Santa Mónica, por enquanto
Publicado por Fernando Peixeiro 4 Abril 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
A praia de Santa Mónica é das mais bonitas que já vi. Quilómetros de areia branca, imaculada, sem pessoas e sem casas, mar azul claro e água tépida. Tão bom que em poucos anos alguém a vai destruir. Fixa o que eu te estou a dizer.
E digo por uma razão simples. A ilha da Boavista, aqui em Cabo Verde, está a sofrer uma fúria construtiva que não é comparada a nada.
Durante o dia, à beira mar, num café, num quarto de hotel, o som dos martelos e das betoneiras sobrepõe-se ao das ondas. Mais desagradável só mesmo as florestas de gruas que estão a nascer por todo o lado.
E fazem-se coisas assim: ontem tentei ir a uma das praias que dizem ser das mais bonitas, a praia de Chaves. E fui. Mas acreditas que o acesso à praia estava vedado por um condomínio enorme, construído no areal? Praia só para os clientes, os outros, nós todos, tinham um caminho ao lado, pela areia, com a singela indicação “praia de mar”, que nem o jipe que conduzia, com tracção às quatro rodas, conseguiu vencer. Claro que, como aliás todo a gente devia fazer, entrei por ali dentro, passei ao lado dos “bifes” tostados e todos de idade algo avançada, e desfrutei do mar e da areia até estar cansado. Eu e os amigos com quem ia. Ninguém se atreveu a dizer nada.
Mas há outros abusos. Como o das ementas nos restaurantes estarem só em italiano, por exemplo.
“Estou farto destes italianos”, desabafava ontem um outro empresário turístico. De origem belga. Parece-me, pelo menos pelo que vi, que cabo-verdianos no ramo só os que atendem nas recepções, os que trabalham à volta das tais gruas e martelos. À volta das mesas de jantar, a ter de ouvir música italiana dos anos 60, enquanto servem, imagina, comida italiana e bebidas italianas.
Que ganham então os cabo-verdianos? Empregos, claro. Mas e toda aquela gente que vi, sentada pelas sombras, em aldeias como João Galego, Fundo das Figueiras ou Cabeço dos Tavares? Estarão por certo à espera dos hotéis de Santa Mónica, ou de mais um grande complexo turístico megalómano para os lados de Curral Velho. Onde tudo chega de Itália, ou de Espanha. Tudo incluindo os bons empregos.
E digo-te, caro amigo, que é pena. A ilha é muito bonita mesmo, as praias são uma delícia, porventura as melhores de Cabo Verde.
Já te falei aqui daquele caso de um restaurante no Sal onde cabo-verdiano era descriminado. Espero que não estejam a fazer da Boavista outro Sal. Os cabo-verdianos não merecem.
Um abraço
Fernando Peixeiro



0 Responses to “Santa Mónica, por enquanto”
Please Wait
Leave a Reply