Caro amigo
Escrevo-te três dias depois de ter havido, aqui em Cabo Verde, mudanças no governo. Foi na sexta-feira que o primeiro-ministro convocou os jornalistas para anunciar a saída de alguns ministros, de outros que mudaram de pasta, de caras novas, outras estratégias e outras ambições. Agora, dos 15 ministros que compõem o governo deste país, oito, a maioria, são mulheres.
É a primeira vez, caro amigo, que tal acontece em Cabo Verde. E admito que no mundo não haja assim muitos casos parecidos. Aí, por exemplo, quantas tens, em qualquer coisa como 16 ministérios? Duas! Saúde e Educação. E o Brasil por exemplo? Tem 23 Ministérios. Quantas mulheres? Acho que nem uma.
José Maria Neves, o primeiro-ministro aqui, sempre admitiu que as mulheres são assim tipo “a perdição” dele, e, não há dúvidas, está rodeado delas desde que formou governo, vai para 10 anos. E em lugares chave, como as Finanças, a Educação, a Defesa…
E que tens? Cabo Verde sempre a subir em tudo quanto é índice de desenvolvimento internacional, a ser graduado como país de rendimento médio, a entrar para a Organização Mundial do Comércio, a fazer um acordo histórico com a União Europeia, pela credibilidade e respeitabilidade que conseguiu até hoje. As mulheres cabo-verdianas têm, pois, metade desses louros.
Aqui, nessas coisas da equidade de géneros, neste país do continente mais miserável do mundo, os tempos mudaram.
E eu estou para aqui a falar de um assunto que não queria mas que agora não sei como dar a volta para falar do que tinha na cabeça para te dizer.
Fiquei assim como que preso no tempo, no tempo que muda, a apetecer-me apenas dizer-te que hoje choveu aqui na ilha de Santiago, o que aconteceu pela primeira vez este ano. Que eu me lembre choveu cá no início de Agosto do ano passado, depois uma noite em Setembro, e agora. Ontem, quando me leres.
Não penses que foi uma chuvada a sério, nem que choveu uma tarde inteira na ilha toda. Nada disso, que era fartura a mais. Passei ontem a tarde em Praia Baixo, nas festas da “Estrela do Mar”, que a vida não é só trabalho ou sequer perto, e lá não caiu nem um pingo. Quer dizer, pode ter caído um pingo ou outro, não vamos fazer finca-pé nisso. Mas no meu regresso à Praia, a meio do caminho, que bom foi ligar o limpa-vidros do carro e vir assim, de janelas abertas, a sentir o cheiro de terra molhada. Que bom é ver o céu escurinho, ter de ligar os médios quando ainda é dia, e na beira da estrada correr um fiozinho de água. Que bom esta temperatura agradável, os jovens a jogar futebol sem ser numa nuvem de pó e as marcas dos meus sapatos ficarem marcadas no chão, quando caminho para casa, sob o som de saibro molhado.
O que choveu não dá sequer para as sementes levantarem uma pálpebra. Não lavou as ruas empedradas e as folhas das acácias por certo continuam, quase todas, como ontem, cobertas pelo pó do deserto do Sahara. Mas foi um dia diferente, um tempo diferente.
E já que te estou a escrever no último dia do mês de Junho, porque amanhã é Julho, e Julho por aí não cheira a terra molhada mas sim a maresia, e porque tu estás de férias, venho propor-te que espacemos a nossa correspondência. Tu para aí com o cheiro a praia e eu, para aqui, seria bom, com o cheiro a terra molhada. Ou então eu para aqui com o cheiro a praia e tu para aí com o cheiro a terra queimada, que eu sei bem o que é que a casa gasta aí quando chega o Verão.
Por ele, por nós, pelo calor (do sol) e pela chuva, consoante a latitude, espero ler-te na quarta-feira.
Até lá, um abraço, com cheiro a praia.
Fernando Peixeiro

