Caro amigo

Edmundo aponta a tenda. Na fotografia podem ver-se duas filas de tendas num descampado, ar inocente, até agradável. “A minha era esta”. Indica a segunda. O Tarrafal era assim em 1936, quando ele e outros antifascistas inauguraram o campo de concentração. Tinham sido feitos apenas os muros à volta, o interior, as casas onde viveriam e morreriam, seria tarefa dos próprios presos.
Edmundo Pedro inaugurou o campo com o pai, que o acompanhou nos quase 10 anos de cativeiro. Grande família! Numa altura, contou-me Edmundo Pedro, chegou a estar a ser ouvido pela polícia, no Governo Civil de Lisboa, o pai a ser ouvido noutra sala, e a mãe noutra ainda. Crime comum: serem defensores da liberdade.
Mas neste dia que te quero falar, na semana passada, Edmundo entrou sozinho. Deverá por certo ter-se lembrado dessa outra entrada, em 1936, quando passou aqueles portões para ali ficar 10 anos. Dos 17, uma criança, aos 27. E Edmundo pareceu-me, por momentos, aquele jovem de outrora. Memória cheia, a transbordar de momentos que ali passou. Aqui a cama, ali a oficina onde trabalhava todo o dia com o seu amigo e mentor, Bento Gonçalves, antigo secretário-geral do PCP e que acabou por morrer no Tarrafal.
E tem ainda coragem para se rir com gosto quando lembra que eram os presos que iam despejar ao mar os bidões cheios de dejectos provenientes das casas de banho. “Tínhamos de entrar dentro de água para os despejar mas às vezes as ondas despejavam tudo para cima de nós”.
Memória mais triste a da “frigideira” de que já te falei. Era uma casa de cimento sem janelas, onde se sufocava e onde os presos eram mandados de castigo. Edmundo Pedro esteve lá 70 dias, em consequência de uma tentativa de fuga. Ali o pai, que o acompanhava, desesperado, tentou matar-se. Foi um guarda que viu sangue a correr por debaixo da porta e deu o alarme.
A “frigideira” já não existe. Quando o campo foi desactivado foi destruída e até os alicerces desfeitos, para esconder todos os vestígios. Mas Edmundo Pedro lembra-se perfeitamente do local onde passou 70 dias seguidos, um recorde, e onde nos primeiros três nem água tiveram. Quando lhes deram um balde de água tinham as línguas de tal modo inchadas que lhes enchiam a boca e não podiam beber. Com paciência foram molhando a boca e só três dias depois recuperaram.
Na cozinha lembra também uma conspiração de 140 presos, que se reuniram ali para preparar uma fuga. Já tinham armas e tudo, as estacas que tinham servido para prender as tendas de lona. Edmundo estava na zona das casas de banho, à coca, para avisar se chegasse um guarda. Quando viu um aproximar-se, despreocupadamente, deu o alerta. Mas não foi a tempo. “O guarda chegou aqui à porta, viu estes homens todos, e desatou a apitar. Vimos logo os guardas todos a correrem por aqui”.
Mais ao lado mostra aquilo que substituiu a frigideira, uma casota “de cão”, onde os presos que estavam de castigo eram encerrados, às escuras.
“Aqui havia uns ganchos, que era onde eles nos atavam para nos chicotear. Não estão cá os ganchos, não sei por que os tiraram”.
Cá fora, à sombra de uma acácia, aponta o posto de saúde, que era também casa mortuária. Especialmente casa mortuária. E depois olha de lado o pavilhão onde trabalhou com o antigo secretário-geral do PCP.
“Tenho uma recordação muito viva e trágica: foi a morte da minha grande referência ainda hoje, um grande amigo”.
Com lágrimas nos olhos recorda a tarde em que Bento Gonçalves descobriu sangue na urina e lhe disse: “Já tenho o passaporte para o outro mundo”. E recorda a agonia do amigo, o pedido que lhe fez para que “guardasse umas tábuas para ele”.
Assim fizeram. Os guardas bem que não queriam mas os presos desmantelaram mesas da cozinha e fizeram caixões. Para Bento Gonçalves e para outras vítimas. Só numa semana morreram sete.
“A morte era uma espécie de roleta russa. Às vezes chegava a pessoas aparentemente cheias de saúde”.
E Edmundo chorava. “É natural que se chore, via passar os anos, via morrer os meus companheiros. Chorava às escondidas, até do meu pai. Chorávamos por aqueles que se iam embora e até por nós”.
Na semana passada Edmundo Pedro não teve vergonha e chorou na frente de toda a gente. Talvez, como há 65 anos, tenha chorado por aqueles que se foram embora mas também por ele.

Um abraço

Fernando Peixeiro


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