Uma pistola nas cuecas

Caro amigo

Já te falei algumas vezes aqui da praia de S. Francisco. É uma das mais bonitas de Santiago, calminha, com um restaurante simpático ao pé onde se come um delicioso peixe grelhado, maior do que aqueles que te rodeiam, curiosos, quando vais tomar banho. Era o último sítio onde podias imaginar um tiroteio. Era.
Exactamente uma semana depois de lá ter passado uma calma manhã de sol, seguido do tal almoço de peixe grelhado, a praia foi palco de uma bela luta entre grupos aqui da Praia, aquilo que se chama os “thugs”, traduzido por grupos de jovens que… enfim… passam a vida a fazer asneiras.
Diz a imprensa que pelos menos três pessoas ficaram feridas, com armas de fogo, sem contar com os feridos com armas brancas, e diz a polícia que quando chegou encontrou pessoas a correr por todos os lados.
Diz a polícia, citada pelo jornal Expresso das Ilhas: “quem vai para uma praia de mar é para se ir descontrair e tomar um banho junto da família e quando acontecem casos destes, e numa operação onde encontraram cinco armas de fogo, a polícia levanta muitas questões, já que não é normal este tipo de situações”.
Não diria melhor. Não é normal. Que alguém vá para a praia armar confusão, que alguém queira ir dar um mergulhito e apanhar um pouco de sol e em vez disso apanhe com uma bala. Que alguém vá para a praia armado, de pistola no bolso. Nada disto me parece normal, caro amigo.
Como também não é normal que só no mês de Janeiro tenham sido assaltadas 20 casas de um só bairro, Fazenda, aqui na capital cabo-verdiana. Menos mal, porque no ano passado, no mesmo local e em Janeiro, foram 26 assaltos.
Roubam-se telemóveis na mesa de cabeceira das pessoas que dormem, roupa pendurada no quintal, electrodomésticos, e uma senhora contou mesmo que os ladrões lhe entraram pela cozinha mas que como a porta de acesso ao resto da casa estava trancada comeram-lhe tudo o que lá havia. Ladrão pobre mas farto!
Quanto à batalha campal da bela praia de S. Francisco diz também o jornal que a polícia apanhou muitos dos jovens intervenientes, que agora se queixam amargamente da forma como foram tratados na esquadra.
Uns têm marcas nas costas, nódoas negras nas pernas e um bocadinho mais acima. Um conta que não pode andar porque lhe bateram nos pés, outro garante que não se pode sentar. “Pisaram as nossas caras, pontapearam-nos a boca com botas, deram-nos banho e bateram-nos com mangueiras nas costas”, queixam-se os rapazes.
Não sei que pensar disto tudo. Nada disto me parece mesmo nada normal. Não é normal acordar e terem-nos comido a sopa, a fruta, os iogurtes e os gelados. Não é normal ir para a praia com uma pistola nas cuecas. Não é normal ir dar um mergulho e acabar gentilmente lavado pelas mangueiras da polícia. Mas garanto-te: continuarei a ir a S. Francisco. Pode ser que as armas enferrujem com a maresia e que se acabe a água para os lados da esquadra.

Um preocupado abraço

Fernando Peixeiro


3 Responses to “Uma pistola nas cuecas”

  1. 1 ricardo

    “Não é normal acordar e terem-nos comido a sopa, a fruta, os iogurtes e os gelados.”

    Pois não, mas se fossem os restos da catchupa, cum carago, isso sim… isso seria o fim do mundo. Não é por nada, mas eu sou daqueles que espera que a noite passe pela catchupinha para depois lhe lançar os maxilares. É mais ou menos como a feijoada, sabe muito melhor no dia seguinte.

    Mas não é bem isso que me apetece dizer, ó Peixeiro! É mais ou menos isto. A facilidade com que transferimos o recheio do nosso frigorífico para o frigorífico alheio é assim como que… deixa cá ver, como… se a Fazenda fosse um bairro onde é normal os frigoríficos estarem repletos de iogurtes e frutas porque o nosso frigorífico está habituado a este tipo de vitualhas. Mas não é assim… e por não ser assim, explica muito do porquê dos tiroteos de thugs e assaltos na Praia. A miséria, não haver nada para fazer para milhares de putos, cada vez mais milhares… em Cabo Verde. Anda-se pelas ruas e parece que a ilha só é habitada por crianças e adolescentes, pastoreados aqui e ali por um velho sonolento. Vive-se cada vez mais tempo em Cabo Verde, provavelmente dos 500 mil habitantes, 400 mil são putos que, daqui a 15 anos, ou menos, vão ter que emigrar porque não têm trabalho em casa. Mas emigrar para onde? São putos mais e mais letrados, cada vez menos africanos apesar dos discursos oficiais… Acho que vamos assistir a uma cena compelxa nas ilhas dentro de pouco tempo. A criminalidade é controlável pela polícia, basta uns açoites no Tarrafal que a Ponta d´Água sentirá as vergastadas… mas e depois. DE Sâo Nicolau, do Fogo, de Santo Antão chegam ás carradas e diariamente gente para a Praia(Santiago). Pode ser que nem sequer cheguem para os garçons do boom turístico. Mas não creio. Acho que daqui a 10 anos esses putos todos vão assentar que nem uma luva num Portugal ou numa HOlanda velhos e cansados. Vai ser bonito de ver.

  2. 2 fernando peixeiro

    Só para esclarecer o Ricardo transcrevo aqui as palavras da senhora a quem assaltaram a cozinha na Fazenda: “Encontrei a minha panela no chão, já sem comida, vi que comeram banana, iogurtes, maçã, enfim, devoraram tudo que havia no meu frigorífico, até os sorveres comeram”.
    E já agora descrevo o meu: seis cervejas super bock, uma garrafa de vinho branco Porca de Murça, duas garrafas de água de litro e meio, uma de coca cola pequena, três embalagens de sumo também pequenas, um saco com tomates, um ovo, maionese e ketchup. No congelador um pato e um saco com pão.

  3. 3 ricardo

    Ó Peixeiro, eu destacaria o pato. Não aprovo o Porca de Murça. Não é por nada, nem é por ser branco. Alias, vinho branco só é bom quando a companhia com a qual é bebido lhe dá uma coloração decente. Excepto se estiver muito calor e na mesa um marisco… olha, umas crakas da costa norte de Santiago. “um ovo”. Ok, não tinha visto, “um ovo” bate qualquer retórica sobre este sujeito. Mas lamento que o teu frigorífico não apresente uns lombos de atum, umas garoupas, nem que fosse das pequenas, para o grelhador, ou ainda uns salmonetes de rabo amarelo. Um saco com tomates no frigorífico, convenhamos, é de homem! Já a maionese, porra, passava bem sem saber! A coca-cola é fixe, para os dias de ressaca, para aquelas manhãs acordadas depois de uma noite das antigas no Quintal da Música… ou ainda das linguicinhas nas tascas da ASA. A super bock não me merece qualquer comentário. Ahh, pois é, o tacho no chão, sem comida, na casa da senhora roubada, é bastante claro sobre a dignidade de quem o esventrou. Mano, tens que prometer uma coisa, quando eu for às ilhas, prometes que vais ao cais de pesca arranjar uns lombinhos de atum, do grande, para fazer assim em bifinhos, na panela. Podemos mesmo comer no chão…

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