Caro amigo,
aqui nas praias da Praia é irrelevante se andas de calções ou de cuecas, e mesmo se passeares nu na praia não me parece que alguém se importe com isso. Não é que haja em Cabo Verde, pelo menos na ilha de Santiago, praias de nudismo, ou mesmo aquelas recantos “naked friendly”. É só porque os cabo-verdianos têm uma relação muito menos preconceituosa em relação ao corpo que os portugueses. Homens e mulheres. Agora, meu amigo, podem estar quase nus, podem ficar mesmo nus se uma onda mais afoita lhes leva as roupas, que ninguém se importa. Mas experimenta tocar-lhes nos chinelos!
Mais do que telemóveis, relógios, carteiras, toalhas, roupas ou comida, o que os cabo-verdianos mais acautelam quando vão à praia são os chinelos, numa obsessão que só tem paralelo com a obsessão de outros em roubar os chinelos alheios.
Das duas uma: ou anda por aí uma moda de coleccionar chinelos ou então é material que vale bom preço no mercado negro. E não estou a falar de chinelos Coco Chanel ou Louis Vuiton, falo daqueles mais banais, de enfiar no dedo, que o comum dos mortais leva para a praia.
O que é certo é que mal alguém se descuida em deixar bem à vista aquele pedacito de borracha, quando vai ao banho arrisca-se a já ter de ir descalço para casa. E usam-se até técnicas apuradas: sentas-te ao lado da vítima, a conversar, e com um pé, displicentemente, vais abrindo um buraco na areia. Depois, mal ela se distrai, lá vão os chinelos para o buraco, que é no mesmo instante tapado.
Descobre-se o roubo e gera-se logo ali uma grande algazarra. Roubaram-me os chinelos! Onde é que estão os meus chinelos?Alguém viu os meus chinelos? O “criminoso” fica também louco da vida, começa a procurar, corre a praia de lés a lés, ofegante. Onde é que estão os chinelos? E depois, mais tarde ou até pela calada da noite, volta ao local do crime e desenterra o tesouro, um belo par de havaianas, quase novo e suficientemente colorido para despertar a cobiça noutra praia ou num gigantesco armazém de chinelos, que presumo exista por aqui.
Ontem julguei mesmo descobri-lo. Ao fim da tarde, quando os jovens que por estes dias de férias da Páscoa enchem as praias, não foi nem um nem dois nem sequer meia dúzia que eu vi a dirigir-se para um buraco por baixo de umas escadas, na praia de Quebra Canela, para de lá retirar um belo, fresco, apetecível, lindo, sexy, sensual, moderno, aerodinâmico e lustroso par de chinelos.
Depois percebi. Para que não seja aquela relíquia roubada a juventude chega à praia e esconde ali o material. Assim pode andar descansado a tarde toda. O buraco de Quebra Canela é quase como se fosse um bengaleiro de uma discoteca, só não vi quem cuida dele. Mas descobri um bom negócio aqui: abrir pequenos quiosques nas praias onde cada pessoa pode deixar os chinelos mediante uma pequena contribuição.
Assim, evitava-se a chatice de não se poder andar a tomar banho descansado e evitava-se que muitos jovens enveredassem por maus caminhos. Até já me imaginei como um empresário independente na Praia, que receberia um subsídio do Estado por contribuir para a prevenção do crime. Só ontem, que eu visse, três jovens foram levados pela polícia, que está atenta do alto das rochas à caça de gatunos de chinelos. Que eu visse, porque olhos mais experimentados que os meus falaram-me em oito detidos.
Quiosques para guardar chinelos nas praias contribuíriam também para a economia do país e fariam muitas famílias felizes. As daqueles que chegariam todos os dias a casa sem a afronta de terem de enfrentar os pais e dizer: “Olha… roubaram-me outra vez os chinelos”. E, claro, a minha.
Amigo António, prometo voltar o assunto assim que consiga chegar à fala com um desses criminosos, assim que descubra ogrande armazém de chinelos roubados ou assim que me roubem os meus.
Do teu amigo ainda calçado,
Fernando Peixeiro

