Sinto-me o Rantamplam

Caro amigo

À distância de três horas e meia e eis que estou noutro mundo. E é deste mundo que desejo um bom Natal. Nunca tive oportunidade de o fazer assim. Também com tudo o que ele acarreta nem deves ter muito tempo para ler cartas e por isso te proponho: neste Natal vamos deixar as conversas, as memórias e as ideias a descansarem à lareira. Dia sim, dia não. Voltamos ao normal lá para dia 07 de Janeiro.
Mas antes queria deixar-te duas ou três impressões, três mais precisamente, agora que estou de regresso por alguns dias a Portugal.
A primeira é quase recorrente. É bom perceber que afinal ainda se constroem automóveis com pisca. É vê-los em qualquer esquina de Lisboa, em qualquer rua, em qualquer estrada secundária de qualquer pequena povoação deste país. As pessoas encostam em segunda fila para ir comprar um jornal e tu percebes que o carro vai parar porque se liga o pisca. Percebes que o condutor da frente vai virar à esquerda, que está parado à espera de alguém porque está com os quatro piscas ligados, ou que, mesmo estando tu muito ao longe ainda, aquele carro vai para Santo André e não para Sines.
E isso é importante? Perguntas tu. A mim parece-me que sim. Gosto sempre de saber se o carro da frente vai para Santo André ou para Sines, sem ter de me preocupar com uma paragem brusca e sem sinalização porque o condutor afinal não vai para lado nenhum e se lembrou de ir fazer xixi contra uma árvore.
E depois aqui quem precisa disso? Em menos de 90 minutos eu percorro, como hoje, 140 quilómetros. Nesse espaço há… deixa-me ver… cinco casas de banho. Lá preciso de duas horas, no mínimo, para fazer 70 quilómetros. Quantas árvores serão necessárias? É só fazer as contas.
Depois, neste primeiro dia de regresso a casa, o frio. Em Cabo Verde nunca faz este frio. E pensar eu que ainda ontem passei três horas na praia! Agora a ideia quase me arrepia. E tenho já os lábios doridos, com cieiro, apesar de a lareira ser hoje a minha mais fiel companheira.
Aqui as pessoas parecem-me mais tristes, mais cansadas e mais velhas também. Em Cabo Verde é impossível estares tanto tempo num restaurante, a ver assim gente a passar na rua e não dares nem por uma criança, nem um jovem, só caras de meia-idade, ataviadas de roupas escuras e quentes.
Cabo Verde é dos países mais jovens do mundo e Portugal, parece-me, está do outro lado. Cabo Verde tem calor o ano todo, Portugal tem frio agora, daqueles que te gela o ossos (ou o cérebro, como diria uma amiga minha) e isso torna as pessoas tristes, sorumbáticas e com um ar meio adoentado. Eu próprio, em menos de 24 horas, caro amigo, sinto-me o Rantamplam, o cão do Lucky Luke, sempre com um pingo no nariz. E confesso-te que não só no pingo do nariz. O frio está a embotar-me os neurónios. Devem ter-se recolhido todos para algum lugar mais quente. Ao menos aqui fabricam-se carros com piscas e isso conforta-me. É nesse conforto, ajudado pela lareira, que de deixo os votos de bom Natal. E estendo-o também àqueles que de vez em quando nos vão espreitando. E mais do que um bom Natal um bom 2008. Porque o Natal é quando um homem quiser mas o ano 2008 começa para a semana, quer queiras quer não. E dura tantos dias quantos aqueles que eu vou demorar a escrever-te uma carta idêntica a esta. Quer queiras quer não.

Um FELIZ NATAL, UM GRANDE 2008

Fernando Peixeiro