Caro amigo
Pois aqui em Cabo Verde, honra lhe seja feita, há uma rede de autocarros urbanos e para a província que funciona satisfatoriamente. Ao contrário de Angola, Cabo Verde não tem petróleo, não tem diamantes, não tem madeiras preciosas, não tem, meu amigo, sequer água. Mas consegue dar um mínimo de dignidade aos seus habitantes, habituados não sei como a extrair alimento de uma terra que se calhar nem devia ser habitada. Mas se um dia descobrirem utilidade para tanto pó, tanto vento e tanta pedra… ahhh… os cabo-verdianos serão riquíssimos.
Não venho, caro amigo, fazer elogios ao governo. Não. Nem é o meu género faze-los quando os governos governam bem, porque afinal é para isso que lá estão. Quando se portam mal, isso sim, devemos todos dar-lhe na cabeça, porque é o nosso dever.
É por isso irrelevante falar-te da cor do governo, do primeiro-ministro ou daqueles que o rodeiam. Mas estou aqui e o que vejo é incontestável e gosto que também o saibas. Cabo Verde não é um país perfeito, há falta de civismo, é caro e a qualidade de vida fica um bocado aquém. Mas tendo em conta as características destas ilhas é bom que se diga que muito têm eles conseguido.
Em Cabo Verde não se morre de fome, há um sistema de segurança social que funciona, há estradas (algumas muito más, é verdade), uma electrificação aceitável, um ensino que resulta, um sistema de saúde abrangente, uma distribuição de água que vai andando e quase toda a gente, que eu saiba, tem um tecto para dormir.
Depois o país soube aproveitar aquilo que o mata mas que ao mesmo tempo o pode salvar: o calor. É que se por um lado faz sempre calor e a terra é árida praticamente o ano inteiro, por outro é esse calor que seduz os estrangeiros, principalmente do norte da Europa, fartos de passarem dias sem ver o sol e longe de uma bela praia de águas tépidas.
É por isso que os empreendimentos turísticos nascem aqui como cogumelos. Em Santiago, no Sal, na Boa Vista, em S. Vicente… Muitos dizem já que as autoridades deste país estão a vender as ilhas aos bocados. E a isso os responsáveis respondem que antes com esses empreendimentos estrangeiros do que a morrer de fome.
Ainda há pouco tempo o escritor Germano de Almeida, numa crónica na revista “África 21”, criticava que o país fosse vendido “pedaço a pedaço” a estrangeiros, “que depois o leiloam entre os predadores do mundo para a construção de resorts em forma de fortalezas” onde nem cães nem cabo-verdianos podem entrar, “excepto a criadagem entrada pelo portão”.
Vítor Fidalgo, presidente da empresa que gere os investimentos estrangeiros no país, responde assim: ”Os Estados Unidos, ou Portugal, chamam a si os investidores externos e que eu saiba não estão a ser vendidos aos bocados”.
Não sei caro amigo. É que sem mais nada que remédio têm mesmo os cabo-verdianos? Ou seria melhor ficarem por aqui sozinhos, a viver de uma sopa da pedra? Mas, literalmente, uma verdadeira sopa da pedra?
Olha, o que eu sei é que nos próximos três anos vão ser investidos aqui, no turismo, quase cinco mil milhões de euros. Eu penso que ainda bem. Não fosse assim e esta gente não tardava nada e estaria toda a meter-se em barcaças para ir morrer às portas da Europa. Porque não podiam ir a pé e porque a tal sopa da pedra se calhar fazia mal ao estômago.
Um abraço cheio de optimismo
Fernando Peixeiro

