Sinto-me tão confuso…

Caro amigo

Por aqui já é tarde quando escrevo isto e venho só deixar-te uma triste notícia. Tenho vivido contra a lei neste último ano e se as autoridades forem competentes serei preso a qualquer momento. Pelo menos por falcatrua, apoderamento de dinheiro de outros, falsificação de cheques, simulação de identidade e não sei que mais. Se não receberes notícias minhas nos próximos tempos manda-me um pacote de Lucky Strike para a cadeia central da Praia.
Foi ontem, precisamente quando fazia um ano que aqui cheguei, que o banco descobriu que eu ando a passar cheques indevidamente e se recusou a deixar mexer na conta, uma conta que, avisaram, está à responsabilidade de outra pessoa.
Eu explico. No ano passado, quando cheguei a Cabo Verde, vim substituir o Ricardo Bordalo, que já levava três anos de ilhas e já falava crioulo como se aqui sempre tivesse vivido, coisa que, eu, nem que aqui vivesse 20 anos.
Não te vou explicar o quanto fui bem recebido e integrado, isso pode até ficar para outro dia, se não for condenado a prisão perpétua. Digo-te sim que quando cheguei de Lisboa trazia comigo um documento da Lusa, uma procuração, tudo a rigor, para poder movimentar a conta da empresa, fazer pagamentos, depositar dinheiro, passar cheques, essas coisas. O Ricardo também teve de apresentar uma, quando cá chegou.
E os dois, um belo dia de Janeiro do ano passado, fomos ao BCN regularizar a coisa. Num instantinho ele apresentou a revogação da procuração e eu apresentei a nova, acabadinha de chegar de um cartório de Lisboa. Lembro-me que até brincamos com isso, de a partir daquele momento eu é que ter o dinheiro mas ele ser o delegado ainda mais dois ou três dias.
E pronto. Tudo correu bem neste ano. Desde sempre paguei as contas com cheques, anulei transferências permanentes, criei outras… o normal. E todos os meses, por esta altura, costumo passar um cheque ao Zé, que trabalha comigo, que vai assim ao banco levantar dinheiro para fazer os pagamentos de ordenados.
Até hoje. Porque hoje o homem foi enxovalhado no banco, o tal BCN, o mesmo de sempre, porque apareceu lá com um cheque de uma empresa e uma assinatura que não tinha nada, mas mesmo nada, a ver. E confrontaram-no com a verdadeira assinatura, a que devia vir no cheque se não se tratasse de uma falcatrua: a assinatura de Ricardo Bordalo.
O Zé esbracejou, protestou, disse que não, que o Ricardo já não estava em Cabo Verde vai para um ano. Telefonemas para aqui, faxes para acolá, e a confirmação da coisa: quem podia movimentar a conta da Lusa em Cabo Verde era apenas um senhor que deixou o país a 30 de Janeiro do ano passado e que por acaso vive, encantado, em Luanda.
O Zé, claro, não levantou o dinheiro. Lá fui depois eu esbracejar, protestar, artilhado com a bendita procuração, mais cópia da revogação da que tinha o Ricardo, mais bilhete de identidade, passaporte e tudo quanto pudesse ser documento que me provasse que eu não sonhei e que vivo há um ano, de facto, aqui.
E sabes o melhor? O senhor que me atendeu abriu uma gavetinha e mesmo por cima de um monte de papéis estava uma cópia da tal procuração. A outra, a do Ricardo, pelos vistos ainda andará por ali. Neste momento a minha segurança depende de qual delas um funcionário agarra primeiro. Se for a dele arrisco-me a ser preso, acusado de falsificar cheques e estar a usar identidade falsa.
Estou confuso, caro amigo. Serei mesmo eu que estou cá? Ou será o Ricardo? A Carla, que trabalha comigo há um ano, passa, de facto, a vida a chamar-me Ricardo!! E se for tudo um sonho? Se eu nunca vivi aqui? Se este mosquito que anda aqui a chatear-me não existir?

Um abraço
Fernando Peixeiro… ou Ricardo Bordalo… ou o mosquito, sei lá eu…


5 Responses to “Sinto-me tão confuso…”

  1. 1 Guinevere

    E na realidade tu serás tu ou serás ele? Será que nunca existiu um Fernando Peixeiro? Será que Fernando Peixero e Ricardo Bordalo são as duas faces de uma mesma e única pessoa? Terás dupla personalidade?
    Bem, seja como for, além dos cigarritos também te mando um isqueiro para os acenderes e um bolinho, bem como a necessária faca, um garfito, prato e papel de cozinha. Não quero que te falte nada Fernando Bordalo. Ou será Ricardo Peixeiro?

