Um homem e os seus sonhos
1 comentário Publicado por Fernando Peixeiro 18 Janeiro 2008 em Cabo Verde.
Caro amigo
Hoje apetecia-me ficar por aqui. Escrever caro amigo e… sei lá… ir deitar-me no sofá a ver televisão ou mesmo ir para a cama porque é tarde quando me sento a esta secretária que tem vista para o mar mas só às vezes, porque de noite nunca lhe pus a vista em cima. Mas pronto, aqui estou a mandar-te mais este correio palerma, sem nada para te dizer. Ou queres que te fale de Amílcar Cabral?
Queres? Pois bem… falarei. No domingo faz 35 anos que o mataram e nesse dia, como é da praxe, vão depositar uma coroa de flores na estátua que lhe fizeram há uma década aqui na Praia. Representa tanto como depositar uma coroa de flores no túmulo de Camões em cada 10 de Junho, aí em Portugal. Aí ou aqui é um belo feriado e nada mais e por azar que calha a um domingo.
Ontem (hoje quando escrevo, ontem quando me estás a ler) fui lá dar uma vista de olhos à estátua, plantada ali na Várzea. Não está mal mas escolheram um descampado que está cheio de lixo para a colocarem. Sente-se um certo desconforto por isso já que bastava um jardim e umas flores à volta para honrarem bem melhor o “pai da Nação”.
Eu quero acreditar que a ideia era essa. Mas há 10 anos que o monumento está para ali meio abandonado e cá para mim só se lembram dele nos dias 20 de Janeiro. Ontem um jovem dormia descansadamente à sua sombra. Pelo menos já serve para alguma coisa nos outros dias.
Eu posso estar enganado mas tenho uma ligeira impressão que os cabo-verdianos não estão a dar a devida atenção a esse grande homem. Porque o foi, parece-me indiscutível. E digo “ligeira impressão” para que o Ricardo não me venha depois avisar que eu estou aqui estou a querer ser primeiro-ministro. Não fosse isso e dizia que tenho a certeza.
Mas olha… é que se perguntares a um jovem quem foi Amílcar Cabral ele responde que foi o “pai da Nação” e depois não sabe mais nada.
Esta semana, no princípio, passei pela casa onde o homem morou, no interior da ilha. Tem lá uma placa a assinalar que ali Amílcar Cabral passou parte da sua infância, mas pelo que vi qualquer dia a placa cai porque não tem mais onde se segurar, tal o estado miserável em que aquilo está. O governo também tem a intenção de fazer do local um museu. Mas pelo que percebi tem essa intenção há mais de 10 anos. Não sei se a casa aguenta outros 10.
Este é um país de intenções. Vou falar-te por estes dias de Amílcar Cabral. É uma forma de homenagear um homem que fisicamente era mais baixinho do que eu mas que na verdade foi um grande senhor. Agora não, hoje não. Mas tenho intenção de te falar. Do homem e dos seus sonhos.
É certo que a subida do preço do petróleo e as implicações que isso tem no nosso dia-a-dia é importante. É certo que os nossos políticos utilizam todas as engenharias financeiras e mais alguma para nos enganarem. E isso é importante. Mas daqui por mais 35 anos se calhar ninguém se está a lembrar disso. E se calhar ainda se depositam coroas de flores na estátua de Cabral, agora já no meio de um belo jardim florido. Ainda que o façam uma vez por ano ainda assim é alguma coisa. Porque se calhar os homens e os seus sonhos ainda são mais importantes. A não ser que descubram petróleo na Várzea.
Um abraço
Fernando Peixeiro


Pois é.
E ainda por cima o velho Amulcar deve torrar de calor, mesmo na condição metálica de estátua. Aquela casaca é que não está com nada. Acho, se não me falha a memória, nem o seu típico, era mesmo a sua imagem de marca, gorro Mandinga, a etnia da Guiné e toda a África Ocidental, que lhe sustentou a vitória contra os tugas. É que a ausência do gorro Mandinga de Cabral é assim como que querer fazer um monumento aos campinos ribatejanos sem o tradicional… como se chama? quico, gorro… verde e vermelho com a bolinha a servir de penduricalho.
Só que o gorro Mandinga é mais subtil, simples, mesmo que não lhe falta uma bolinha no topo.
Mais parecido com os campinos ribatejanos são os Balantas da Guiné-Bissau, quem não se recorda da imagem de Kumba Ialá, esse leão guineense de garras sempre por afiar.
Mas em tempos alguém me contou a razão para o facto de Cabral estão tão… agasalhado na estátua da Varzea, na Praia.
É que foi feita por chineses durante uma sua visita a Pequim. Provavelmente durante o Inverno chinês.
E, por mim, acho que é uma bela metáfora para o balanço chinês em África. Não percebem nada disto. Pagam tudo já feito.
É que, assim, num descampado, sem jardins nem nada à volta, os cabo-verdianos, pelo menos, permitem que o agasalhado-homem-estátua-Cabral apanhe a brisa que sopra da Gamboa. É pouco mas é o possível.