Primeiro mês nas ilhas

Caro António,

Um mês de calor! Passados poucos mais de 30 dias desde que cheguei à Cidade da Praia é isto que apetece dizer primeiro de Cabo Verde. E a coisa, dizem por aqui, ainda agora está morna, porque estamos no Inverno e o calor a sério, esse, chega em Junho e depois transforma Julho e Agosto em dois meses de inferno.

É verdade que em casa só liguei ainda o ar condicionado uma única vez, mas para quem veio para aqui em finais de Janeiro, num dia em que chovia em Lisboa, os constantes 25 ou 26 graus de cá são quase tórridos.

Confesso que acompanhei, com alguma satisfação, pronto, as sucessivas vagas de frio que vocês tiveram que suportar aí, e ria-me quando no MSN me falavam dos zero graus, dos dias escuros como breu e na chuva que não parava.

Mas confesso também que às vezes senti saudades de um friozinho. É aquela mania do ser humano de nunca estar satisfeito com o que tem e por isso não aproveitar. Lembrei-me, nessa altura, de uma noite em que estava em Díli, como sempre a transpirar e cheio de calor, a falar com um colega que estava em Bruxelas, roxo de frio. Eu na varanda do hotel Turismo, provavelmente de calções, a queixar-me de tanto calor, e ele a dizer-me que tinha acabado de sair do trabalho e que estava a caminhar pela rua, onde tinha começado a nevar. Eu a dizer-lhe “neve… que bom… adorava estar aí”, e ele “tás parvo, quem me dera estar agora aí nesse calor”.

Mas este é diferente do asiático. Não há, por enquanto, a humidade que se sente para aqueles lados e a amplitude térmica é tão pequenina que quase não se dá por ela. Parece ser bom para evitar as constipações e doenças do género. Trouxe de Lisboa um pacote de lenços de papel que continuam no lugar onde os deixei quando cheguei a esta casa, excepto um, que ofereci.

E praia? Deves estar tu a perguntar-te já. As praias aqui não são nada de especial, embora existam praias simpáticas nesta ilha, como no Tarrafal, por exemplo.

Sobre isso vou falar-te um dia destes, como também te vou falar das pessoas, do interior da ilha e da Cidade da Praia, uma das cidades mais feias que já vi.

Espero ter tempo para te falar do bom e do mau de Cabo Verde, porque parece-me que a ideia que se tem por aí destas ilhas não corresponde muito à verdade, talvez porque as pessoas apanham aviões para aqui, chegam ao aeroporto onde um carro as leva para um resort construído num sitio estratégico, e de lá regressam ao aeroporto uma semana depois. Cabo Verde não é Santa Maria, como Portugal não é Lisboa.

Cabo Verde é comer moreia frita na Praia Baixo, arroz com feijão com os Rabelados, passar a quarta-feira de cinzas nos Órgãos, uma dia no Tarrafal, uma tarde na Cidade Velha e uma manhã no mercado do peixe.

Cabo Verde é bom? É mau? Para já é diferente do que se diz por aí, a seu tempo vou falar-te do bom, do mau e do assim-assim de Cabo Verde.

Cumprimentos

Fernando Peixeiro


PARCEIROS