Toma lá uma caretta
Publicado por Fernando Peixeiro 24 Setembro 2008 em Cabo Verde.
Caro amigo
Esses pontinhos que vês na foto são tartarugas. Falei-te aqui várias vezes delas, se calhar demasiadas, de como as matam nestas ilhas quando chegam às praias para desovar. Falei-te de morte, hoje falo-te de vida. E mostro-te, ainda que a imagem não seja a melhor, que nem tudo é mau para o lado dos bichinhos de carapaça.
São as “caretta caretta” essas que vês aí. É certo que ainda vivem muitas, mas também é verdade que se uma tartaruga põe no mínimo meia centena de ovos não quer dizer, nem de longe, que daí saiam outras tantas tartarugas marinhas, que voltarão às costas de Cabo Verde daqui por 20 anos.
Por exemplo, as chuvas dos últimos dias terão matado algumas, ainda nos ovos, outras foram destruídas por cães, outras ainda por pura maldade e mais algumas por desleixo, incúria ou ignorância. Falo das que morrem esmagadas por aquelas motas de quatro rodas, que já se vão vendo, demasiado, pelas praias do Sal e da Boa Vista.
E depois ainda que muitas vão para o mar é baixa a percentagem das que atingem a idade adulta. São demasiado pequenas e o mar grande de mais.
Mas, caro amigo, devias de vê-las. Ainda assim é o mar que buscam mal conseguem sair da casca. Não sei se estão cegas, não sei se ouvem, mas sei que não se desviam por nada até as primeiras ondas as atingirem, as empurrarem para trás como se naquele mundo não tivessem cabimento. Podem perder por momentos o tino, podem dar cambalhotas, mas lá continuam, teimosas, mar dentro. Até as perderes de vista. Em direcção ao seu destino.
Do grupo que fotografei e filmei na semana passada provavelmente nenhuma escapou. Porque são muitos os predadores e elas tão frágeis e tão sozinhas. É que, ao contrário das crenças de muitos ainda por aqui, as mães e os pais não as esperam ao largo para as proteger debaixo das barbatanas.
Ainda assim fiquei muito contente por assistir àquele momento. Porque o destino assim se cumpriu. E é preciso que se cumpra com muitas centenas para que dessas centenas algumas dezenas voltem cá dentro de um quarto de século.
E, confesso-te, gosto de acreditar que alguma daquelas que vi, que toquei, esteja ainda aí, lá fora, algures neste mar, a fazer-se à vida. E que um dia regresse. Para cumprir o seu destino.
Um abraço
Fernando Peixeiro



Cá para mim, pela praia, e pelo tempo que já passou, acho que conheci a mãe dessas loucas que vão para aí rumo às ondas do mar.
Deste-lhes cumprimentos meus?
E tu, como estás?
Abraços aqui de Lisboa… e sempre com um arrozinho pronto para te receber para uma jantarada.