Um dia para não esquecer - a primeira viagem
Publicado por Fernando Peixeiro 19 Setembro 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Há momentos na vida que nunca esquecemos mas também temos dias assim. Na semana passada um homem de 89 anos meteu-se num avião em Lisboa e veio aterrar aqui, na Cidade da Praia, para ir ao Tarrafal, o campo de concentração onde passou 10 anos. Acompanhei-o nesse dia, o tal que nunca mais me vou esquecer.
Edmundo Pedro, deves conhecer como político, foi durante muitos anos deputado, eleito pelo PS, mas foi a sua filiação no PCP, há mais de 70 anos, que lhe valeu as ditas férias, de 10 longos anos, no Tarrafal, esse.. “campo de férias” perto da praia com o mesmo nome, mandado construir pelo “grande português” que foi António de Oliveira Salazar.
Na semana passada a ministra da Cultura de Portugal, Isabel Pires de Lima, esteve três dias aqui na Praia, numa visita oficial, a convite do seu homólogo cabo-verdiano. Foi uma comitiva reduzida, até porque Pires de Lima era convidada de Manuel Veiga, que arcou com as despesas.
Mas Edmundo Pedro soube. E soube também que a ministra iria visitar o Tarrafal, hoje um local praticamente abandonado, sem um guia e sem explicações a não ser as que estão patentes num pequenino pavilhão de madeira, construído do lado de fora do campo, com algumas fotografias e dados sobre a cadeira.
E soube-o, confessou-me ele, encima da hora. Mas não perdeu tempo. Correu ao aeroporto e ao balcão da TAP comprou um bilhete de ida e volta para Cabo Verde. Ida no mesmo avião que a ministra e volta também na mesma altura.
A decisão custou-lhe cara. Mais de mil euros, saídos do seu bolso, porque o convite de Manuel Veiga não lhe era extensível, como também este homem não estava incluído na comitiva que se ia alojar no hotel, durante os três dias. E então? Alojou-se, claro, no mesmo lugar, pagou do seu bolso, e ainda teve, por azar, que suportar uma queda que lhe valeu uma ida ao hospital e dois pensos, um na cabeça e outro num braço.
Mas no dia da visita da ministra ao Tarrafal Edmundo Pedro lá estava para cumprir o seu objectivo, dito por ele: aproveitar a visita dos ministros, a portuguesa e o cabo-verdiano, para os sensibilizar para a necessidade de fazerem daquele local um museu a sério, um lugar de homenagem aos que lá morreram e também de confraternização e de amizade entre os países, nomeadamente os países que contribuíram com os seus homens para encher o campo de concentração.
Claro que Edmundo Pedro aproveitou também para visitar o Presidente da República de Cabo Verde, Pedro Pires, de quem é amigo de longa data e com quem trocou impressões sobre o futuro do campo. Pedro Pires, disse depois Edmundo Pedro, é também defensor de fazer no Tarrafal um museu e um espaço de amizade, podendo mesmo ser aproveitado um dos pavilhões do campo para construir um anfiteatro.
Mas foi a visita ao Tarrafal que o fez correr, que o fez desembolsar quase dois mil euros. “E eu não sou rico, tenho uma boa reforma mas não tenho mais nada”, lastimou-se este homem, ainda assim nunca arrependido.
E nem mesmo quando deu o tal trambolhão pelas escadas se foi abaixo. Podia ter morrido tal foi a queda. E isso seria a coisa mais absurda do mundo para um homem que suportou 10 anos de sacrifícios aqui ao lado, na prisão do Tarrafal, localidade de Chão Bom, outro nome que para o caso parece quase cínico.
Eu vou contar-te a visita de Edmundo Pedro, o tal dia que nunca esquecerei. Mas não hoje que esta carta vai longa. Levo-te apenas até à porta da antiga cadeia para presos políticos. O dia está de sol e Edmundo Pedro tem um boné para o proteger e que ao mesmo tempo tapa o “galo” do alto da cabeça. Lá dentro da cadeia estão os lugares e as recordações de uma juventude perdida, dos 17 aos 27 anos. Lá dentro da cabeça de Edmundo Pedro não sei… mas imagino.
Um abraço, com continuação
Fernando Peixeiro



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