Três bonequinhos de olhos esbugalhados
fechado Publicado por Fernando Peixeiro 23 Junho 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Falaste-me de novas regras divulgadas pelo Vaticano e lembrei-me de te falar de outras regras aqui, ou falta delas. Sabes que passei quase toda a semana a tentar ir à ilha do Maio, que fica a uma hora de barco daqui, e não me foi possível? Há barcos que vão quando calha, há barcos que vão e não voltam e há barcos que anunciam que vão e depois afinal… não vão.
Viajar aqui entre as ilhas de Cabo Verde é uma experiência fascinante para quem gosta de aventura, imprevisto e improviso. Aqui os aviões voam para o Maio mas, naturalmente, se de barco a viagem demora uma hora e é substancialmente mais agradável e barata, parece-me natural e até saudável que quisesse experimentar. Uma aventura, caro amigo.
Que começou há duas semanas, quando andei a procurar um barco que, nesta semana que agora finda, me levasse um dia ao Maio, aproveitando para conhecer a ilha e para a mostrar a uma amiga, de Lisboa, que esteve a passar uns dias na terra creoula mas “presa”, tal como eu, na ilha de Santiago.
Ora bem! Que sim senhor, que há um barco ao fim-de-semana, que sai de manhã e que regressa à noite, uma espécie de excursão à pequena ilha irmã mais nova, de praias com areia branca e a perder de vista.
Apetece, não apetece? Pois. Mas não encontrei o barco, por mais voltas que desse.
No final da semana passada, através de uma amiga que tem uma amiga que tem um tio que tem uma agência de viagens, pareceu-me finalmente ter Maio à vista. Consegui, vê lá tu, falar com o dono da tal agência que me disse que, verdadinha, fazia a viagem para o Maio e que aliás no dia seguinte teria mais uma.
Que não, disse eu, que só na próxima semana (esta), em qualquer dia. “Telefone-me segunda-feira que eu já lhe digo quando é a viagem”. Esta segunda-feira, pela tardinha, lá estava eu agarrado ao telefone mas o homem não me atendeu. Nem na terça. Nem na quarta. Na quinta falei com a minha amiga que tem uma amiga que tem o tio que tem a agência de viagens. A minha amiga ligou para a amiga que ligou para o tio. Bem… tentou… porque o tio também não lhe atendeu o telefone. “Se calhar anda para o Maio”, disse a amiga da minha amiga! Agora apetecia pôr aqui aquele bonequinho que aparece no MSN para animar as conversas, uma cara redondinha de olhos esbugalhados. Foi assim que eu me senti, um bonequinho de olhos esbugalhados.
Santiago tem perto, a uma hora de barco, três ilhas. Maio, Fogo e Brava. Hoje mesmo iniciei uma nova aventura: tentar perceber como ir ao Fogo. Parece que é fácil, disseram-me, mas os barcos é que não são muito certos. Outro bonequinho. E depois pode ir-se à Brava? Simmmm, claro! Mas às vezes o barco que te leva pode demorar uma semana a ir buscar-te. A Brava é mesmo ao lado do Fogo. Dois bonequinhos de olhos esbugalhados.
Não achas, tu que estás aí sem grandes perspectivas de ir ao Maio, ao Fogo ou à Brava, que já era tempo de haver uma carreira fluvial em condições e com regras que ligasse estas ilhas? Já pensei comprar pombos-correios, já pensei tornar-me reparador de cabos submarinos mas agora tenho outra ideia, esta sim fantástica e lucrativa. Não queres ser sócio de uma empresa de navegação?
Hummmm…. Não digas nada… já sei… três bonequinhos de olhos esbugalhados.
Um abraço de S. João, em Junho, claro!

