Saudades de Cabo Verde
Publicado por Fernando Peixeiro 21 Dezembro 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Imaginas como é um país onde se pode ir à praia todo o ano? Passar o dia de Natal a dar mergulhos ou fazer a passagem de ano na praia? Em fato de banho? Aqui em Cabo Verde é assim. É certo que a vida é difícil, que o Albertino está há um quarto de século à espera de uma operação, mas é bom este calor quando a Europa treme de frio.
A melhor altura para se ir à praia aqui na Praia (é propositado, não estou distraído) é de manhã. Primeiro porque o malfadado vento é capaz de estar calminho de manhã mas à tarde gosta de mostrar quem é que manda. Depois porque há menos gente, menos confusão. Muitos cabo-verdianos gostam de ir à praia muito cedo, ainda há poucos dias, eram sete e meia da manhã, e dezenas de cabecinhas saíam das águas do mar da Prainha quando eu passava de carro para um serviço. Por regra, os que se levantam cedo para ir correr acabam o exercício físico com um mergulho nas águas, que de noite e de dia são sempre quentes.
O início da manhã, propriamente dita, é para os estrangeiros que gostam de se levantar cedo e para as famílias. Só por volta da hora de almoço começa a chegar a “cavalaria pesada”, a malta, o pessoal, que dorme até às tantas e depois vai até à praia, porque em abono da verdade em tempo de férias pouco mais há para fazer.
Eu estou no meio-termo. Cheguei à areia de Quebra Canela pelas 11, estendi a toalha e fiquei ali sentado, a ler uma revista do Expresso com dois meses. Praia quase vazia, meia dúzia de pessoas ao fundo, junto das rochas, e mais duas do outro lado. Eu no meio. Um pai com o filho desce do lado oposto, atravessa a praia toda, e estaciona a um metro de mim. O puto despe-se, o pai põe-lhe protector e em de forma carinhosa acaba com uma reprimenda: “o meu pretinho que tem a mania que é branco… passa tanto tempo na casa de banho”. Não me deram tempo para perceber porque em menos de um minuto já estavam os dois dentro de água, despreocupados, porque ali estava eu para cuidar das suas coisas.
É sempre assim. Há sempre alguém que gosta de deixar as coisas ao pé de um “turista”, pela má fama que as praias têm, de que se alguém se descuida lá desaparece tudo. E não há notícias de casos de turistas larápios. É por isso que ali estava eu, a guardar ciosamente as roupas, telemóvel, protector e tudo o mais. Ninguém me pediu nada, nem falámos sequer, mas… que diabo… um homem não atravessa a praia toda em vão.
A hora de almoço leva as pessoas para a sombra, para casa, e a praia fica quase vazia. Os mais afoitos ainda ficam até pelas duas da tarde mas depois, até a chegada dos estudantes, a calma do mar é igual à calma da areia.
A um canto, perto das rochas, um casal de meia idade dá nas vistas às três da tarde. Muito brancos e gordinhos, é impossível não os ver. Do outro lado cinco ou seis homens conversam sentados ao lado de um barco que acabou de chegar da pesca, passa pela praia outro, carregado de… presumo… peixe. Pequenos grupos de jovens rebolam-se pela areia, tomam banho ou simplesmente correm à volta de uma bola. Eu sou o único da praia sentado numa toalha.
E mais à tardinha, quando as aulas acabaram para os que ainda as têm, grupos de miúdos novinhos chegam ainda de uniforme e livros. Os rapazes são os primeiros a despir-se e a correrem para a água, mesmo em roupa interior. A praia fica uma algazarra. Dão-se saltos mortais, corre-se, fazem-se círculos na areia apoiando-se num calcanhar e girando o outro, brinca-se na beira da água, atira-se areia molhada, grita-se quando se mergulha, benze-se quando se vai entrar no mar.
Depois, quando chega a hora de partir, as calças vestem-se mesmo à beirinha da água, por cima da roupa interior a pingar, porque até casa tudo já estará seco. Mais pequenos grupos vão chegando, mais velhos, mais calmos, a mesma vontade de mergulhar nas águas agora limpas de Quebra Canela.
Quando me levanto, quando sacudo a toalha, deixo para trás, no máximo, 20 pessoas, apesar do calor, da água quente e de muita gente estar já de férias. É Inverno, e no Inverno poucos gostam de ir à praia.
Levo comigo a única toalha da praia de Quebra Canela nesta quinta-feira. Ao fundo continua a dar nas vistas o casal de gordinhos muito brancos, a meio um grupo de jovens faz uma roda sentados na areia, três ou quatro outros tomam banho e um casal de namorados está simplesmente sentado a ver o mar. Quando olho para trás fico com a sensação que nos próximos dias, quando estiver aí, na tal Europa que treme, vou ter saudades de Cabo Verde.
Um abraço
Fernando Peixeiro



0 Responses to “Saudades de Cabo Verde”
Please Wait
Leave a Reply