Caro amigo
Está um homem com tudo controlado, a sair de uma reunião no Ministério dos Negócios Estrangeiros, agarrado ao telefone a prometer que em 10 minutos está pronto para levar dois amigos ao aeroporto, e dá-se conta que não tem chaves. Do escritório, do carro e de casa. Deixa os amigos pendurados, trabalho por fazer, e está num corrupio de telefonemas a tentar resolver o problema quando recebe uma intimação: tens uma hora para estares em minha casa, tens de vir cá jantar. Não podes falhar. O podes assim tipo sem direito a recusa. Estás a ver?
Cai-nos de repente o mundo encima e o que queremos mesmo é que nos deixem em paz, porque tens mil e uma coisas para resolver naquele momento. Nem pensar, estás obrigado a um jantar, que ao menos não é de traje de gala, o mesmo é dizer, de fato e gravata.
Para atalhar caminho, resolvo o problema das chaves, os amigos vão de táxi para o aeroporto e à hora do jantar lá estou, porque o convite era de outro amigo e a esses não se podem recusar convites para jantar. Nem supostamente pedidos para boleia até ali ao aeroporto. Pois.
Mas o caso das chaves, de resto, morreu antes mesmo dos aperitivos, quando o maestro António Vitorino de Almeida, contava o que lhe acontecera na ilha do Sal, no dia anterior, o primeiro do músico em Cabo Verde.
Como qualquer turista, e a sugestão do hotel, alugou um táxi, um táxi desconhecido segundo o recepcionista o que não abona muito a favor do taxista, dizia eu alugou um táxi e foi ver as salinas do Sal, sempre de máquina de filmar às costas, um hábito que lhe vem da juventude.
Vistas as salinas, fala-se de tubarões. “O senhor quer ver tubarões? Eu mostro-lhe tubarões”, diz o taxista. E o maestro, desconfiado: “claro que quero”.
E lá partem, deserto fora, à busca dos tubarões. Areal sem fim e às tantas uma casa. Um casinhoto, um casebre, como diria o maestro. O taxista pára o carro, da casa sai um homem que entra no carro. Mau! Não acredito em bruxas mas… terá pensado o homem, sem entender crioulo sempre a filmar tudo porque… enfim… podia dar jeito.
“E o senhor quem é?”. António Vitorino de Almeida lá se encheu de coragem e perguntou, simpaticamente e de sorriso rasgado ao terceiro homem.
Já nem teve resposta porque entretanto o táxi afundou-se na areia. Primeiro saíram os dois homens e depois o terceiro, o maestro. Mal não lhe iriam fazer, porque se fosse o caso não estariam para ali os dois, de cabeça baixa e costas voltadas para ele, à mercê de duas pedradas sincronizadas por mãos experimentadas de pianista.
Um problema resolvido. Faltava o outro. O carro afundava-se mais, os homens sem o telefone do hotel, o maestro sem o telefone do hotel e o telemóvel a tocar. A secretária de um presidente de Câmara do norte de Portugal.
O maestro telefona à mulher, esta telefona para Cabo Verde, e no meio de tantas linhas cruzadas chega um carro. O maestro, finalmente, chegou ao mar, que afinal até não estava a muitos minutos a pé. E acreditas? Viu tubarões mesmo ali a dois metros. Tanto foi o espanto que nem os filmou.
Esta sim, caro amigo, é uma história com sumo, obviamente ainda mais contada por aquele que já escreveu, que me lembre, dois livros, Coca-Cola Killer e… agora tenho de me rir… Tubarão 2000.
Mas posso garantir-te que me ri ainda mais quando ele contou, pausadamente e com pormenores, uma ida a Odivelas, aqui há uns anos, para fazer uma palestra sobre o compositor Prokofiev.
Noite escura, pessoas à porta e chega António Vitorino de Almeida, recebido efusivamente à chegada.
De imediato convidado a entrar, na sala, já quase cheia, distribuíam-se barcos à vela no palco. Pequenos barcos.
- O senhor já jantou?
- Não, por acaso ainda não.
- Então venha ali comer qualquer coisinha.
- Mas não é chato? As pessoas estão à espera…
- Não se preocupe, não demora tempo nenhum, eles esperam.
Diálogo acabado e o maestro já está sentado a uma mesa, um belo bife à frente, e no palco continuavam a passar barcos à vela.
Acaba o jantar, aproxima-se do palco, entre cumprimentos e palmadas nas costas, e pergunta-lhe o organizador: “não quer dizer qualquer coisinha?”.
“Concerteza”, responde o maestro, “estou cá para isso”.
A distribuição dos barcos termina, António Vitorino de Almeida sobe ao palco e faz-se silêncio na sala. O maestro olha as pessoas, volta a olhar, e pergunta ao anfitrião:
- Vocês estão à espera de uma conferência sobre Prokofiev?
E este responde: Prokofiev? Não!
Um abraço
Fernando Peixeiro


Adendo, se possível, quando o Maestro, com graça e rapidez, numa conferência sobre comunicação, nos idos de ’80, resolveu um problema ao catrunista Sam, se uma assentada.
Falava o Sam sobre o traço e a ironia, perante uma plateia de jovens estudantes quando se engasga com uma pipoca de cortesia. Ao ver o amigo e conhecido em apuros, levanta-se o maestro e aplica-lhe tal palmada nas costas que o velho e bom desenhador aterra com as ventas no tampo da mesa. Remédio santo, a pipoca desengasga-se, mas o nariz do artista do traço agora sangra.
Ao que o Maestro responde, passando a mão no ombro de Sam: mais vale a dor do que a vergonha…