Caro amigo

Pois também temos por cá a nossa barragem, inaugurada no ano passado e hoje local de peregrinação dominical, com direito a cesta de merenda e se calhar até uma partidinha de futebol ao lado da bela construção. Eu próprio já aproveitei (e repara que digo aproveitei e não gastei) um destes domingos para ir ver a obra. Foi feita pela cooperação chinesa e não está mal. Uma barragem é uma barragem é uma barragem, diria Gertrude Stein. Agora devias ver o resto!
O resto são os edifícios emblemáticos da Praia. A Assembleia Nacional, o Palácio do Governo ou a Biblioteca Nacional. Tudo feito pela cooperação chinesa, que tem gasto milhões neste país. Do género o irmão mais velho a ajudar o pequenino a desenvencilhar-se e a pô-lo de pé quando ele tropeça ou cai.
Mas uma barragem para quê, num país onde não chove? Estarás tu a matutar. Também achei a coisa esquisita mas depois, pensando melhor, até faz sentido. Cabo Verde tem uma falta crónica de água e é um país tórrido, com calor o ano inteiro. Por norma chove lá para Outubro, dois ou três dias e pronto! É como se S. Pedro tivesse marcado no calendário os dias de chuva aqui e se esquecesse de ir revendo a meteorologia. Impedida durante todo o ano de cair, a água vinga-se nesses dias e chove “como quem a derrama”. Em dois dias só não alaga mais porque como o terreno é seco e sem árvores a água desce até ao mar e some-se, tão rapidamente como chega. Por isso uma barragem faz sentido, porque assim pelo menos alguma sempre fica por cá, para ser aproveitada para rega, consumo ou lazer, e até para amenizar o clima e para termos o que fazer aos domingos.
Útil portanto a barragem, de betão, uma construção irrepreensível. De um dos lados os chineses construíram um pequeno pagode, para proteger uma placa onde explicam que a obra foi feita ao abrigo da cooperação. Um pagode não tem muito a ver com a arquitectura de Cabo Verde, tipicamente ocidental, mas mesmo assim a coisa é discreta.
O que me deixa espantado é o resto. O grande edifício da Assembleia Nacional de Cabo Verde é de gosto discutível mas mesmo assim de alguma sobriedade, o problema é quando se entra lá dentro. Algumas salas são…Tu entras, caro amigo, e lembra-te logo dos restaurantes chineses, como os que há aí mas que também há cá. É o estilo chinês no seu melhor, os candeeiros a dar nas vistas, os tectos, os nichos, as saliências, os recantos, as pinturas, tudo muito “achinesado”, ainda que se note que houve uma tentativa de contenção.
Pior é o Palácio do Governo onde a veia artística chinesa ficou mais à solta. Resultou num edifício feio, onde não faltam também as luzinhas a enfeitar as curvas do terraço. Felizmente, parece-me que a maior parte já não funciona e assim sempre se evita o espectáculo oriental de feira popular no edifício que alberga o governo.
Mas também há que dizê-lo. Justiça seja feita aos chineses! Chegaram e fizeram, não ficaram por aí a arrastar-se com conversetas e meias-tintas. E os cabo-verdianos, que até precisavam, naturalmente agradeceram.
E depois vamos lá ver uma coisa: aquilo chama-se Palácio do Governo. Um Palácio não pode ser um edifício farrusco, sem cor, sem luz, sem ostentação. Um Palácio é por definição uma “habitação sumptuosa”, um “edifício grandioso e de aparência nobre”. Um palácio é um palácio é um palácio.

Fernando Peixeiro


1 Response to “Um palácio é um palácio é um palácio”

  1. 1 ricardo

    Ó Peixeiro, a par dos palácios, que são Palácios… , vieram também os mapas. Já viste? Onde habitualmente se vê a Europa como centro do Mundo, surge a imensa China! A Europa, afastada lá para as bandas do esquecido. E, em África, isto não é soberba, é, apenas, a recentralização do Mundo como ele é hoje, de facto.

    Crioulas cordialidades.

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