Vai uma partida de futebol antes que chova?
Publicado por Fernando Peixeiro 25 Março 2007 em Cabo Verde.Companheiro,
Grandes alegrias me dás por saber que Portugal continua a singrar e que a imaginação dos nossos governantes não tem limites. Só te peço que também não te espantes muito com essas coisas, para não ter, um dia destes, de começar uma carta com Atónito António. É que não soa bem.
E já que me falavas de coisas estranhas aqui que te deixo algumas, que me ocorrem assim de repente, desta terra que mesmo assim deve ser das mais bem comportadas de África.
Para os lados de Pedra Badejo, não muito longe da Cidade da Praia, há um campo de futebol que está interditado de Outubro a Dezembro, sensivelmente, e se o tempo ajudar. Porque se S. Pedro se lembrar é por volta do Outono que caem algumas chuvas por aqui e então, de um dia para o outro, o campo de futebol da localidade é interditado e transforma-se num belo campo de milho.
Uma contrariedade para os jogadores, que lá ficam os meses, aborrecidos, a ver aquelas ervinhas a nascer, de água na boca, a pensar que têm ali um belo relvado e que nem sequer podem fazer um aquecimento, quanto mais jogar uma partida.
Mas as ervinhas continuam a crescer. E quando aquele belo estádio está já um formoso campo de milho, do qual sobressaem, orgulhosas, duas belas balizas, eles já só querem que a maçaroca amadureça depressa, para voltarem a por uma bola na eira.
Contas feitas perdem-se umas 12 belas partidas de futebol e uma boa dúzia de tardes de domingo bem passadas. Mas também, no fundo, é só por distracção mesmo, porque por ali joga-se a feijões, ou neste caso a grãos de milho.
Isso acontece por toda a ilha de Santiago. Aos domingos há grandes jogos em leitos secos de ribeiros, nas estradas e até no areal das praias, porque o futebol é o desporto de eleição do cabo-verdiano.
Mas aqui chega-se a outra coisa estranha. Seria normal que os grandes ídolos fossem os jogadores portugueses, tendo em conta a devoção com que o futebol nacional é seguido.
Mas qual quê? Camisolas do Cristiano Ronaldo? Posteres do Luís Figo pendurados na paredes? Promoções usando nomes como Ricardo Carvalho ou Ricardo Quaresma? Hélder Postiga , Simão Sabrosa ou Nuno Gomes? Naaaaaaa… nada! No mercado de Sucupira, o maior do país, as camisolas, os bonés, os pins e os crachás que mais se vêm à venda são de Bob Marley.
E perguntas tu o que liga o guitarrista e compositor jamaicano aos cabo-verdianos? Não sei. E pergunto-lhes eu: o que vos liga a Bob Marley? Hummmm… não sabem. Mas se vou comprar um banal isqueiro numa loja qualquer imagina lá que cara me vem chapada naquele plástico aderente…
País de coisas estranhas também este. É estranho que as ruas do centro da capital homenageiem nomes do tempo colonial português, é estranho que só se vá à praia ao fim-de-semana quando faz sol e calor todos os dias. É estranho que quando as tartarugas marinhas aqui cheguem para desovar o pessoal as mate e as coma.
Agora imagina tu um indivíduo com uma t-shirt do Bob Marley sentado à beira de um campo de milho a comer um prato de carne de tartaruga, com ovos mexidos, de tartaruga. Seria algo de estranho? Eu cá acho que não. Mas se passar por ali o tal porco a voar… ah! isso já não digo nada.
Um abraço.
Fernando Peixeiro


