Um gesto bonito
Publicado por Fernando Peixeiro 17 Julho 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Enquanto em Lisboa se vive a ressaca das eleições autárquicas, enquanto Paulo Portas se recolhe para pensar (não tinha já andado a pensar uns tempos?) e o PSD se começa a esgatanhar para ver quem vai substituir Marques Mendes, pelas ilhas não acontece nada comparado com tais importâncias. A não ser que 137 pessoas numa piroga, mortas de fome, sejam importantes para alguém. Duvido!
É verdade caro amigo. Mais 137 pessoas, digo bem, pessoas, seres humanos… deram à costa aqui em Cabo Verde e é isso que te venho hoje contar. Eu sabia, desde que quinta-feira passada, que mais um grupo de aventureiros tinha perdido o norte à terra e que, em vez das tão desejadas ilhas Canárias, na Europa, tinham afinal vindo parar mais a sul, a Cabo Verde, também pobre e também África.
Na quinta-feira um navio, de nome Sotavento, localizou a piroga, a baloiçar calmamente nas ondas, mas quando se aproximou os tripulantes ligaram o motor e escapuliram-se. Foi dado o alarme porque, claro, tratava-se de mais um grupo de homens fugidos da miséria dos seus países africanos, na demanda da Europa ou da morte.
O barquito foi localizado de novo sábado, desta vez por iniciativa dos próprios tripulantes, que já se sentiam incapazes de continuar a lutar pelo seu destino.
E pronto, estão na ilha do Fogo mas hoje mesmo devem ser trazidos para Santiago, de onde, depois seguirão de volta à terra madrasta.
Desta vez são 137. A maior parte homens mas também cinco mulheres e uma criança, do Senegal, Gambia e Guiné Conakri.
Depois de 14 horríveis dias no mar chegaram ao Fogo, na sua maior parte, debilitados, desidratados, doentes. Foi ali que tiveram de tomar a imagino que difícil decisão de se entregar. E ali receberam os primeiros socorros e a população pobre, pobríssima, da ilha do Fogo, foi em romaria levar-lhes o que podia. Deu-lhe comida, conforto e roupas, um gesto que, por falta de adjectivos, qualifico com um que sendo simples me parece adequado: bonito.
Agora, hoje mesmo, começa outro regresso a casa, se calhar para uma terra onde, agora mesmo, alguém está a deitar abaixo uma árvore para construir uma nova piroga.
E pronto caro amigo, queria assim dar-te conta de que, enquanto Lisboa fervilha de coisas importantes, aqui não acontece nada que mereça que o mundo espreite sequer pelo cantinho do olho.
Não te importuno mais com estas coisinhas pequenas. Mas tomo a liberdade de, quando for ao Fogo, dar um abraço àquela gente também em teu nome.
Um abraço duplo
Fernando Peixeiro



Olá amigo Fernando, já recuperado? graças a Deus.
Chamo-lhe amigo,porque sou leitor assiduo do vosso blog e desenvolvi uma grande simpatia pelos vossos textos, que retratam aspectos e vivências, que muitas pessoas não vêm ou simplesmente fazem-se de cegos.
Gostaria de deixar aqui uma pergunta em relação a este artigo.E se Cabo Verde não existisse ali mesmo, nesta localizacao especifica, onde iria parar a piroga?
O mais certo seria no Brasil, pois normalmente é o que acontece aos nossos pescadores.E muito provavelmente mortos. Isto significa que até nisso Deus pensou quando decidiu colocar as nossas ilhas ali onde estão. Deus disse: coloco-vos aqui porque um dia há de chegar, em que os vossos irmãos virão, desnorteados, maltratados, famintos e doentes a espera dum auxilio vosso. Estejais-vos preparados!
Eu vejo as coisas até nesta perspectiva…
Fiquem bem, um abraço e continuem sempre com esta boa disposição.