Um byte louco, um vírus descompensado
Publicado por Fernando Peixeiro 19 Novembro 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Não sei como um pirata informático se parece, não sei como faz para ser pirata, não sei o que o move, não sei o que ganha com isso. Mas imagino-o feio e profundamente infeliz. Sem amigos, sem família, sem vida, sem objectivos. Quero-o de pele macilenta e olheiras. Quero-o frustrado, com insónias, com caspa e com mau hálito. Quero que o “nosso” seja assim.
Ainda ontem à noite, ao falar com uma amiga, ela me contou um caso que se passou há poucos dias aqui em Cabo Verde. Aqui, como já te disse, acontece com alguma frequência um homem ter, de forma mais ou menos pacífica, mais do que uma mulher. Disse mais ou menos. Porque às vezes a coisa é menos pacífica e acaba mal.
Imagina que o José (imagina o nome também que não faço ideia como se chamam as personagens e nem isso é importante para o caso) tinha duas mulheres, a Maria e a Ana. O José não é casado com nenhuma, provavelmente até terá outra, a legítima, de papel passado e casório na Igreja, que estará calmamente, no remanso do lar, alheia, por opção ou por desconhecimento, a todas estas manifestações de virilidade do seu homem.
O José, dizia eu, anda com a Maria uns dias e outros com a Ana. Elas sabem uma da outra mas lá vão convivendo com a coisa, embora não gostem muito deste estatuto. Ainda se uma delas fosse a legítima a coisa era mais fácil de levar, sempre lutavam em patamares diferentes, respeitavam-se, mas assim não, são as duas a “outra” e ter de competir assim é complicado.
Foi por isso que há dias a Maria, farta de ser mais uma “outra”, arregaçou as mangas e foi à luta. E que é que ela fez? Está-se mesmo a ver: encheu uma garrafa de gasolina, meteu-lhe uma mecha, acendeu-a, e foi a casa da rival.
Assim de “cocktail molotov” (não sei se com ácido sulfúrico também ou se só mesmo a gasolina) em riste, lá foi lavar a honra. Chegou a casa da outra, bateu à porta, gritou, esperneou, insultou, ameaçou. Um festival. A outra nada, lá de dentro fingindo-se de morta, nem truz nem bruz, que há momentos na vida de uma mulher que ficar de bico calado é melhor e faz menos estragos.
Estava a Maria nisto quando a mecha se consumiu. Já viste não é? A Maria ficou com queimaduras de terceiro grau em parte do corpo, foi hospitalizada e esteve a morrer. Não morreu a Maria mas ficou desfigurada e com um braço todo queimado, o que carregava a garrafita, que tinha como destino a casa da Ana, que parece que só ficou com a porta chamuscada e que ainda hoje está caladinha, embora aposte que se ri à socapa.
Pobre Maria! E agora até pode ser acusada de fogo posto, confecção e uso de artefacto proibido, desacatos na via pública, atentar contra o património alheio e até quem sabe calúnias, injúrias e tentativa de homicídio.
Pode ser, caro amigo, que o “nosso” pirata seja, um dia destes, atacado por um byte louco, por um vírus informático descompensado ou que, pura e simplesmente, lhe caia um monitor encima de um pé ou um portátil na cabeça. Ou melhor ainda, que um ditador africano o contrate. Tinha de te dizer isto.
Um vingativo abraço
Fernando Peixeiro



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