Um casamento e 11 panelas - a festa
Publicado por Fernando Peixeiro 13 Julho 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Falei-te da cerimónia na igreja falta agora conheceres a festa. A casa pode ser pobre, erma, entre nuvens de pó e ondas de calor. Pode não ter electricidade nem água canalizada nem nada dessas modernices como frigorífico, televisão, ar condicionado ou fogão. A festa faz-se na rua e é de arromba.
Chega-se ao monte por uma estrada de terra, onde mal cabe um carro. Avanço com o jipe meia encosta e fico a pensar como é que o Mercedes descapotável onde viajam os noivos ali vai chegar. Quase tenho pena do carro, obrigado a galgar pedras soltas e terra, quando chego à festa e vejo, espantado, que com mais dois carros se acaba o parque de estacionamento.
A casa, pobre e pequena, fica nas faldas de uma serra, e à volta apenas a desolação típica da ilha de Santiago: pó, terra seca, sol inclemente e duas acácias desfolhadas, ou mortas ou à espera de alguma chuva para reviver. Uma fica ao lado da casa e outra a meio do caminho. Ambas desfalecidas, incapazes de dar uma sombra.
Na rua, no chão de terra, há horas que várias mulheres se afadigam à volta de 11 grandes panelas, cada uma com capacidade para 100 litros, colocadas por ali e com lume à volta. Carne de porco, carne de cabra, carne de galinha, feijoada, milho, cachupa (comida típica de Cabo Verde), bananas verdes cozidas, tudo ali no terreiro, pronto para satisfazer os muito mais que cem convidados que estiveram na igreja.
Mas desengana-te. Se na cerimónia estiveram uma centena na festa vão estar mais de meio milhar, porque aqui casamento que se preze tem de ter muita gente (de preferência mais do que o casamento anterior que se tenha realizado) e todos os vizinhos e amigos aparecem. De Praia Baixo, de Castelo Grande, de Ponta Achada, de todo o lado chegam, alguns a pé, outros de táxi, outros de boleia.
E esfomeados. Ainda os noivos não tinham chegado e já estavam abertas as hostilidades. Quem ficou ou quem chegou entretanto basta-lhe encher os pratos e circular por ali, prato e copo na mão, sentado num muro qualquer ou no pó do chão, equilibrando como pode uma garrafa de cerveja no chão morto e em declive, virado para o mar, que lá ao longe não deixa sequer a ilusão de uma brisa fresca.
Satisfeitos os apetites, desaparecidas as primeiras travessas de comida, numa empena da casa toca-se concertina, acompanhada pelo som de ferrinhos, o típico funaná de Cabo Verde. Os primeiros casais agarram-se, alguns mais desinibidos pelo grogue dançam um solo muito aplaudido.
Entretanto chegam os noivos e a sua comitiva, incluindo os bem vestidos damas e cavaleiros. Sempre de forma informal chegam-se às travessas. Não importa que metade da trupe já tenha comido, que já se dance pelas esquinas da casa, que haja moscas, calor e muito pó levantado pelos malabarismos dos carros que tentam aconchegar-se pela encosta.
O Mercedes acabou a ocupar o principal recinto do baile e os noivos desaparecem no interior da casa, exaustos. Ao lado mas ao sol mulheres lavam pratos em três grandes alguidares cheios de uma água duvidosa. Numa dispensa jaz metade de um porco, pendurado no tecto, e ao canto cervejas e sumos refrescam numa água que já cumpriu melhor a sua função.
Corre assim a tarde. Saciada e quente. Para mim chega, procuro em vão uma sombra, um sítio qualquer onde me possa sentar e ficar sossegadinho, a digerir o almoço e a sentir o torpor a chegar, sem pensar em nada, como as acácias, à espera que uma brisa me dê de novo vida.
E à tardinha não resisto mais. Meto-me no carro e “rastejo” até à Praia, para o fresco da minha casa. Na festa também os convidados não resistem mais. A concertina e os ferrinhos regressam e volta a dançar-se. À volta da casa mas também no telhado. Diz quem assistiu que se dançou a noite toda.
Outro festeiro abraço
Fernando Peixeiro



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