Caro amigo,
li na tua carta um certo desencanto. Dizes que não, que não és pessimista não senhor, mas imagino-te por aí, de sobrolho franzido, olhar sombrio e uma vontade de fazer como se faz aos computadores quando eles começam a dar problemas a mais: formatar esse país.
Por isso quero falar-te de três homens e de um cão que conheci aqui na Praia. Lá vem ele outra vez com os cães! O homem está fixado! Dirás tu. Não. Mas o bichinho existe e com muito melhor aspecto do que aqueles que montaram acampamento na duna da minha porta.
Michel, Domingos e João partilham aquilo que para eles é a sua casa, digamos de três assoalhadas muito arejadas. Dois quartos, uma cozinha tipo “kitchnet”, uma sala e uma enoooorme casa de banho.
Michel é o mais novo e animado dos três. Tem projectos, fala que se farta, veste uma bata branca por cima de calções e t-shirt que lhe dá um ar professoral. É o líder do grupo. Domingos é o mais velho, mais calmo, atento, observador, daquelas pessoas que fala pouco mas quando o faz todos o escutam. João, apesar de sete anos mais velho do que Michel, é o mais calado. Não é envergonhado, não está chateado, nada disso, é pura e simplesmente calado.
Michel, Domingos e João vivem no pior sítio que se possa imaginar aqui na ilha de Santiago: em plena lixeira da Cidade da Praia.
Para se lá chegar vai-se pela estrada que leva à Cidade Velha e depois corta-se à direita. O entulho começa logo ali, mas percorre-se depois um extenso caminho entre montanhas de lixarada até um pedaço de descampado que é onde os camiões do lixo, todos os dias, despejam os detritos de mais de cem mil almas.
E quando ali chegas, com o ar condicionado do carro ligado, não te apetece sair. O calor, sempre uma constante aqui na ilha, ali parece custar mais, enrolado no fumo que nunca pára de sair dos montes de esterco e na mistura de cheiros que nem imaginas.
Ali, naquele lugar inóspito, tudo parece mau. As aves brancas, lembrando abutres, que sobrevoam os montes de lixo, as vacas que comem ali não sei o quê, e as pessoas, que todos os dias de manhã rumam à lixeira para procurar, dizem, comida para os porcos. E, acredita, crianças, algumas que ainda mal sabem falar.
Chegam de manhã, no “cheiro” dos carros do lixo, e vão embora quando cada saco já foi esventrado, vasculhado, revolvido. Michel, Domingos e João, sempre acompanhados pelo cão, não se misturam. Eles têm o dia inteiro para, minuciosamente, ir à aventura do lixo, cada monte uma incógnita, ali uma laranja meio podre, acolá um pedaço de pão, mais além uma boa febra. Mas, mais do que isso, os três procuram pedaços de cobre, pedaços de alumínio ou de bronze, que depois vendem na capital para com esse dinheiro comprarem arroz e óleo.
E contam-me isto tudo na tal casa. Dois restos de automóvel em forma de “el” fazem de quartos e ao mesmo tempo de paredes, outra parede é feita de dois frigoríficos velhos deitados, sem portas, onde cozinham, e a quarta parede é feita de molas de colchão empilhadas, pedaços ferrugentos de chapa. Quatro paredes, meu amigo, que não são caiadas e onde não há um cheirinho a alecrim.
Não sei como, mas os três dizem que não passam fome, o que aliás é bom de ver pelo aspecto que têm. Nem o cão, que tem ares de ser bem tratado. Tomam banho no mar ou num tanque que conhecem. Bebem de um poço. Deitam-se a ouvir música de um pequeno rádio. Não pagam electricidade nem nada desses “luxos”. A casa de banho é tudo à volta. Não se preocupam em não deitar lixo para o chão.
São felizes? Estão conformados? Claro que não. Michel quer ir ter com a mãe à Holanda, os outros querem trabalhar e viver numa casa a sério. Mas não vi naqueles homens um pingo de pessimismo, de conformismo tão pouco. Nem me disseram mal do governo. E receberam-me no seu recinto sem vergonha. Notei-lhes, isso sim, um ar de reprovação e de desdém pelas vidas dos outros, os que de manhã chegam atrás dos camiões do lixo e que depois vão embora.
“Dizem que é para dar aos porcos mas muitos vêm buscar para comer”, conta Michel.
Lamento as vidas de uns e de outros, mas louvo a dignidade com que os três encaram a que levam na lixeira.
E o que tem a dignidade destes homens a ver com Portugal e com o 25 de Abril? perguntas tu. Nada, mas apeteceu-me contar-te. Respondo eu.
Um abraço sem fumos nem cheiros.
Fernando Peixeiro