  2. 2 ricardo

    Hummmm… bem, antes de mais as minhas mais rebuscadas desculpas e humildes subserviências à “tua”, mas “muito dela” Guinevere. Mas vou escrever um palavrão, alias nem entendo a vida sem eles: Foda-se.
    Sei que os alentejanos são tipos de humor sólido, por vezes rebuscado, amiúde sorrateiro, aqui e ali, repleto de subtilezas, mas, como tonta criatura das berças que sou, e só por isso, nunca tinha dado por esse donativo dos céus. O humor. Larguei umas contidas gargalhadas.
    Cum caralho(foda-se, larguei outro palavrão!), mas essa merda é de risos. Mas, camba Peixeiro, estarás lembrado que eu te disse uma vez que a sublime, idiossincrática, magia, a omnisciente graça desse país eram os oxímoros?! Pois é, ou seja, traduzindo, a porra, os grandes imbróglios surgem quando as coisas funcionam!!?? Estás recordado? Estarás, na certa. Ora que be,o exemplo para aquilo que te disse um dia.
    Mas deixa-me antes dizer outra coisa. Quando estava em Cabo Verde dizia à boca cheia que morria de saudades da Guiné. Verdade, ainda hoje acintece. Mas, de Cabo Verde, porra, que falta me fazem essas gentes, como eu gracejo sozinho com as maluqueiras da Jacky, com a tremenda bondade da Paula, com a meiga companhia da Carla, com o bem estar do Jean, do Houss, do Tcheka, da Any, da Lena, do Orlando(esse cara de cu!), as maluqueiras do putativo correspondente do Novo JOrnal de Luanda(ele sabe de quem falo…), de tantas gente boa que me faltam, caralho! Todos os outros perceberão que a ausência não discrimina, enfatiza!
    Mas, ó Peixeiro, tu só tens que dizer à Carla uma coisa simples. Ou a criatura atina ou é despedida. E mais nada! (gosto tanto da carlinha, foda-se).
    E, se por acaso fores para a pildra, tanto melhor… já viste a quantidade de prosas que podes produzir a partir do cárcere. Seria algo do género: Crónicas da Pildra.
    Bom, para terminar que os gins tónicos que acabei de mamar na festa de lançamento do Novo Jornal estão no fim do processo de destilação e ainda me arrependo de tudo o que escrevi, deixa que te diga que a única vantagem de toda essa merda, é que o mosquito é uma alegoria. Olha, junta tudo e vais perceber que Cabo Verde é, no conjunto, uma tremenda alegoria.
    Uma fantástica alegoria.
    Mantenhas, mano… estamos juntos.

  3. 3 Guinevere

    Bem… finalmente percebi quem é o tal Ricardo que também comenta esta correspondência…
    Ricardo: talvez um dia, quando esta merda (Upss!!! disse um palavrãozinho)desta correspondência for publicada (que com toda a certeza o será), os nossos brilhantes comentários (que é o que vale realmente a pena ler aqui) apareçam à luz do dia.
    Até lá fica a questão: não será o mundo inteiro uma gigantesca alegoria? Uma representação? E a vida uma enorme ilusão?
    (bem… tou inspirada… acho que tenho de ir descansar um bocado).
    Fiquem bem caríssimos.

  4. 4 ricardo

    Ó Guinevere, se o mundo fosse uma ilusão tu não estarias a contar os dias no calendário para a chegada do moço a casa. Não, nem a tua contagem nem o regresso são ilusões, muito menos alegorias, agora o calendário sim… é uma alegoria, uma vã tentativa gregoriana para dar sentido à vida terrena em momento de titubeações sobre o etéreo.
    Mas se tiveres razão, somos todos uns actores a tresandar a medo num teatro mal frequentado e de uma tremenda má qualidade.
    A sorte é que não há guião para seguir e, aqui e ali, se pode improvisar um chibito. Alguns destes momentos compartimentam o sentido da vida. Tudo o resto, é como ir ao supermercado. Há tanta coisa que ficas com a errada impressão de que podes escolher. Essa a alegoria.
    Mantenhas

  5. 5 Guinevere

    lololol… aqui está a prova Ricardo. O mundo pode não ser uma ilusão… mas vive-se muitas vezes de ilusões e na ilusão. Sem que isso seja obrigatoriamente mau.
    Muito do que leste é uma ilusão - são estórias, com alguma história e muita ilusão. Não conto dias e deixei de usar relógio há muitos anos.
    Como diz o outro senhor… “o tempo é a nossa invenção”.
    Que somos todos uns actores… disso já tenho poucas dúvidas. Uns melhores que outros. Mas somos. Escondemo-nos muitas vezes atrás de nós próprios por medos de nos darmos (mal)e no fim, muitas vezes, acabamos por nos dar (ainda pior).
    Quanto às escolhas… muita vezes não escolhemos achando que estamos a escolher.
    Fica bem.

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