Um casamento e 11 panelas, a cerimónia
Publicado por Fernando Peixeiro 11 Julho 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Em Cabo Verde, tal como aí, as alcunhas são o “pão nosso de cada dia”. Se te disser que há pessoas, em Portugal, de quem não sei, nem nunca soube, o verdadeiro nome, acreditas. Se te disser que Codé-di-Dona, de quem há tempos te falei, é “nominho” (o mesmo que alcunha) também acreditas. E acreditas num casamento à torreira do sol, num descampado, à volta de 11 panelas de 100 litros cada uma?
Em termos religiosos, aqui, os casamentos seguem o padrão universal, ou melhor dizendo o padrão ocidental. Será talvez um pouco estranho contudo! Aqui, como sabes, faz sempre muito calor, seja Verão ou Inverno, pelo que para um “outsider” é quase bizarro ver um magote de gente à porta de uma igreja, de fato e gravata, de vestido branco comprido, de sapatos de verniz pretos ou sandálias de salto alto.
Mas é assim. Como em qualquer outro país as regras da instituição casamento seguem-se à risca, apesar do sofrimento de quase se sufocar de calor dentro de tanta roupa, especialmente os homens e a sua malfadada gravata.
Com uma particularidade: nos casamentos há um grupo de amigos e de amigas dos noivos que têm uma função especial e, por isso, se vestem ainda mais a rigor. Elas são as damas e eles os cavaleiros. De branco e roxo, com flores bordadas nos ombros, luvas brancas até aos cotovelos, malinha debaixo do braço, pulseiras e gargantilhas, elas. De calças pretas pregueadas e muito bem vincadas, camisa branca sem gravata e cinta roxa, anéis e pulseiras, por vezes fios ao pescoço, tudo em ouro legítimo, eles.
Formam o grupo de apoio aos noivos, uma espécie de guarda avançada. À entrada e à saída da igreja colocam-se frente-a-frente e erguem as mãos unindo-as no alto, fazendo assim uma espécie de túnel para os noivos passarem. São uma barreira humana para o casal, sendo que invariavelmente a noiva chora sempre muito e o noivo também não lhe fica mal deitar uma lagrimazita.
Não vou, caro amigo, falar-te dos pormenores da cerimónia, porque por certo já assististe a inúmeros momentos idênticos. Mas tenho de dizer-te que até nos casamentos em Cabo Verde se chega atrasado. E não estou a falar do usual atraso da noiva. Aqui chegam atrasados os noivos, os convidados e até o padre. No último que fui o padre apareceu meia hora depois do marcado. E já a cerimónia ia no fim ainda continuavam a chegar, calmamente porque faz muito calor, convidados aperaltados.
Em Cabo Verde, um pouco como no sul de Portugal, aparentemente nunca se tem pressa para nada, o que é bom, porque se evita o stress. É por isso que quando se acaba a cerimónia os noivos ficam por ali, à porta da igreja, a receber os intermináveis cumprimentos, ao sol, rodeados de amigos, até que os mais desesperados começam a debandar em busca de uma sombra. Por essa altura deve poder-se já estrelar um ovo na cabeça de cada um. E o carro dos noivos, um Mercedes descapotável – tem de ser um carro descapotável para que os noivos possam depois ir acenando para o povo – arde ali ao lado.
É o lado sério do casamento meu amigo. Não queria deixar de te falar dele para te abrir o apetite e amanhã te contar do lado lúdico, da festa e dos tais 11 panelões de comida. Já te tinha dito que em Cabo Verde se adora uma bela festa e o casamento é o melhor pretexto para fazer “A Festa”. Quem nunca foi a uma não sabe o que perde!
Um festeiro abraço
Fernando Peixeiro



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