se salvou em três barcaças, uma com 34 homens e as outras duas com 33 cada. E conta-me que ficaram assim 14 dias, à deriva no mar, sem espaço sequer para esticarem as pernas.
Foi então que apareceu um barco que fazia a ligação entre as ilhas de Cabo Verde. Os homens foram levados para a ilha de Santo Antão, onde passaram uma noite de sono luxuoso, porque embora deitados no chão duro puderam esticar-se, e depois para São Vicente. Os outros rapidamente foram enviados para casa mas Monk, recolhido quase cego devido às provações que passara, ainda teve de ser levado para Lisboa e, aí, tratado, para só depois ser recambiado.
As aventuras deste inglês não terminariam por aqui, porque já perto de Inglaterra o comboio de 25 barcos foi atacado, desta vez pela aviação alemã, e nove deles acabaram no fundo do mar. “O meu escapou, o meu foi um dos que chegou”, contou-me, sorrindo.
Monk é daquelas personagens que apetece ficar a ouvir uma noite inteira. Tem uma história de vida interessante e sabe como a contar, como a tornar saborosa, como nos cativar. Mas mais do que isso, para o que queria chamar-te a atenção hoje é para este acto do homem: regressar a Cabo Verde, ao fim de 66 anos, para dizer “obrigado” àqueles que o salvaram.
Guarda alguns nomes num caderno, escritos pelos próprios nessas semanas de Julho de 1941, mas desconhece se algum será tão pouco ainda vivo. Isso na verdade não é o mais importante.
“Venho dizer-lhes obrigado pela forma como me trataram. Nunca tive oportunidade para lhes agradecer e venho agora fazê-lo”, contou-me este homem, sabendo, como eu sei, que na verdade não veio agradecer a uma pessoa concreta, que provavelmente nem encontraria, mas ao povo de Cabo Verde.
Um homem que ao fim de 66 anos se mete num avião e vem a Cabo Verde para, daqui, dizer “obrigado” merece a minha admiração.
Um abraço para os dois
Fernando Peixeiro
2 Responses to “Viajar 5.000 quilómetros para dizer “obrigado””
- 1 Pingback on Nov 3rd, 2007 at 14:41



Gostei:) Um abraço para ele também