Um furacão com sabor a deserto
Publicado por Fernando Peixeiro 5 Fevereiro 2008 em Cabo Verde.
Caro amigo
Sinto que qualquer dia me começam a nascer umas ervinhas na cabeça e não sei se já não tenho musgo nos pulmões. Nos pulmões e noutros sítios assim… mais húmidos, onde se um dia destes aparecerem uns cogumelos não me espanta. E mais. Quando espirro estou sempre à espera que me saia um furacão pela boca.
Sabias tu, por acaso, que o deserto do Sahara, em África, despeja em cada ano no Atlântico qualquer coisa como 300 milhões de toneladas de poeira, muita dela voando alegremente mar adentro, até chegar a Cabo Verde e depois seguindo, seguindo, até à América?
Pois é verdade. Dos 300 milhões pelo menos uns 15 milhões de toneladas chegam às Caraíbas e à floresta amazónica, segundo números de cientistas alemães que estão aqui na Praia a fazer um estudo sobre esses grãozinhos de pó, a tal “bruma seca”, da qual já aqui te falei.
Por estes dias, nesta véspera de Carnaval em que te escrevo, não se vê o sol. E não são nuvens que o tapam mas é sim o pó do deserto, que ainda que agora mais activo passa aqui todo o ano.
Por isso esses cientistas, um grupo de 40, escolheram esta época e estão aqui com vários contentores de equipamentos e um avião de pesquisa, para saber como todo este pó que não vemos mas que respiramos continuamente pode influenciar o clima e a vida no mar.
Dizem eles que esta poeira poderá ir fertilizar a Amazónia, sendo também provável que influencie a criação de plâncton e produza gases que podem levar à formação de nuvens.
Mas dizem mais estes senhores. Ainda que não esteja provado alguns defendem que o pó do Sahara pode influenciar a formação de furacões, os tais que depois se dirigem como loucos para os Estados Unidos e Caraíbas, onde de vez em quando fazem estragos de monta.
A tese sustenta-se no facto de esses brutamontes se formarem aqui, nestas águas sujeitas ao pó do deserto. E se sobre isso não há certezas os cientistas não têm duvida nenhuma de que este pó influencia toda a meteorologia no hemisfério norte.
Andreas Petzold, coordenador do trabalho de pesquisa a bordo do avião que os cientistas trouxeram, um Falcon 20 equipado para capturar partículas de poeira na atmosfera, garante que há um impacto no clima provocado pela “bruma seca”.
“Este pó tem uma grande influência no clima. Influencia em todo o Atlântico, incluindo os continentes americano e europeu”, garantiu-me ele placidamente, há poucos dias.
“Não sei se este pó é bom ou mau para a natureza, é um fenómeno natural, faz parte do sistema e influencia a meteorologia”, disse-me.
Lothar Schutz, outro cientista que aqui anda por estes dias, lembrou-me que o fenómeno não é recente e que os antigos navegadores já chamavam a esta zona “mar negro”, por ao passarem por ela não conseguirem ver a Estrela Polar.
Toda esta poeirada é prejudicial para a saúde? Não se sabe. Há quem se queixe de dores de cabeça, por exemplo alguns dos próprios cientistas, que aconselham as pessoas a tomarem mais banhos do que o que seria normal.
Eu ainda não dei por nada. Mas num ano que levo daqui nem quero imaginar a quantidade de pó que carrego comigo.
Olha, se esse é o preço que temos de pagar para que a Amazónia continue verde e na Europa chova no Inverno…
Os furacões é que não eram necessários. Mas também um furacãozito contra a América de vez em quando não lhes há-de fazer mal. Para eles se irem lembrando que também são simples gente como nós.
Um abraço e bom Carnaval
Fernando Peixeiro



Tem muita coisa nessa natureza nossa que ainda nem sonhamos em saber.