Quatro da manhã
Publicado por Fernando Peixeiro 12 Maio 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Visto que persistes nesse teu mutismo, a não ligares nenhuma às minhas cartas, calado que nem um rato, venho só dar-te um conselho. Andas cansado? Com muito trabalho? Sem vontade? Desinspirado? (Ando a inventar palavras agora). Aborrecido? Começa a levantar-te às quatro da manhã e vai dar um mergulho à praia. Aqui funciona. Parece.
A semana passada, por causa das eleições autárquicas do próximo domingo, falei com dois presidentes da câmara aqui. Um do partido no poder e outra da oposição. Um homem e uma mulher. Um da câmara da capital, em Santiago, e outro da segunda câmara mais importante, na ilha de S. Vicente. Os dois levantam-se às quatro da manhã.
Mas às quatro da manhã, dirás tu, ainda é noite cerrada. Ah pois é, respondo eu, que sei bem quando me deito a essa hora que não se vê qualquer sinal de claridade, salvo a das luzes da rua, se a empresa de electricidade estiver para aí virada.
Mas curiosamente dizem os dois que é a essa hora que se sentem mais produtivos. Ao contrário de muito boa gente, que de manhã diz que não funciona, é a essa hora que fazem consultas na Internet, que analisam dossiers, que decidem coisas.
Depois, ela, Isaura Gomes, vai correr para a Baia das Gatas, ao raiar do dia, e ele, Felisberto Vieira, está à mesma hora aqui na praia da Quebra Canela a fazer o seu cross.
Os dois à mesma hora dão depois um mergulho, nadam um pouco, metem-se no carro, voltam a casa, tomam banho de água doce, e às oito da manhã já estão na Câmara, antes mesmo dos primeiros funcionários.
Os dois têm ar saudável, têm necessariamente muito trabalho, e aparentemente não estão cansados, porque andam a esta hora aí pelas ruas das suas cidades, a pedir que votem neles para mais quatro anos à frente das respectivas autarquias.
Que aqui em Cabo Verde as pessoas se levantam muito cedo não é novidade. Devias ver o mar de cabecinhas dentro de água às seis e tal da manhã, como já me aconteceu presenciar em dias, excepcionais, que tive de andar por aí a essa hora.
Agora levantar às quatro da manhã? A que horas é que esta gente se deita?
Caro amigo, tenho de te deixar agora. Escrevo-te mesmo só para te deixar esta sugestão. Quatro da manhã. Corrida pela avenida de Roma, a fintar os carros dos bêbados que vão para casa e essa hora. Se estiver a chover melhor, que já não precisas de banho de mar. Ás cinco da manhã escreves-me a contar se foste assaltado. Prometo que te leio um pouco mais tarde.
Um abraço fresquinho
Fernando Peixeiro



Ó António, deixa lá o tarado do Peixeiro. Não lhe ligues que o gajo é pirulas de todo. Doido varrido… enfim, um estaróla! Atão está o tipo a dizer para te levantares às quatro da matina, começares a correr pela avenida não sei das quantas, especialmente se chover para poupares na água do chuveiro!!?? Porra. Um homem não aguenta tudo. Pior que isto só mesmo o gajo começar a dizer que tens que ir para umas termas durante seis semanas, fazer umas massagens brasileiras ou checas e essas cenas do género. Eu, pelo contrário, dou como conselho uns livrinhos que há agora à venda que explicam como ter gosto no trabalho, como motivar os companheiros, subordinados ou ordenantes, como ir feliz, alegre e contente para o emprego, como sorrir perante as adversidades… Vês, António, como eu é que sei destas coisas!!?? É que tudo passa pelo em estar no local de trabalho, estar em paz com os colegas de trabalho… colegas e não camaradas como se dizia antigamente quando nos referiamos aos outros jornalistas, mas isso já lá vai, isso agora é para a tropa, nós somos todos colegas, todos… putas! Vá lá António, compra o tal livrinho que ensina a sorrir no local de trabalho e verás que poderás levantar o corpo da cama cada vez mais tarde. E tu, Peixeiro, faz o mesmo, e compreenderás a estultícia que é aconselhares os outros a levantar o cu da cama pelas quatro da manhã!!!
O Fernando ainda não perdeu o sentido de humor. Isso é bom sinal. Faz como ele diz, não faças como ele faz. No levantar cedo, claro.
Abraços