Um imenso cemitério azul
Publicado por Fernando Peixeiro 11 Junho 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Imagina alguém que tem uma vida tão miserável, mas tão miserável, que morrer é uma opção e nem será a pior. Vi esta semana 41 pessoas assim. Fracas, cansadas, debilitadas e resignadas. Sem futuro mas também já sem preocupações por isso, entregues ao destino. O destino é a Europa. A Europa ou a morte.
É todos os anos assim. Chega-se a esta altura e o mar fica mais calmo. Para os lados do continente africano preparam-se as pirogas e tudo o que se mantenha à tona de água. E pessoas sem nada, sem futuro e sem esperança, lançam-se ao mar à procura dessa esperança, prontos a morrer na tentativa de chegar à Europa.
Esta semana 41 homens, a maior parte muito novos, chegaram à Cidade da Praia, capital de Cabo Verde. Tinham partido no mês passado da Mauritânia e queriam alcançar as ilhas Canárias. Não conseguiram. Perdidos, sem comida e sem água, foram encontrados à deriva por um navio mercante.
Um deles ficou pelo caminho, chegou já cadáver a Cabo Verde. Os outros aguardam agora, aqui nas ilhas, o repatriamento. Que seja breve, deverão pensar, para que possam outra vez meter-se num barquito e tentar outra vez chegar à terra prometida.
Vi-os, caro amigo, e fez-me impressão. Pela juventude, quase meninos, e pelo ar resignado, perdido e triste. Fiquei a pensar como devem ser maus os seus dias, que não se importam de arriscar tudo, a vida, para chegar a qualquer sítio. Qualquer sítio menos o Mali, o Senegal, a Mauritânia, o Burkina-Faso ou a Gambia.
Desta vez tiveram sorte. Não regressam aos seus países em sacos de plástico. Mas quantos, jovens, homens e mulheres, não terão já morrido neste mar? Quantos dramas ficaram já por contar? Quantas famílias nunca mais vão ouvir falar dos seus filhos, que julgam na Europa e que estão afinal sepultados neste imenso cemitério de águas azuis?
Há um ano, mais ou menos, foi por estas bandas encontrado à deriva um bote cheio de emigrantes. Todos mortos. Empenharam tudo, arranjaram dinheiro não sei como para dar às redes de imigração ilegal, e foram morrer no mar. O mar que de vez em quando leva para as praias corpos de outros, e que quando está bem disposto os deixa chegar às Canárias, onde quase sempre estão as autoridades à espera. Para os mandar de volta para casa.
Pedi-te para imaginares alguém com uma vida assim tão miserável mas deixa lá. Eu já o tentei e não consegui.
Um abraço africano
Fernando Peixeiro



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