Venha cá para conversarmos um bocadinho
2 comentários Publicado por Fernando Peixeiro 13 Setembro 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Devias ver. O homem senta-se numa pedra centenária, ao sol, e fica baixinho, quase junto ao chão. É a calma em pessoa. Aceita que lhe ajeitem o microfone por dentro da camisa da Marlbloro Classics, castanha, e nunca tira o boné, redondo. Vai fumando um cigarro, sempre, e só o apaga quando a luz de “rec” da câmara se acende.
Longe de Portugal, de Israel ou da Rússia. Estamos no meio das ruínas da catedral da Cidade Velha, em Cabo Verde, a primeira construída nas ilhas, ao que tudo indica a partir de 1462. Cabo Verde tinha sido descoberto dois anos antes pelos navegadores António de Noli, um genovês que andava por aí ao serviço da coroa portuguesa, e Diogo Gomes, esse sim um nacional.
Dois anos depois, em 1462, como prémio pela descoberta, De Noli chegou à Ribeira Grande, ou Cidade Velha, com a família, amigos, criados e tudo, para fundar uma cidade que depois seria um importante entreposto comercial e centro negreiro.
E, naturalmente, a Sé terá sido dos primeiros edifícios a ser construído. E, naturalmente, a prosperidade da terra despertaria a cobiça dos piratas, que a atacaram várias vezes. E, naturalmente, pela imponência e pela localização, a Sé foi um dos alvos mais apetecidos.
Isso e o desgaste dos anos fizeram da catedral da Cidade Velha pouco mais do que um amontoado de escombros e algumas paredes, a ameaçarem seriamente que um dia destes nada restaria.
Por isso o que sobrou foi alvo de uma grande obra de restauro, para que ao menos nada mais se desmoronasse. Esse trabalho está feito e vem agora a segunda parte. Arranjar algumas paredes, principalmente a fachada, arranjar o espaço envolvente, e dotar o local de condições, luz eléctrica incluída, para que ali se possam fazer espectáculos.
Hoje, quando o homem, sentado calmamente ao sol, explicava o que se ia ali passar, enquanto eu também me sentava, à sombra, e sentia as gotas de suor a descerem devagarinho pelas minhas costas até morrerem na camisa na zona da cintura, quando olhava a Marlboro do homem também ela molhada, não pude deixar de imaginar como deverá ser bonito assistir ali a uma peça de teatro, a um bailado, a um concerto ou até a uma missa.
É um pouco místico aquele sítio, garanto-te. E a calma do homem ajudou. “Vamos refazer todo o arranjo exterior, criar infra-estruturas e iluminação”, explicou devagar.
“Depois também vamos melhorar os acessos”, disse após uma pausa. E de repente empolgou-se um pouco: “Havia aqui uma ruína belíssima mas que estava em processo de degradação. A intenção é inverter esse processo e dar a ideia de que o edifício está em construção”.
Repetiu a palavra belíssima. Uma conversa quase intimista, ignorando os gritos constantes de uma mulher, do outro lado da Sé, que reclamava a sua presença para conversarem um bocadinho.
Pareceu-me que já se conheciam. Vejo-os a terem longas conversas pelas tardes tórridas da Ribeira Grande de Santa Maria, sentados por ali, em qualquer sombra. Desta vez não havia tempo, a ministra da Cultura de Portugal andava perto, à espera do homem.
Por isso a mulher lá ficou, a falar sozinha: “senhor arquitecto! Senhor arquitecto Siza Vieira! Venha cá para conversarmos um bocadinho”.
Não desta vez. Mas acredito que se amanhã voltar à Cidade Velha os vá encontrar aos dois, sentados em qualquer pedra, à sombra, a conversar um bocadinho.
Um calmo abraço
Fernando Peixeiro


Ó Peixeiro, esta prosa, confesso, comoveu-me um bocadinho. Não sei se pelas gotas de suor, se por adivinhar o que se alonga pelos olhos a partir dessa tal pedra, se por adivinhar os putos, lá em baixo, na praia, junto aos botes de pesca, a saltar para a a água do mar calmo, se por adivinhar que, dois ou três quilómetros mais à frente, para o Caniço, saltam do mar uma garoupas fabulosas… ou se ainda pela calma do arquitecto.
Mas acho que é por tudo isso.
Obrigado
Simplesmente excelente!
cumprimentos,
José Carreira