Uma ilha e o mundo

Caro amigo

Entendo o desânimo que sentes por coisas que vão acontecendo por aí mas queria dizer-te que não penses que é só em Portugal. Nós seguimos muitas vezes o ditado de que “a galinha da minha vizinha é melhor do que a minha” mas se formos ver bem se calhar aquilo nem é uma galinha, é uma franga, e quase depenada. E não, não considerei ainda ficar por cá, a viver numa ilha.
A minha tendência, visto de longe, é para amenizar os problemas de que me falas. Porque aqui também os há e, pelo que se vai sabendo, o mal é geral. E gostando das ilhas, das pessoas e da experiência, penso agora (volta a perguntar-me em seis meses, se verá) que quero regressar um dia a Portugal, e com isso terminarmos esta nossa correspondência.
Sabes, caro amigo, que não é fácil viver numa ilha, pelo menos para mim. Acabas sempre por sentir que estás fechado do mundo, e, por azar, o mundo já não é para ti um torrão de 70 quilómetros.
O meu já foi mais pequeno, mas vamo-lo criando, deixando crescer, e depois chegamos à conclusão que já não cabemos hoje no mundo que nos era grande ontem.
Quando era criança o meu mundo era do tamanho da minha casa e um bocadinho à volta. Uma circunferência entre a fonte, a sul, onde ia buscar água, a cerca, a norte, e o Valinho, a casa mais perto, que provavelmente deve o seu nome a ficar num pequeno vale e não ao local da quarta aparição de Fátima aos pastorinhos, segundo reza a história, para quem acredita nela.
Chegava-me esse mundo até aos seis anos. E confesso-te que senti um medo terrível quando ultrapassei essa circunferência para ir para a escola, a menos de dois quilómetros mas mesmo assim longe, muito longe.
Naturalmente, como qualquer outra pessoa, ganhei esse mundo, da aldeia de S. Francisco, que para mim era também suficiente até me ver obrigado a alargá-lo até Santiago, a vila onde andei no liceu.
Ás vezes, digo-te eu, tenho saudades de quando o mundo tinha para mim 12 quilómetros. Mas a verdade é que depois cresceu até Lisboa, depois por Portugal inteiro.
A profissão e a curiosidade fizeram o resto. Europa, América, Ásia… o mundo a crescer e nós com ele, e cada vez maiores, e cada vez mais pequenos, a sentir que já tudo é minúsculo para nós e a sentir que nós é que somos pequenos para tanto mundo.
Não sei se é por isso ou não. Pensei que me habituava mas na verdade viver numa ilha faz-me sentir um bocadinho acanhado. Como te sentirias tu a viver numa ilha que percorres, a pé, em 12 horas? É certo que em Lisboa posso passar semanas sem sair do mesmo bairro. Mas sei que o resto está ali mais perto. Aqui, meto-me no carro e vou ao outro lado, e volto, e vou outra vez, e volto.
Posso sempre, assim tenha dinheiro para isso, comprar um barco. E depois tenho aqui uma aldeia chamada S. Francisco e a ilha chama-se Santiago. É como se voltasse ao pequeno mundo da infância.
Mas posso também, um dia, regressar a Portugal.
E depois… não sei… eu acho que se tivesse um banco como o BCP perdoava as dívidas dos meus filhos, dos meus pais e dos meus irmãos. Pelo menos! Corruptos em potência, como eu, nunca terão dinheiro na vida. É o destino?

Um ilhéu e, por enquanto, limpo abraço

Fernando Peixeiro


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