Se é pam vivê na es mal
De ca tem
Quem que q´rem,
Ma´n q´re morre sem luz
Na nha cruz,
Na es dor
De dâ nha bida
Na martírio de amor!
(Morna Aguada, Eugénio Tavares)
Caro amigo
Imagina que vais milheiral fora e dás de caras com um busto, em pedra, e logo a seguir com uma estátua a simbolizar uma deusa da antiguidade. Que segues uma estrada poeirenta, a caminho de sítio nenhum, e encontras uma árvore feita de ferro, a fazer lembrar a árvore do Ténéré, e que mais adiante te aparece uma instalação feita apenas de sapatos de múltiplas cores. Porto Madeira é assim.
Porto Madeira fica aqui na ilha de Santiago e é uma pequena aldeia de casas dispersas que os habitantes estão a pouco e pouco a transformar no primeiro projecto de turismo cultural do arquipélago, onde em cada esquina ou caminho há esculturas, pinturas ou instalações.
Por ali moram nem chega a 500 pessoas, que há oito anos embarcaram num projecto que lhes apresentou uma filha da terra e que eles abraçaram, com o mesmo calor com que abraçam quem os visita. Senti esse carinho quando andei por lá. Sorrisos francos. Convites para entrar. Beber um copo de água, falar, descansar um pouco.
As pessoas, é certo, fazem da aldeia um lugar especial. Mas não só. Por caminhos de terra chegamos a casas normais, pequenas e humildes, com pinturas nas fachadas, seguimos por um atalho de árvores pintadas e passamos por um anfiteatro feito de pedra e ladeado de palha.
Andar em Porto Madeira é uma descoberta, uma surpresa em cada curva do caminho. É querer voltar com mais tempo, passar ali um dia, um fim-de-semana, uma semana talvez.
Na verdade foi isso que quis Maria Isabel Alves, conhecida por Mizá (já te falei dela), também ela artista, pintora, antiga emigrante mas que viveu a infância na aldeia, numa casa que hoje está preparada para receber artistas e que se chama precisamente “Casa do Artista”.
Fazer de Porto Madeira um lugar de artistas, um turismo para a cultura, onde as pessoas possam aproveitar a paisagem, entre a montanha e o mar, descansar, e, porque não, deixar um pouco da sua arte.
Por ali, entre os restos dos milheirais do Verão passado, entre casinhas a ser reabilitadas, 10 ao todo, cada uma a representar uma ilha, há vestígios dessas inspirações.
Mizá diz que também está a ser feita uma biblioteca, que vai haver espaço para receber muitos turistas artistas, que é preciso abrir um parque de estacionamento. Fala com entusiasmo da aldeia, do que é e do que vai ser, do “O Vale do Amor”, uma zona de esculturas de cada continente dedicadas à mulher, do “Caminho Poético”, quatro quilómetros com obras de 30 em 30 metros a terminarem numa estrutura com textos de poetas de todos os continentes.
Quer “fazer de Porto Madeira uma plataforma de arte contemporânea”, um “projecto único em Cabo Verde e no Mundo, porque o Mundo não tem uma aldeia livre, com a sua população, a sua juventude, com um cruzamento de culturas, capaz de potenciar as capacidade dos artistas”.
Fala sem parar. Ouvindo-a vejo já Porto Madeira daqui a uns anos, instalações, pinturas, esculturas, uma escola de arte. E acredito. Porque já hoje Porto Madeira é uma aldeia especial.
Não é só Porto Madeira. Cabo Verde é especial. E Mizá não me deixa perguntar porquê.
È o único país do Mundo onde um poema de amor ilustra uma nota de banco.
Um abraço
Fernando Peixeiro



atão? cabo verde fechou pra balanço?para quando mais uma cronica ? bjs gina