Um país exemplar

Caro amigo,

aquilo que começou por ser uma leve chatice, transformou-se num pesadelo. Se fosse uma doença de pele seria primeiro uma impressão, depois uma pequena comichão, evoluía para uma espécie de escaldão dos que apanhamos na praia, criaria ampolas e acabava num cancro. Há quase uma semana que em Cabo Verde só se consegue aceder à Internet por volta das quatro ou cinco da manhã, e mesmo assim mal e porcamente, que não se consegue enviar um fax para outro país e que chamadas telefónicas também só com muita sorte e persistência.
Eu, que estou aqui em trabalho, apetece-me arrumar as camisas num cantinho do armário, arrumar os sapatos (não as botas, por enquanto), vestir os calções e rumar para a praia. Assim evito dar em louco, passando horas infinitas a olhar para uma página que não abre ou a martelar as teclas do telemóvel.
E falamos de Cabo Verde, o tal das ilhas de sonho, um país exemplar, que todos os anos cresce acima da média, que em 2008 passa a país de rendimento médio. Uma nação elogiada por tudo quanto é organização internacional que por aqui passa, a fazer lembrar o “bom aluno” que foi Portugal, como dizia o nosso governo.
É um país que está há uma semana sem contactos com o exterior e que não se sabe quanto tempo mais vai estar, porque não consegue arranjar um cabo que se partiu à entrada do porto. É um país onde para teres Internet, mandares notícias para Lisboa (poucas) e fazeres chamadas telefónicas para as tuas fontes, além de leres “on-line” o que se passa no mundo (aqui só há a televisão TCV, seis horas por dia e pouca informação, e a RTP-Africa, menos informação ainda), pagas mil euros mensais à Cabo Verde Telecom.
Mas é um país também sem capacidade para fornecer energia eléctrica aos seus habitantes, alguns com semanas à luz da vela e onde mesmo na capital os cortes se tornaram um hábito.
No ano passado os cortes chegaram a demorar semanas. E os cabo-verdianos revoltaram-se contra a Electra, que era gerida por portugueses, e chamaram a si a gestão da coisa. Não melhorou. E dizem que mal chegue o calor vai piorar.
E agora que a Electra faz 25 anos, diz um jornal deste país que gastou 4.500 contos (o dobro em antigos contos de Portugal) para festejar.Será que se justifica gastar tanto dinheiro quando a empresa passa a vida a chorar? pergunta o jornal. E pergunto eu: não terá sido uma festa romântica à luz da vela?
Poupem meus senhores. Façam como o presidente de uma instituição que à socapa meteu água da rede nas garrafas que deviam ser de água engarrafada e levou os empregados todos em correria para as sanitas, enquanto ele passava 15 dias no Brasil numa viagem que devia ser de três (conta o mesmo jornal).
É este o país das mornas, coladeiras e funanás, da morabeza e da cachupa. E dirás tu, da Cesária Évora e do Tito Paris. Claro, mas a primeira mora em Paris e o segundo em Lisboa. Espertos.
Cabo Verde, o país modelo, um caso exemplar de sucesso, tem destas coisas. Por estas e por outras é que às vezes tenho saudades de Portugal.
Um grande abraço. E já não quero que me mandes um pombo-correio.Manda-me um escafandro que eu mesmo vou arranjar o raio do cabo.

Do cada vez mais isolado,

Fernando Peixeiro