Um Deus das pequenas coisas
Publicado por Fernando Peixeiro 17 Fevereiro 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
É impressionante como, às vezes, as pequenas coisas, os pormenores, são tão importantes. São elas, eles, que podem fazer parar a economia de um país, provocar uma catástrofe. É quase como a teoria do caos. Não digo que o bater de asas de uma borboleta no Brasil provoque um tornado no Texas. Mas digo-te que o bater de uma porta em Cabo Verde pode parar as ilhas.
Há uns anos, aí em Lisboa, almoçava eu com amigos num restaurante perto da Gulbenkian. O empregado, sorridente, muito simpático, foi logo fazendo elogios ao prato do dia mas todos nós, azar, queríamos coisas simples, que estavam na lista, como omeletas de queijo, fiambre e presunto.
Nem se tinham passado dois minutos e já o empregado se chegava a nós, a informar que o fiambre se tinha acabado. Nada de grave. Ficaram as omeletas de queijo e presunto. Azar da Graça, que queria presunto, porque nem mais dois minutos se tinham passado e já lá estava o homem, ar pesaroso, a perguntar se não podia escolher outra coisa, porque na cozinha não conseguiam dar com o presunto.
Podíamos ter levado a coisa para o sério mas fizemos uma festa. No meio de tanto riso, ao qual o homem, desportivamente, se juntou, a Graça pediu uma tortilha e ele lá foi. E regressou com a mesma cara sorridente segundos depois, a fazer uma perguntinha simples: “vocês desculpem lá… como é que se faz uma tortilha?”. Primeiro olhamos uns para os outros, depois ela ainda tentou explicar, e depois caímos em gargalhadas incontroláveis. Comemos todos ovos mexidos com queijo. A um preço módico.
O filho da cozinheira ter amanhecido com febre naquele dia era um pormenor, uma pequena coisa, mas podia ser chato se em vez de um grupo que gostava de se rir estivesse um que gostasse de pedir o livro de reclamações.
Desde a semana passada que a luz está a faltar aqui com uma frequência fora do normal. E não é uma hora nem duas, é dias inteiros. E desta vez não é por excesso de consumo nem falta de gasóleo para os geradores. Ao que parece é só porque um dos técnicos que trabalhava para a empresa decidiu bater com a porta e se foi embora. E os outros parece que não percebem tanto do assunto e de vez em quando distraem-se e deixam que aconteçam uns curto-circuitos ou coisa assim.
O mesmo se passou aqui há uns tempos com os catamarans de uma empresa privada, que fazia a ligação rápida e organizada entre as ilhas. Os responsáveis por conduzir os barcos decidiram ir embora e as ilhas ficaram tão isoladas como estavam, com os catamarans, agora, há meses, encostados, porque ninguém sabe mexer naquilo.
Às vezes basta uma pequena coisa para emperrar tudo. Ou ser ainda pior. A Polícia Militar anda agora, aqui na Praia, a fazer rondas. Ontem andou de armas em punho contra a polícia de segurança pública porque se esqueceram de um pequeno detalhe: deviam ter-se sentado à mesa a conversar todos para evitar estas cenas tão pouco dignificantes.
Fazia falta aqui em Cabo Verde, caro amigo, como diria Pandit Garam, um Deus das pequenas coisas. Que olhasse pelas borboletas das ilhas.
Se o bater de asas de uma borboleta pode provocar um tornado, dias e dias sem água, sem luz, sem telefone muitas das vezes, sem ligações decentes entre as ilhas, e as polícias quase a disparar umas contra as outras, podem provocar outro bater de asas. De empresários, homens de negócios, investidores e turistas.
Um abraço
Fernando Peixeiro



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