Caro amigo

Achei “deliciosa” essa da sopa de peixe mas não entendi porque lhe chamaste a história de umas sopas de tomate. São coisas diferentes e tu sabes mas por certo te confundiste. E parto daqui para de dizer que às vezes sinto uma imensa vergonha da promoção da burrice portuguesa que a RTP África se encarrega de mostrar a toda a gente por aqui. E uma coisa é estares distraído, que foi obviamente o teu caso, mas outra, bem diferente, é achar que caldo verde se faz com couve, azeite, alho e polpa de tomate.
Confrange-me, juro-te, ver tanta estupidez, vinda de pessoas que até têm aquilo que chamamos um ar normal. Parece, às vezes, uma autêntica conspiração de estúpidos, como o livro de John Kennnedy Toole, ou então que todos os burros de Portugal se juntaram no mesmo programa. Prefiro pensar assim, fico mais feliz imaginando que todos os outros, que estão em casa, são pessoas normais.
Aqui em Cabo Verde, e em toda a África, passa à noite o programa “Um contra todos”, da RTP, que consiste basicamente em 50 pessoas que respondem a perguntas de cultura geral, sendo que uma delas tem mais tempo para pensar, pode comprar a pergunta e ganha dinheiro à medida que os outros não acertam.
Eu vejo aquilo e há noites que quase me sinto corar, pensando nas figuras tristes dos portugueses assim expostas para os cabo-verdianos, angolanos, moçambicanos, são tomenses ou guineenses. Não sei se não seria preferível ficarmos com as nossas misérias em casa, sem as andar a mostrar assim. Porque não é um nem dois concorrentes, são tantos os disparates, é tanta a burrice, que inevitavelmente todos aqui vão achar que somos uma cambada de idiotas. Bem… se calhar…
Mas diz-me, caro amigo, não é de dares saltos quando uma concorrente, universitária, escolheu para deus grego dos sonhos Zeus em vez de Morfeu? Carlos Malato, apresentador do concurso, ajudou, falou-lhe da frase “nos braços de..” a ver se a miúda espevitava, mas nada. Há pessoas que, além de burras, são também parvinhas, porque em vez de ficarem quietinhas vão para a televisão fazer alarde da sua falta de conhecimentos. Falta generalizada, uma septicemia na inteligência. Não sabem história, não sabem língua ou literatura portuguesa, não sabem geografia, não sabem literatura estrangeira, não sabem actualidade, música, desporto, Europa… nada… nem como se faz caldo verde, como recentemente aconteceu a um rapaz.
A última concorrente, que está a passar agora aqui, é um caso extremo. Pura e simplesmente não sabe nada. Quando surge uma pergunta, como aconteceu recentemente, sobre onde fica a Ria Formosa, e as hipóteses são Algarve, Aveiro e costa alentejana, pensas: ah, esta todos sabem. Enganas-te, não sabem.
E na semana passada, um concorrente mais inteligente do que a norma, que até ganhou bom dinheiro, não sabia como se classificava a palavra automóvel quanto a acentuação! As hipóteses eram, naturalmente, três: aguda, grave ou esdrúxula. Concluiu, e bem, que esdrúxula é uma palavra esdrúxula. E depois achou que automóvel era uma palavra aguda! Pensas: se ele é que não sabe, os outros todos acertaram! Mas depois não… metade da plateia errou! Achas isto normal?
Posso estar errado. Diz-me tu se devíamos andar a mostrar a toda a gente o quanto somos burros! Eu não sei, mas que muitas vezes, quando saio de casa, me apetece pôr uns óculos escuros e uma gabardina para passar despercebido… ah… lá isso…

Um abraço cheio de dúvidas

Fernando Peixeiro


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