Tchuva sabi
Publicado por Fernando Peixeiro 5 Julho 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Escrevo-te no dia em que atolei o jipe na lama, que não tive água para me lavar mas a varanda dava para um banho de imersão, que não fui a uma festa por estar doente e fui à praia apesar do calor. Coisas estranhas se estarão a passar por lá, pensarás tu.
Mas eu explico! Estranho, porque raro felizmente, foi uma pequena indisposição, resultado de alguma porcaria que comi. E o resultado foi o que estás a pensar.
Mas estranho mesmo, porque isso sim muito raro, é que ontem choveu quase todo o dia em Santiago. Não foi uma chuvada tropical, daquelas de 15 minutos que rebenta tudo, mas sim um belo dia de água abençoada, que deixou as folhas das acácias mais verdes, o ar mais puro e uma terra molhada como eu nunca tinha visto.
E ontem, caro amigo, deliciei-me, como uma criança, a chapinhar na água que se acumulou na minha varanda, deixei-me molhar como um pinto e troquei sorrisos de felicidade com pessoas que não conheço, que olhavam o céu e gritavam “tchuva sabi”.
É assim aqui quando chove, porque é coisa tão rara ver a terra molhada, a água a correr pelas ruas, fazer regatos, galgar montes ou ficar por ali encurralada. E ao fim da tarde, depois de uma volta pela cidade, tu percebes que não pode esta ser uma terra de chuvas, porque não está, nunca esteve, preparada para elas.
Na avenida principal, em frente mesmo à sede do governo, a água obriga os carros a marcha lenta, tal é o lençol que se acumulou. Dos lados da Achada Grande corre um ribeiro, que vem morrer na estrada que leva ao aeroporto, com pedras, lixo e terra. Na subida para o Palmarejo uma tampa de qualquer coisa colocada ao meio da rua salta e um repuxo de água é provavelmente uma das causas por que três carros morreram ali, a tentar vencer o empedrado.
A Praia transforma-se em poucas horas num imenso atoleiro e as ruas dos bairros da periferia em regatos de água castanha, onde flutua todo o tipo de lixo, que o pessoal deixa displicentemente por qualquer lado. E tudo aquilo vai, como deves imaginar, parar ao mar. Em poucas horas as ondas são castanhas para o lado da Gamboa, mesmo no centro da cidade, e diz quem sabe que se chover muito as praias ficam impraticáveis pelo menos três semanas.
Talvez por isso, hoje, um dia depois, levei os amigos que tenho cá de visita a uma praia distante, nem que para tal tivesse atascado o carro no meio da lama. Nada que não se resolvesse. E o sol, agora livre das eternas poeiras que submergem a ilha estava mais forte do que nunca. Por elas, pela ausência delas, agora descansadinhas no fundo do mar, vi como nunca tinha vista, a ilha do Maio ali mesmo em frente.
E vi o ar de consolo de toda esta gente, com as primeiras chuvas a prenunciarem um bom ano agrícola. Porque as ruas mal feitas, a lama à porta de casa, as estradas alagadas e o mar castanho são pormenores. O milho é que é importante. Tchuva sabi.
Um abraço
Fernando Peixeiro



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