Caro amigo

Falei-te do meu gosto pela Praia (com maiúscula, embora a outra, em letra pequena, também me agrade) e por Cabo Verde em geral, mas venho hoje admitir que na origem dessa simpatia está também o nós, portugueses, nos sentirmos aqui em casa. Pela língua primeiro, mas depois por tantos e tantos gestos, sinais, pormenores, gostos, cheiros, sabores, rituais e sensações, que nos remetem para a cultura “tuga”.
É simples. Basta visitares alguém, ires a casa de um cabo-verdiano, típico, nascido e criado em qualquer parte da ilha, que nunca emigrou, que nunca esteve no Alentejo, em Trás-os-Montes, em Lisboa ou nas Beiras, para sentires que podias estar em Portugal.
Fixo-me, hoje, num pormenor. Portugueses e cabo-verdianos partilham o mesmo gosto por colocar “naperons” em todo o lado, especialmente encima da televisão. A coisa sempre me pareceu estranha (apesar de, não nego, me ser muito familiar) e quase absurda, mas comecei a vê-la com outros olhos, mesmo a apreciá-la, depois de ter estado em algumas casas de respeitosos timorenses ou indonésios, onde um belo “naperon” de plástico, branco-sujo, é tão imprescindível como uma televisão ou uma mesa para comer.
É certo que a palavra nem sequer existe nos nossos dicionários mas toda a gente tem ou já teve um “naperon”. Só que, atenção, nós, portugueses, cabo-verdianos, somo muito mais requintados do que os asiáticos! Ninguém mete um pedaço de plástico a imitar renda, que se suja e se vai partindo, sobre uma televisão ou na mesa da cozinha. Não! Nunca! Os nossos “naperons” são de renda, fina, branca, feita à mão (toda a renda é feita à mão?), que se lava quando fica suja, que dá um ar mais humano, mais acolhedor, mais aconchegante, àquela caixa quadrada para a qual passamos a vida a olhar. Quando posto numa televisão o “naperon” obriga-te a olhar além das imagens, obriga-te a ver a televisão como um todo, como um objecto de decoração. E se a renda tiver uns cadilhos, e se eles descaírem um pouco para o ecrã, um nadinha, sem impedir a visão da imagem e sem estorvar nada, porque as legendas aparecem na parte de baixo, a coisa ainda fica mais requintada.
E se em vez de uma televisão for o monitor de um computador? Um “naperon” de renda branca dá logo um ar menos frio à máquina, serve para atrair as moscas (pousam sempre no “naperon” e não na caixa do monitor), distrai-te o olhar de superfícies lisas e plásticas do monitor, e torna mais puros os teus pensamentos, quando te dá para abrir certas páginas na Internet ou lá vais parar sem querer (embora seja discutível que alguém vá parar sem querer a essas páginas de que estou a falar e que, julgo, adivinhaste quais são).
Mas… e se o monitor for um daqueles modernos, como aliás também já as televisões, que não têm mais de dois dedos de espessura? Não há problema. Desde que o material seja da mais pura linha e feito com esmero e perfeição. Já os vi aqui, a cobrir o belo e sofisticado monitor, mas confesso que me deram pena. Como não têm base de apoio ficam murchos, descaídos, a tapar parte do ecrã. E depois, o que é pior, não se pode por uma jarrinha com flores (naturais melhor mas se forem de plástico não ficam mal) ou uma moldura com uma fotografia. Que falta faz a velha e grande caixa, meu amigo!
Confesso que ainda não vi, aqui ou aí, um “naperon” encima do ecrã de um computador portátil. Mas já os vi nos micro-ondas, em todos os tipos de mesas, em bares (aqueles de sala que estiveram tanto em moda), em estantes, em armários (aqueles de sala, com portas de vidro, onde se guarda a loiça que nunca se usa, que estão tanto na moda), em fogões ou em arcas frigoríficas.
Portugueses e cabo-verdianos partilham o requintado gosto pela renda branca, sem vergonha mesmo quando feita com menos arte, porque foi feito pela filha, de sete anos, sem ajuda.
As novas televisões, os novos computadores, vieram abalar a cultura dos “naperons”. Mas, meu amigo, não duvido que, pelo menos aqui e aí, que não nos falhem os dedos, que não nos faltem as agulhas, enquanto houver uma simples mesa.

Um abraço

Fernando Peixeiro


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