Tardes de garagem, noites de alpendre
Publicado por Fernando Peixeiro 29 Novembro 2007 em Cabo Verde.
Caro amigo
Já almoçaste numa garagem? Jantaste num alpendre sentado num banquinho corrido? Numa cave? Somos mestres em Portugal em fazer casas todas bonitas, equipadas com o que de mais moderno há em electrodomésticos, sofás de pele, cadeiras almofadadas, mesas estilo um Luís qualquer, e depois criamos ao lado, um anexo, onde passamos a vida. Em Cabo Verde também é assim.
Falei-te no outro dia das semelhanças entre as duas culturas e queria hoje dizer-te que também em Cabo Verde se constrói uma casa, se recheia o interior com o que há de melhor, e depois aproveita-se a garagem para montar lá uma bancada, um fogão de um bico só e fazer dela a cozinha, sala de estar e sala de jantar, com televisão e tudo. A outra, grande, se calhar um plasma, está na sala, apagada.
Já vi aqui, em várias casas, duas televisões. Uma na sala, onde estão os sofás esmeradamente arrumadinhos com almofadas em bico, onde ninguém se senta, e outra num cubículo, no alpendre ou na garagem, onde as pessoas se sentam em bancos de pau para assistir, domingo à tarde, à repetição da novela que viram durante a semana.
Confesso-te que não estranho. Quantos portugueses não gastam todas as economias para construir a casa dos seus sonhos, na cozinha um combinado que nunca acumula gelo, um microondas que só lhe falta cantar o fado, uma placa de fogão sofisticada, um exaustor e tudo e tudo e tudo.
E depois? Depois não usam nada. Ao lado constroem um casinhoto, espetam lá um bico de gás, umas cadeiras e uma mesa ranhosa, uma televisão pequenina, e passam ali a vida, encolhidos. Não! Que a outra casa é para as visitas! Correm assim os anos, à espera da visita, do momento especial, e se calhar um dia descobrem que o microondas deixou de funcionar e o fogão enferrujou. Para as visitas? Mas que visitas? Tu és visita e quando lá vais a casa acabas a comer na tal mesinha. E até preferes, porque ali respira-se vida, alegria, convívio. É ali que está o melhor vinho, caseiro, o belo presunto, o pão, o cheiro a comida saborosa a ferver no biquinho do fogão miserável. A outra é boa para passar e dizer, “que bonita aparelhagem”, e depois sair dali rapidamente, porque se calhar não limpaste bem os sapatos e porque o frio e impessoalidade te deixam desconfortável.
Já dei por mim, aqui, a comer numa garagem que de garagem só tem nome, a comer num alpendre com uma mesa de plástico, com uma toalha também de plástico, feliz da vida por deixar lá do outro lado a grande mesa de mogno (acho) e as cadeiras estofadas, ainda com um restinho de plástico nos cantos.
E gostei, porque as mesas não fazem a boa comida e os lugares não fazem o bom ambiente.
E pronto. Confesso que me senti em casa. Se em vez da cachupa, do xerém ou do bode com inhame estivesse uma morcela frita, umas sardinhas assadas ou uns rojões seria uma mesa portuguesa, com certeza. Não é mas é como se fosse. O ambiente é igualzinho. Não fosse a telefonia pequena encavalitada num friso insistir em só passar coladeiras.
Um abraço
Fernando Peixeiro



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