Tive uma caixa cheia de botões
1 comentário Publicado por Fernando Peixeiro 30 Julho 2008 em Cabo Verde.
Caro amigo
Sabes aquelas pessoas que ao fim de cinco minutos de conversa já não sabes como começou? Luísa Queirós é assim. Passei uma tarde com ela e não me importei nada.
Luísa tem uma cadeira de baloiço, um banco alto e uma varanda que dá para a baia do Mindelo, barcos de pescadores em frente e do lado esquerdo uma replica da torre de Belém com um ar abandonado. À tarde o sol entra a jorros janela dentro e vem mostrar como os quadros dela são coloridos. Coisa estranha! Quando o sol desaparece atrás da ilha de Santo Antão continuam as telas coloridas e se calhar ainda mais bonitas. Luísa é pintora. Desde que nasceu.
Passar uma tarde com esta mulher, portuguesa de nascimento e cabo-verdiana de coração, vai ser, seguramente, das recordações mais gratas que carregarei das ilhas quando um dia me for embora. Conversadora, contadora de histórias, Luísa encadeia assuntos com rapidez e ao fim da tarde tenho uma bela e invejável história de vida nas minhas mãos.
Conta-me da sua infância, da casa pequenina onde viveu no centro de Lisboa, do gosto que sempre teve pelos desenhos, pela pintura, de quando era ainda criança e a mãe lhe comprava livros de banda desenhada em segunda mão, ou quando era ela a faze-la, para outros, a troco de pequenas lembranças.
“Tive uma caixa cheia de botões, que os miúdos apanhavam nos carris do elevador da Bica e me davam em troco de desenhos”, recorda Luísa Queirós, como lembra os seus tempos na faculdade de Belas Artes, que começou às escondidas do pai, altura em que fazia jornais de parede de apoio a Humberto Delgado.
Luísa vive desde 1975 em Cabo Verde, porque casou com Manuel Figueira, outro pintor, cabo-verdiano, que conheceu nos tempos de estudos.
Já expôs em Portugal, Áustria, Bélgica ou Estados Unidos, Espanha ou França. Já deu aulas de desenho. Já fundou um centro de Artesanato no Mindelo. E hoje tem felizmente tempo para perder com um estranho que lhe entra casa dentro, se senta na sua cadeira e lhe pede que lhe conte histórias.
Inconformada ontem e hoje, não tem qualquer problema em criticar a falta de uma política cultural no país que adoptou e onde, em 2000, o Presidente da República a condecorou com a primeira classe da Medalha do Vulcão.
“Sempre lutámos e escrevemos nas paredes e distribuímos papéis. Na década de 60 as pessoas já andavam doentes com o fascismo”, recorda agora, sentada ela na cadeira de baloiço colorida.
Ali, no Mindelo, nas ilhas todas, podiam fazer-se coisas muito interessantes se “não fossem a estupidez dos políticos, as más intenções e as vinganças pessoais”. Não há no país um Museu da Cultura cabo-verdiana, como não há uma recolha do trabalho que se fez e faz, como não é fácil expor no estrangeiro, porque levar quadros a Lisboa “é um sarilho e trazê-los é um drama” correndo os pintores o risco de ainda pagarem no regresso, como se estivessem a fazer uma importação.
“De vez em quando há um cansaço de não conseguirmos fazer as coisas que são justas”. Luísa Queirós fica triste quando o diz. Mas diz também que no Mindelo encontrou a paz de que precisava, porque ali se vive muito na rua.
Talvez essa seja uma das razões que a levaram a escolher Cabo Verde, ali onde o sol se põe atrás de Santo Antão e as conversas dos pescadores entram, como ele já fizera, atelier dentro. Longe, muito longe, está Lisboa. “Tive uma caixa cheia de botões”.
Um abraço
Fernando Peixeiro


Foi bom ler sobre a Luisa Queirós. Vivi no Mindelo quase quatro anos e regressei a Portugal em 1999. Só nos últimos 3 meses de estadia tive contacto directo com a Luisa e o Manuel.
Esses 3 meses foram prenhes de encontros nessa sala com vista sobre a baía e o Monte Cara, onde me sentava na cadeira de baloiço e a ouvia desenrolar as suas estórias, onde me deixava enredar de imediato e era muito custoso cortar essas horas mágicas , descer as escadas de degraus difíceis e sair para a rua. Mas tudo na rua tinha as cores e os cheiros e as vozes que saiam das telas da Luisa e as memórias iam e vinham como as ondas pequeninas da baía.
Foi bom ler sobre a AMIGA que conheci no Mindelo.
Graça Lagrifa