Um gigante de Fogo
Publicado por Fernando Peixeiro 3 Outubro 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Estou sentado, meio enterrado num mar de uma espécie de esferovite mas preta. Uma pedra passa por mim e eu desejo-lhe boa viagem. Não. Não estou bêbado, nem drogado, e tão pouco estou a sonhar. E isto faz sentido?
Estou sentado num imenso campo de jorra, o nome pelo qual aqui é conhecida a areia vulcânica. Aqui é a ilha do Fogo e o seu vulcão, por agora sossegadinho mas que há pouco mais de uma década andou a fazer das suas.
Por isso, como a gente gosta de provocar os gigantes quando eles estão a dormir, mas só quando estão a dormir de verdade, lá me atrevi a trepar-lhe espinha acima. Eu, o Pedro, um amigo de Lisboa que veio conhecer Cabo Verde, e o Salomão, que nunca saiu do Fogo e que sempre viveu em Chã das Caldeiras, a terrinha que fica no sopé do vulcão, ela mesma construída dentro de uma cratera. O Salomão sobe e desce pelas encostas do tal gigante a troco de 1.500 escudos (15 euros) e não com uma perna às costas mas às vezes, como contou, com turistas às costas, que desanimam a meio da jornada, porque o gigante está a dormir mas não está morto.
Eu, caro amigo, subi sozinho. Mas tão cedo não repito a proeza. Foram, para nós, mais de três horas de subida a pique, ao calor, e sempre rodeado de dezenas de moscas (elas sim, de boleia nas minhas costas).
O Pedro, mais afoito e preparado, lá ia à frente, todo satisfeito. O Salomão também, que quanto mais depressa o passeio acabasse mais depressa seguia para o seu trabalho, de construir uma estrada, que largou a meio para nos guiar.
E eu seguia-os de longe, arfando e fazendo paragens estratégicas para beber água. A meio do caminho estava já tão cansado que quando uma rajada de vento me levou o boné montanha abaixo gritei lá para cima: “no regresso passamos por aqui?”.
O Pedro pensou que eu queria desistir e achou que a nossa aventura ia morrer ali, a meio do caminho entre Chã das Caldeiras e o cume. Mas o Salomão resolveu o problema de uma penada. Ou se quiseres em três tempos. Desceu a correr (algo impensável para mim) e voltou no mesmo ritmo, com o boné na mão. E a partir daí deixou o Pedro seguir lá à frente e, com uma paciência de santo, foi aguentando os meus passinhos curtos disfarçando o seu aborrecimento como podia.
Depois do meio já não era o cansaço que me afligia. As minhas pernas é que se recusavam terminantemente a dar mais de 10 passos seguidos sem um merecido descanso, nem que fosse de meio minutinho.
Às 13:15 minutos (tínhamos saído às 10:00) chegámos. As nuvens lá em baixo, branquinhas, a cratera do outro lado e os seu vapores de enxofre. Vento e frio e uma vista linda de morrer, não fosse eu já ter morrido várias vezes para ali chegar.
Foram 15 minutos para saborear a vitória. Tínhamos andado a fazer cócegas às costas do bicho e íamos agora experimentar a barriga, descendo por um imenso campo de areia, que dá vontade de correr por ela até chegar a Chã das Caldeiras.
Subimos devagarinho, quase de gatas em certos locais, e descemos a correr, tropeçando, caindo muitas vezes e rindo outras tantas. Foi numa dessas quedas, meio enterrado na areia, que uma pedra passou por mim a rebolar encosta abaixo. Estava tão feliz de ter chegado lá acima, aos quase três mil metros, sem (me) ter rebentado pelo caminho, que até lhe desejei boa viagem.
E agora isto já te faz algum sentido para ti? Para mim pelo menos faz.
Um dorido abraço
Fernando Peixeiro



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