Caro amigo
Em mais de um ano desta correspondência, não me lembro já se te falei da economia dos bidões, aqueles mesmos do crude mas cheios de roupa, bugigangas e alimentos, que chegam aqui em barcos, enviados pelos emigrantes, especialmente os que andam pelos Estados Unidos. Mas tenho a certeza que não te disse outra coisa que vem neles: armas. Muitas. E a funcionar.
Esta semana a questão das armas que proliferam aqui pelas ilhas foi discutida durante três dias na Praia. E a frase nem sequer é minha, é do ministro da Administração Interna, Lívio Lopes, que falou em “proliferação de armas” ilegais.
“A Polícia Nacional tem uma noção em termos de localização espacial, que as ilhas de Santiago, Fogo e Brava são as ilhas que concentram maior número de armas em termos de entradas, com origem principalmente nos bidões de encomendas que vem de fora”. Palavras de ministro.
E entende-se porquê estas ilhas. Santiago porque é onde chegam os barcos carregados de bidões da América, que pelo que sei são abertos pela alfandega mas cujos funcionários desistem muitas vezes das buscas, fartos de vasculhar em meio bidão de roupa velha.
Não sabem, ou não querem saber, ou sabem e ganham alguma coisa para não saber, que as coisas mais importantes e valiosas vêm no fundo do bidão. O próprio dono de um, que vende aqui na Praia o que a família lhe manda dos Estados Unidos, me dizia isso há tempos, pelo que parece que além de lógico não é segredo para ninguém.
E depois Fogo e Brava. Também natural, porque os cabo-verdianos do Fogo e da Brava emigraram de preferência para os Estados Unidos, como os do interior de Santiago emigraram tendencialmente para Portugal.
Agora há uma coisa que te quero fazer notar. As autoridades sabem que há muitas armas por aí mas não fazem a mínima ideia quantas e em que mãos.
A mim já me disseram, e não foi só uma pessoa, que no mercado de Sucupira, aqui no centro da capital da Cabo Verde, posso comprar qualquer tipo de arma e respectivas munições. Não sei, nunca tentei. Mas sei que por muitas que por ali andem nunca será comparável ao imenso, monstruoso, supermercado de armas letais que é os Estados Unidos.
E será de lá, compradas em saldo, compradas nas quantidades que quiseres, que elas viajam depois confortavelmente aqui para as ilhas, embrulhadas numa camisa de marca ou dentro de um par de botas, também de marca.
Sei que as autoridades estão preocupadas, “tendo em conta os crimes que estão a surgir ultimamente nos quais essas armas são usadas”, segundo Lívio Lopes.
E é também o homem que diz isto: Estamos numa região onde o controlo da livre circulação de pessoas e bens é ainda deficiente, o que poderá levar com que haja um maior número de angariação dessas armas nas nossas águas territoriais.
Mas olha, caro amigo. Também sei que, aqui, identificar um problema é uma coisa e combate-lo é outra.
Sei agora, e sabes tu também, que cada cidadão deste país pode, se quiser, andar com uma bela pistola à cintura. Eu prefiro o par de botas. E que as possa descalçar todas as noites.
Um abraço
Fernando Peixeiro

