Três bons investimentos

Caro amigo,

sendo também eu um apreciador da sétima arte não posso deixar de te dizer com alguma tristeza que Cabo Verde não tem uma única sala, o que o torna, provavelmente no único país do mundo onde não há cinema.
É certo que estamos a falar de um país pequeno, disperso por dez ilhas no meio do Atlântico. Ao todo são sensivelmente 450 mil pessoas. A ilha mais povoada, com cerca de metade da população, é Santiago. E desses 200 e tal mil, mais de metade estão na capital, Cidade da Praia. A Praia teve em tempos uma sala de cinema, um edifício exteriormente muito bonito, a fazer lembrar o antigo Éden, dos Restauradores, em Lisboa. Eu diria mesmo que era uma cópia em ponto pequeno, importada do tempo da colonização. Hoje por ali está, abandonada, à espera que alguém se lembre de a revitalizar, provavelmente para outros propósitos. Se um dia destes passar lá e ver mais uma loja chinesa não me vou admirar.
No Mindelo também houve em tempos uma sala de cinema mas também essa fechou, julgo que há uns dois anos. Diz-se que os clubes de vídeo tiraram os espectadores das salas e que estas deixaram de ser rentáveis, um problema agravado pela insularidade, onde tudo o que chega às ilhas chega tarde e a preços muito mais elevados. Curiosamente, nem há na Praia grande quantidade de clubes de vídeo. É certo que há sempre alguém a vender filmes nas ruas, daquelas cópias manhosas, que ora se vêem bem na televisão lá de casa ora se perdem entre riscas, zumbidos e chuviscos.
Mas, também, devo dizer-te que o que se vende não é lá muito apetecível. Os tais filmes de porrada, de preferência com muitas artes marciais e efeitos especiais, mais uns filmes musicais e uns dramas dos anos 80 e 90. Não entendo. Como não entendo que a Praia não tenha uma única livraria digna desse nome. E não entendo porque sei, porque já vi, que a cultura é um bem muito apreciado em Cabo Verde, onde as pessoas se acotovelam e empurram para disputar um livro na feira anual.
Um país com tantos músicos que não tem discotecas, um país com tantos escritores que não tem livrarias. E um país sem cinema mas com um Ministério da Cultura.
Caro amigo, apetecia-me mas não vou dizer mal do Ministério. Mas volto a perguntar-te, pela quarta ou quinta vez: não tens por aí umas economias a mais? A cultura, em Cabo Verde, parece-me, definitivamente, um bom investimento.

Um pouco culto abraço

Fernando Peixeiro


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