Uma semana e litro e meio
Publicado por Fernando Peixeiro 5 Outubro 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Espero que esta carta que te vá encontrar limpinho e de saúde, junto dos teus, que eu cá vou felizmente. Tenho comido bem, bebido muito que tem feito muito calor, e trabalhado, que é para isso que me pagam. Estou sem água há uma semana mas isso é só um pormenor. Toma banho no mar, dirás tu. É o que faço. Já criei escamas.
Bem… isto das escamas era a brincar. Mas da água é verdade. Ainda esta semana, logo no início, a ministra da Economia deu uma conferência de imprensa para dizer que a famosa Electra, que distribui água e energia, está a viver uma situação crítica, porque ao que parece ninguém quer pagar as facturas.
Eu fui lá. E ouvi a senhora dizer que só aqui na Cidade da Praia, onde vivo, 13 por cento da energia consumida é roubada, o equivalente a todo o consumo das ilhas do Fogo, Brava, Maio e Boa Vista.
Aqui na Praia, disse a ministra, rouba-se descaradamente, até nos prédios novos já se faz a coisa de maneira a que depois a ligação eléctrica seja fraudulenta. Disse a ministra que isto não pode continuar e que o governo vai agir. Se calhar ainda ninguém lhe disse mas o que circula por aqui é que quem faz essas ligações manhosas são os próprios funcionários da Electra.
Ora estava eu a ouvir a senhora ministra e a lembrar-me que nessa manhã tinha tomado banho com litro e meio de água, despejada pela metade devagarinho pela cabeça abaixo, depois um bocadinho de gel, e depois o resto da água. E estava a lembrar-me que tinham cortado a luz duas horas antes e que não sabia quando voltaria ela, se ainda a tempo de não me descongelar as coisitas do frigorífico (não te digo o quê para depois não ter de ouvir o Ricardo Bordalo). Dizia eu que estava a pensar estas coisas e a imaginar o prazer que teria se pudesse enganar a filha de sua mãe que é a empresa Electra.
Há dois anos, disse a ministra, a energia roubada custou aos senhores o equivalente a 2,7 milhões de euros. E contou-nos também, o mesmo é dizer a todo o país e arredores, que desde 2003/04 que as autarquias deixaram de pagar a iluminação pública. A pouca que há. Quem é que paga? Ninguém. Quanto é que se deve? Qualquer coisa como 3,5 milhões de euros. E mesmo os que têm contadores, particulares, empresas e Estado pagam? Hummm, têm dias. Quanto é que devem? Vários milhões. Já me esqueci quanto. O governo vai obrigar as autarquias a pagar? Não. Então como é? O povo é que paga.
Nem mais. Como é que o governo vai resolver a crise? Pôr fiscais na rua, com poderes reforçados, para acabar com as falcatruas e o resto cria-se uma taxa para cobrir as dívidas.
Agora diz-me lá, que estás num país onde faltar a luz uma manhã que seja é notícia de primeira página, que vontade é que as pessoas têm de pagar um serviço que é péssimo? Que o digam os moradores de Achada Grande, onde se passam semanas sem uma pinga de água. De algumas zonas, quase todas, da Achada de Santo António. Que o digam os moradores da Brava, onde falta luz semanas inteiras. Que o digam os moradores do Maio, onde tudo se estraga pela mesma razão, pelo mesmo tempo de falta de um serviço que o Estado devia prestar.
Ninguém pode exigir que o respeitem se não se sabe dar ao respeito. Aqui em Cabo Verde se há instituição que ninguém respeita é a Electra. E digo-o com conhecimento de causa. Nos quais dois anos que levo daqui nunca, mas nem uma única e salutar vez, uma alminha da Electra foi educada a um telefonema meu a perguntar humildemente quando é que estavam a pensar ligar a luz outra vez. Pior, ou melhor, na maior parte das vezes ninguém atende. E se o fazem é para dizerem, com maus modos, que não sabem porque não há luz ou água e não sabem quando voltam.
No momento em que te escrevo esta já longa carta, um sábado à noite, não tenho água. E como amanhã é domingo vai ser assim o dia todo. E como segunda-feira tenho de sair bastante cedo isso quer dizer que faço nesse dia exactamente uma semana de banhos de litro e meio.
E pronto, caro amigo, despeço-me que já deves estar cansado de me ler. Se assim é deixo-te uma boa notícia: vou estar uns dias ausente, a partir de segunda-feira, enfiado numa rocha de sete quilómetros, sem uma única árvore e basicamente sem nada. Lá não há comunicações, nem sequer telemóvel, daí o meu silêncio anunciado. Pelo menos tem uma coisa boa. Duas. Não há Electra. E já estou habituado a tomar banho com litro e meio de água.
O que vou lá fazer? Depois te contarei.
Um abraço e até breve
Ah. Hoje choveu muito cá. Irónico não?



a falta que miúdas que têm poderes de forma a que na estada por ai não tenha faltada a água fazem
Venham, venham! Descobri novos recantos desta ilha muito bonitos. E ainda vos faltam as outras oito. Sem contar com o tal rochedo, de sete quilómetros.
Ó Peixeiro, vou hoje admitir uma merda que me diminui como homem, me esfrangalha aquela que eu achava ser uma indómita vontade de expurgar de mim os sentimentos lamechas, que faz de mim uma espécie de alforreca com dias de sol na praia de São Francisco, atirada por uma onda menos bondosa com as criaturas que do mar são do mar, agrilhotou à areia escaldante: estou com saudades de Cabo Verde.
E pronto, agora que é uma criatura diminuida que escreve, lembro o que aqui me trouxe: Sabes que os tugas da EDP e da AdP foram expulsos da Electra, quer dizer, aproveitaram a oportunidade para se colocarem ao fresco, quando o primeiro ministro, José Maria Neves, que, como sabes, é bom homem, gajo porreiro e essas cenas todas, disse que havia muitas praias em Cabo Verde para os tugas se enfiarem num bote e largarem para Portugal. Isso, por causa da Electra, que servia mal o país e coisa e tal.
Bom, já agora, que porra eram as coisas que tinhas no frigorífico prestes a apoderecerem por falta de energia???
OLha, leva a tua amiga Mónica à praia(como se chama???) que fica para lá de Porto Mosquito, onde estão aqueles 345 mil tipos e tipas a tirar areia, vai até ao fundo, arranja forma de passar para o outro lado e vai ver como as rochas suaves entram pela água azul como se tudo aquilo tivesse sido feito pelo Criador do mar e da terra para levares as tuas amigas.
Hasta.
Ah! Ah! Ah! meu amigo Ricardo,
Estou a ver que estás com saudades de Cabo Verde e principalmente da praia de Santa Clara (Porto mosquito).
Porque não tirar férias e vir fazer uma boa pescaria aqui, lembrando os bons momentos?
Jean Thomas, nha irmon, kuma??
É verdade meu bom amigo, é verdade…
Tenho umas saudades fodidas das nossas pescarias, das tuas irritações por eu ser melhor pescador que tu, por ser eu sempre a tirar as bicas mais gordas… de eu e tu termos sempre pena do Houss porque o gajo era sempre o que pescava menos(até o Ruben apanhava mais peixe que ele!!!), dos nossos almoços…
Tenho saudades das minhas, nossas amigas, e amigos…
Mas que se foda!
Se calhar, embora isso dependa de o Peixeiro me deixar ocupar-lhe os aposentos ou não, ou seja, se a´s amigas dele forem ou não às ilhas, pelo Natal poderei ir à Praia.
Vamos ver, como diz o mestre Faneca Peixeiro, aguardemos serenamente!!
Abraços
rb