Caro amigo

Há momentos na vida que nunca esquecemos mas também temos dias assim. Na semana passada um homem de 89 anos meteu-se num avião em Lisboa e veio aterrar aqui, na Cidade da Praia, para ir ao Tarrafal, o campo de concentração onde passou 10 anos. Acompanhei-o nesse dia, o tal que nunca mais me vou esquecer.
Edmundo Pedro, deves conhecer como político, foi durante muitos anos deputado, eleito pelo PS, mas foi a sua filiação no PCP, há mais de 70 anos, que lhe valeu as ditas férias, de 10 longos anos, no Tarrafal, esse.. “campo de férias” perto da praia com o mesmo nome, mandado construir pelo “grande português” que foi António de Oliveira Salazar.
Na semana passada a ministra da Cultura de Portugal, Isabel Pires de Lima, esteve três dias aqui na Praia, numa visita oficial, a convite do seu homólogo cabo-verdiano. Foi uma comitiva reduzida, até porque Pires de Lima era convidada de Manuel Veiga, que arcou com as despesas.
Mas Edmundo Pedro soube. E soube também que a ministra iria visitar o Tarrafal, hoje um local praticamente abandonado, sem um guia e sem explicações a não ser as que estão patentes num pequenino pavilhão de madeira, construído do lado de fora do campo, com algumas fotografias e dados sobre a cadeira.
E soube-o, confessou-me ele, encima da hora. Mas não perdeu tempo. Correu ao aeroporto e ao balcão da TAP comprou um bilhete de ida e volta para Cabo Verde. Ida no mesmo avião que a ministra e volta também na mesma altura.
A decisão custou-lhe cara. Mais de mil euros, saídos do seu bolso, porque o convite de Manuel Veiga não lhe era extensível, como também este homem não estava incluído na comitiva que se ia alojar no hotel, durante os três dias. E então? Alojou-se, claro, no mesmo lugar, pagou do seu bolso, e ainda teve, por azar, que suportar uma queda que lhe valeu uma ida ao hospital e dois pensos, um na cabeça e outro num braço.
Mas no dia da visita da ministra ao Tarrafal Edmundo Pedro lá estava para cumprir o seu objectivo, dito por ele: aproveitar a visita dos ministros, a portuguesa e o cabo-verdiano, para os sensibilizar para a necessidade de fazerem daquele local um museu a sério, um lugar de homenagem aos que lá morreram e também de confraternização e de amizade entre os países, nomeadamente os países que contribuíram com os seus homens para encher o campo de concentração.
Claro que Edmundo Pedro aproveitou também para visitar o Presidente da República de Cabo Verde, Pedro Pires, de quem é amigo de longa data e com quem trocou impressões sobre o futuro do campo. Pedro Pires, disse depois Edmundo Pedro, é também defensor de fazer no Tarrafal um museu e um espaço de amizade, podendo mesmo ser aproveitado um dos pavilhões do campo para construir um anfiteatro.
Mas foi a visita ao Tarrafal que o fez correr, que o fez desembolsar quase dois mil euros. “E eu não sou rico, tenho uma boa reforma mas não tenho mais nada”, lastimou-se este homem, ainda assim nunca arrependido.
E nem mesmo quando deu o tal trambolhão pelas escadas se foi abaixo. Podia ter morrido tal foi a queda. E isso seria a coisa mais absurda do mundo para um homem que suportou 10 anos de sacrifícios aqui ao lado, na prisão do Tarrafal, localidade de Chão Bom, outro nome que para o caso parece quase cínico.
Eu vou contar-te a visita de Edmundo Pedro, o tal dia que nunca esquecerei. Mas não hoje que esta carta vai longa. Levo-te apenas até à porta da antiga cadeia para presos políticos. O dia está de sol e Edmundo Pedro tem um boné para o proteger e que ao mesmo tempo tapa o “galo” do alto da cabeça. Lá dentro da cadeia estão os lugares e as recordações de uma juventude perdida, dos 17 aos 27 anos. Lá dentro da cabeça de Edmundo Pedro não sei… mas imagino.

Um abraço, com continuação

Fernando Peixeiro


0 Responses to “Um dia para não esquecer - a primeira viagem”

  1. No Comments

Leave a Reply





PARCEIROS