Um dia para não esquecer – viagem interrompida
1 comentário Publicado por Fernando Peixeiro 23 Setembro 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Já te falei da viagem de Edmundo Pedro a Cabo Verde, contei-te depois a visita ao Tarrafal, quero agora escrever-te sobre uma viagem que não chegou a ser, das “ovelhas negras” que há por toda a parte, de um puto ranhoso e do desespero de cinco homens, que tão fartos de tudo tanto se lhes faziam se corriam para a vida ou para a morte.
Era assim que Edmundo Pedro estava, desesperado, ao fim de sete anos de internamento compulsivo no “Campo da Morte Lenta”. Por isso, com o pai, se juntou a mais três presos, para tentarem a fuga, numa bela manhã, em que sabiam que na Ribeira da Barca estava um barco, que os poderia levar dali para longe.
Primeiro objectivo. Sair do campo. Dois saíram para ir rachar lenha. Outros dois saíram para ir carregar uma bateria. Faltava o quinto, o pai de Edmundo, que conseguiu ludibriar o guarda da entrada e lá foi ele, a coberto de uns “bidões de água”.
Sempre que saia um prisioneiro, conta Edmundo Pedro, os guardas marcavam um traço a giz num quadro. Só que, como em tudo na vida, aqui também havia os presos “amigos”, que tinham a confiança dos guardas, que andavam todo o dia por fora, enfim… os chamados “bufos”, para ser simpático.
A coisa foi bem feita. Os guardas foram rendidos e os que ocuparam o lugar não sabiam se aqueles quatro tracinhos diziam respeito a presos à séria ou aos outros, filhos de suas mães.
Já no monte que circunda o campo (o Tarrafal fica no sopé da serra da Malagueta, aqui na ilha de Santiago), Edmundo, o pai e outro preso nem queriam acreditar quando olharam para baixo: dois homens a fugir, perseguidos por outros dois, de capacete branco. Tinham sido descobertos porque os outros, em vez de se afastarem rapidamente, passaram junto de alguns dos filhos de sua mãe, que naturalmente não perderam a oportunidade de os denunciar junto dos amigos guardas.
Edmundo Pedro conta a história durante a sua visita ao antigo campo de concentração. Com gestos aponta o monte de onde desceram, em direcção ao mar, onde tinham visto um barco. Edmundo Pedro até tinha feito uma pistola de imitação mas primeiro tentaram comprar o barco. “Eu tinha feito um aranhão quando fugíamos e estava cheio de sangue e eles olharam para nós e não nos quiseram vender o barco”. Simples, caro amigo, se a coisa não vai a bem vai a mal. Roubaram o barco.
Tiveram azar, porque os tais guardas os viram e desistiram dos outros dois para os perseguirem a eles. Pensaram ainda assim que tinham sorte, porque os guardas não conseguiram atingi-los a tiro, e porque aparentemente não havia mais barco nenhum. Mas havia outro barco, que rapidamente veio no seu encalço, com os guardas e os tais cabo-verdianos, que tinham ficado sem o barquinho.
Mais remadores deu no que deu: “começamos a ver o outro barco cada vez mais perto e nós cada vez mais cansados”. Desesperados, os três homens remaram de novo para terra, quando o barco bateu numa rocha e se desfez em pedaços (bem feito para os cabo-verdianos). Ainda assim nadaram até à costa e encetaram uma corrida montanha acima, tentando despistar os guardas e remadores, apesar de já esgotados de tanto cansaço. “O meu pai estava arrumado, eu era o que ainda estava melhor”, garante Edmundo Pedro, explicando depois que ele mesmo se propôs encontrar um lugar para se esconderem, enquanto os outros descansavam um pouco.
E não é que encontrou? Uma bela gruta, quase invisível, camuflada, escura e fresca. Mas aquele não era o dia de sorte dos três homens. Quando iam a entrar para o esconderijo olharam para trás e viram um rapazinho, encarrapitado num monte, que os observava, em silêncio. Conta agora Edmundo Pedro que tiveram esperança ainda assim. Tudo isto se passou durante a manhã e só ao fim da tarde a cabecita do miúdo assomou à entrada da gruta. Atrás deles vinham os guardas da prisão.
Pela frente, Edmundo Pedro, o pai e os outros tiveram uma bela estada na “frigideira”, dois meses e 10 dias para o jovem, que saiu de lá com uma tuberculose.
Os outros dois, os tais que foram culpados por passarem perto dos filhos de suas mães, também foram apanhados mais tarde, um deles já na Praia, a fazer-se passar por soldado.
Não sei o seu destino, Edmundo não disse, mas presumo que foi também a frigideira. Os filhos de suas mães desconheço. Se calhar alguns ainda andam por aí. Se os encontrares dá-lhes um pontapé. Os cabo-verdianos tiveram o que mereciam, ficaram sem barco. E o puto se calhar ainda anda por aqui. Prometo que se o encontrar lhe dou um pontapé.
Um abraço
Fernando Peixeiro


A figura Edmundo Pedro deve ser mesmo muito invulgar…Imagino que estar com ele esses dias deve ter sido muito curioso!